Emiliano Di Cavalcanti (1897, RJ – 1976, RJ) é um dos heróis da arte brasileira e sua obra está na base da construção de uma visualidade moderna e renovadora no país, comprometida com a cultura local, com a função social da arte e com a formação de um imaginário sobre a identidade nacional. Quando lembramos sua produção artística, ela é sempre exemplificada em pinturas e desenhos, enquanto murais e painéis associados à arquitetura — mais de trinta em espaços públicos — são tratados como secundários, decorativos. Seu “muralismo” é injustamente tomado como derivação do movimento histórico mexicano.

Modernismo

Onde e quando Di Cavalcanti teria tido contato com o muralismo mexicano, da mesma forma que teve com o cubismo, a pintura metafísica e o surrealismo, todos citados como fundantes da linguagem do artista? Com os três últimos, sabemos que foi em Paris, entre 1923 e 1925. E o muralismo? Esse contato aconteceu no Rio de Janeiro, em 1922, logo depois de seu retorno de São Paulo, onde fora um dos organizadores da Semana de Arte Moderna. Na, então, capital federal, envolveu-se com o grupo de artistas e arquitetos que construíram o Pavilhão Mexicano para a Exposição Internacional do Primeiro Centenário da Independência do Brasil, em setembro daquele ano, quando também teria conhecido José Vasconcelos (1882-1959), educador e filósofo, ministro da Educação e ideólogo da Revolução Mexicana (1910-1919), patrono do movimento muralista e presença das mais ilustres no evento. Coincidentemente, o Modernismo chegou aos dois países no mesmo ano, pois foi no início de 1922 que Diogo Rivera (1886-1957) e outros artistas começaram a pintar seus primeiros murais. De toda forma, é a partir desse encontro com o grupo mexicano presente na Exposição do Centenário que Di Cavalcanti estabelece uma rede de conexões e relações que constroem sua admiração e afeto pelo Mexico, seu envolvimento com o muralismo e seu projeto estético-político.

Di Cavalcanti não deriva dos mestres mexicanos. Conhecia os parâmetros formais e o programa ideológico do movimento, sabia as obras que deveriam ser feitas, antes de ir a Paris. Ele é um muralista como os outros, no calor da hora, só que mais ao sul, com outra experiência e imaginário, revelando outra cultura e sociedade mestiça da América, a “raça cósmica” de Vasconcelos. 

Di Cavalcanti produziu quatro murais entre 1929 e 1937, precedendo Portinari nessa arte. Suas pinturas Serenata e Devaneio, ambas de 1927, preconizaram o primeiro mural modernista brasileiro, criado por Di em 1929 para o Teatro João Caetano no Rio de Janeiro, o díptico Samba e Carnaval. Esses painéis do teatro estão entre os trabalhos mais significativos do artista naquele período, assim como entre os mais relevantes de toda a sua produção. Trata-se de um manifesto de Di Cavalcanti, seja pela temática social e estética renovadora, pela expressão original e exemplar de uma vanguarda artístico-política, seja pelo que representa como realização plástica e simbólica de um imaginário genuinamente nacional do primeiro modernismo brasileiro.

Painel ‘Feira Nordestina’, de 1954, de Di Cavalcanti. O artista inserido no coletivo, reconhecendo-se como parte dele nos murais retratando paisagens com mulheres, pescadores, vendedores, operários, malandros ou candangos, em situação de trabalho. Transmite certa leveza em levar a vida, a despeito da realidade social que evocam.

Visibilidade

Após os murais para o Teatro João Caetano – que ainda permanecem lá -, Di Cavalcanti realiza mais três outros na década de 1930: no Cassino do Quartel do Derby, no Recife, na Escola Chile, no Rio de Janeiro, ambos em 1934 e pintados diretamente na parede, e o painel para o Pavilhão da Cia. Franco-Brasileira de Cafés na Exposição Internacional de Artes e Técnicas na Vida Moderna, em Paris. Este último parece estar desaparecido, mas ganhou medalha de ouro no evento enquanto o do Cassino do Derby foi destruído pelos militares em 1937, período em que o artista depois de preso, exilou-se na França (1936 e 1940). A grande produção dessa arte por Di Cavalcanti se desenvolve no início da década de 1950, posteriormente ao período histórico do movimento, as décadas de 1920 e 1930. Ela aparece associada ao boom econômico brasileiro após a Segunda Guerra Mundial (1935-1945), com a rápida industrialização do país, a expansão das cidades e a nova arquitetura, que propunha a integração das artes. Daí que painéis e murais passam a compor fachadas e paredes de edificações públicas e residências particulares, abrindo aos artistas a oportunidade de ampliar sua prática e a visibilidade de seu trabalho.
Nesse contexto Di Cavalcanti encontrou o momento propício para pôr em movimento seu projeto muralista. De um lado, tinha os recursos técnicos do mosaico de vidro industrializado, um meio moderno diverso da pintura de cavalete, que lhe permitia fazer obras em escala monumental, produzidas coletivamente (arquiteto, artista, mosaicistas e operários) e integradas à arquitetura na forma de superfícies impermeáveis e permanentes, uma arte aberta, nas ruas. Seus seis murais em pastilhas estão entre as obras mais bem logradas, pedras de toque na sua produção e contribuição à modernidade no Brasil.

Por outro lado, também deixou claro nos murais e painéis seu compromisso, afetivo e político, fazendo dos trabalhadores invisíveis — construção civil, indústria, imprensa e feirantes — os heróis de sua narrativa. Seus melhores trabalhos nessa estratégia retratam tudo aquilo por que Di Cavalcanti batalhou na vida: revelar a gente brasileira, mestiça e excluída, protagonista de uma cultura vital e arrebatadora, fazendo de seu trabalho uma celebração da alegria do povo com o artista.

Trabalhadores, 1955, Óleo sobre tela, 310,00 cm x 177,00 cm

Cem anos da Semana de Arte Moderna

Os murais de Di Cavalcanti produzindo entre 1925 e 1970, traz uma faceta pouco explorada do artista, uma faceta que agregava novos caminhos a esses encontros entre arte e arquitetura, assim como o figurativismo artístico trouxe novas leituras à arte abstrata que prevalecia em murais dessas construções. Di Cavalcanti, expoente do modernismo na arte brasileira, idealizador da Semana de Arte Moderna junto a figuras como Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Menotti Del Picchia, surge para uma série de realizações que tomam a cidade de São Paulo no centenário do evento, em 2022.

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