Lançamos a pergunta para dois professores educadores, cada qual em seu desafio diário; uma Terra Indígena Guarani na cidade de Eldorado (SP) e outro lecionando em uma escola municipal de Cosmópolis (SP);

Dirceu Gonçalves Vilharve, seu nome guarani mbya é Tupã Mirim “pequeno Deus do trovão”; 

Dirceu Gonçalves Vilharve, seu nome guarani mbya é Tupã Mirim “pequeno Deus do trovão”;

“Tenho 32 anos, moro na Terra Indígena Guarani de Takuari, em Eldorado – SP. Moro aqui há pouco mais que 5 anos, e atuo na sala/na educação a dois anos. Atuo na área de conhecimentos de ciências humanas, tenho duas turmas multisseriadas; Fundamental II/anos finais e Ensino Médio. Durante a atuação, durante esse tempo aprendi muito mais do que ensino, as crianças nos oferecem a oportunidade de nos doar o máximo de nós mesmos. Passamos desafios durante a nossa caminhada. O maior desafio é justamente por serem turmas multisseriadas e também com alunos com dificuldades específicos, que com a pandemia veio tornar mais difícil para professor(a) atuar. Tivemos de nos habituar e se adequar às aulas remotas, primeiro os professores, para depois preparar essa novidade do uso de tecnologia para os alunos, então é um enorme desafio. Mas quando somos de uma comunidade guarani e tudo acontece de forma coletiva e a escola é dentro dessa comunidade, acontece flexibilização maior pois, impossível adotar aulas online a todo momento, até mesmo por maioria dos alunos não possuírem aparelhos e Internet em casa, também por conta dos pais dos alunos não conseguirem ajudar com as atividades.

Mas apesar dessas dificuldades os professores sempre fazem o possível para oferecer a melhor opção da educação, para que não parássemos e aceitar o desafio. Afinal desses desafios que podemos dar o nosso melhor!”. 

Tiago Pinto, professor de Geografia, Ensino Fundamental, anos finais, na EMEB Estudante Ximena Coelho Pereira, em Cosmópolis, SP:

Tiago Pinto, professor de Geografia, Ensino Fundamental, anos finais, na EMEB Estudante Ximena Coelho Pereira, em Cosmópolis, SP;

“Acredito que o maior desafio do professor frente à educação é reestruturar o processo de ensino e aprendizagem em âmbito escolar considerando o contexto social e tecnológico em que vivemos, para que assim os estudantes consigam atribuir sentido aos conteúdos discutidos em sala de aula, possibilitando uma adequada formação crítica e científica”.

Dia do Professor e o Ensino Híbrido

A comemoração do Dia do Professor em 2021 tem uma ampla simbologia na reflexão sobre o que vem acontecendo com o papel do professor na educação brasileira, pois, é o ano que o Brasil comemora os 100 anos do educador Paulo Freire, e o segundo ano de ensino remoto emergencial imposto pela pandemia da Covid-19. O ensino remoto emergencial colocou o professor na difícil situação, inesperada, de produtor de conteúdo da noite para o dia, desgastando-o emocionalmente e profissionalmente. 

O papel do professor na educação dos brasileiros sempre foi ponderado pela falta de reconhecimento político e remuneração aquém do que este representa para a nação. Portanto, não há como não questionar o papel do professor frente ao desafio da pedagogia tecnicista, a qual subordina o professor aos processos e métodos através das reformas do ensino com o objetivo da implementação do Ensino Híbrido.

A reforma global da educação, que já acontece em vários países, vem estabelecendo uma avaliação de larga escala e pode avançar ainda mais com a digitalização e a introdução de tecnologias sob plataformas dentro da sala de aula, devido à pressão das mudanças no mercado de trabalho. A reforma não é implantada de uma única vez, as medidas avançam, recuam, numa estratégia de adesão. 

O Ensino à Distância é uma instância comercial. Uma outra instância comercial tem o objetivo de colocar a plataforma na sala de aula do lado do professor concretizando o Ensino Híbrido. Então, o Ensino Híbrido oferecerá uma plataforma responsável pela aprendizagem do estudante com a assistência do professor, numa construção cultural de que o mérito é essencial. Nesse modelo, os alunos deverão demonstrar o tempo todo os seus méritos numa hierarquia de métodos. 

Uma escola que forma alunos por méritos rompe o contrato social pela lógica da inclusão social. A troca de uma educação de inclusão social por uma educação de méritos instala a pura concorrência e disputa entre os alunos formando indivíduos individualizados que não se encaixam numa lógica de sociedade democrática e cidadã. O lema é o indivíduo responsável pela própria sobrevivência, independente da sociedade, pois, a sociedade quem define são os políticos. 

Esse modelo de educação, uma vez implantado, através da padronização da educação com as Bases; da ênfase no ensino de competências e habilidades básicas; do ensino voltado para resultados pré-determinados; da transformação de inovações geradas no âmbito empresarial; e da responsabilização baseada em testes; transformará de fato o modelo de educação que conhecemos através de Paulo Freire. 

Os danos causados por uma reforma da educação nesse nível impacta alunos e professores, pois, o tempo que se investe com a aprendizagem do aluno é diminuído para dar espaço ao treinamento dos estudantes para irem bem nas provas – isso não é ciência. 

O impacto do trabalho digital que amplia o controle e virtualiza todo o processo de avaliação e aprendizagem vai transformar o cenário educacional onde houver interesse econômico e político. Há o perigo real de que as escolas públicas, com a desculpa da alfabetização digital, sejam povoadas por plataformas híbridas de baixo custo, rebaixando a qualidade da formação da juventude, enquanto as escolas privadas de elite preservem seus filhos destas soluções, aumentando ainda mais a desigualdade educacional e a dificuldade na entrada ao mercado de trabalho.

Frente à educação no século XXI, é o professor que insere o aluno no processo de aprendizagem, independente do modelo de ensino; a presença dele humaniza o processo de ensino e aprendizagem.

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