Jornal Pires Rural – Edição 241 | LIMEIRA, Junho de 2020 | Ano XV

Entrevistamos a professora Ma. Janaína de Souza Silva, a distância, sobre ‘a educação perante a realidade que a pandemia do Covid-19 impôs através do isolamento social’ – destacando a formação do professor na relação ensino-aprendizagem. Ma. Janaína nos enviou suas resposta por escrito. Formada em Pedagogia, mestre pela Unesp, doutoranda na Faculdade de Educação, Unicamp; com o tema voltado para questões de leitura e escrita, na linha da alfabetização. Professora há 17 anos da Rede Municipal de Ensino de Limeira – dos quais 12 anos, na Secretaria Municipal de Educação, onde trabalha com formação continuada de professores do ensino infantil. É professora da Faculdade Anhanguera, nos cursos de Pedagogia e Psicologia.

 pedagoga Ma. Janaína
A pedagoga Ma. Janaína de Souza Silva é professora há 17 anos da Rede Municipal de Ensino de Limeira – dos quais 12 anos, na Secretaria Municipal de Educação, onde trabalha com formação continuada de professores do ensino infantil (foto:Arquivo Pessoal)

Jornal Pires Rural: Quando você escolheu estudar pedagogia, o que lhe inspirava? De lá para cá, o que lhe inspira e mais lhe desafia na formação do professor? 

Professora Ma. Janaína de Souza Silva: Passei  minha infância apreciando e explorando as famosas brincadeiras de “escolinha”. Como de costume, quando não era eleita a professora da turma, candidatava-me para o posto. Óbvio que devido à pouca idade, não tinha clareza da importância do processo educativo presente na pedagogia para a sociedade tampouco da importância deste ato para o desenvolvimento da humanidade. Para tanto, durante as brincadeiras reproduzia com meus amigos os modelos de comportamentos vividos ou observados dos professores que tive contato. Observando os gestos, as ações e atitudes desses profissionais compreendia melhor a realidade e o fato de reproduzi-las, ajuda-me a enfrentar os dilemas do dia a dia. A título de exemplificar o dito, o fato de ajudar o estudante a realizar uma tarefa considerada “difícil”, de ser capaz de fazer a leitura de um gesto,  de responder a um olhar, um comportamento me ajuda a entender a importância da relação com o outro no processo de desenvolvimento humano. Sobre o assunto, evidencio as palavras de Vigotski, “o homem é um ser totalmente social”. O que seria do homem sem a experiência do convívio em sociedade? Considero isso fascinante! Não exatamente a “brincadeira”, embora seja fundamental para a infância, mas o que chamo de fascinante neste contexto é a compreensão de que as relações sociais desempenham papel fundamental na formação da humanidade e só a pedagogia foi capaz de revelar-me a importância desta relação para a constituição ou formação “do outro”. O leitor deste jornal pode dizer que a pedagogia não é o único curso capaz de oferecer processos de interação, de trocas, de convívio social, contudo, o próprio termo de origem grega, “Pedagogia” nos obriga a refletir acerca de sua acepção – conduzir a criança. Diante do exposto, considero que a pedagogia está a serviço do processo de humanização da criança, ou seja, colocar em prática o exercício da pedagogia me obriga a pensar no sujeito que quero formar, para qual sociedade e quais são as condições que tenho e ofereço para esse sujeito. Considero este, o maior desafio da contemporaneidade. Não está nada fácil para nós educadores, diante do atual contexto de pandemia e considerando as medidas necessárias de distanciamento social, exercer a atividade docente com a mesma qualidade e condição. Deixo claro que não se trata de uma questão de compromisso do professor, mas de qualidade, de condições de vida e educação. Como é possível assegurar viva a leitura de suplantar o escrito e atravessar as ações, os gestos, os olhares e atitudes durante o processo de troca e de ensino-aprendizagem. Em meu entendimento, o distanciamento prejudica e muito o trânsito dessas relações e que contribui para o prejuízo na educação escolar.  

Jornal Pires Rural: A educação sofreu muitas mudanças no nosso país. Nos anos 70, sugiram os planos de ensino, a instrução programada, os recursos audiovisuais, as técnicas de avaliação; na busca por um projeto de formação docente voltado à melhoria da educação. A reforma do ensino pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, em 1996 e, a formação de professores ganha um novo capítulo: elaborar o Plano Nacional de Educação. Você considera outros marcos na educação antes da realidade imposta pela pandemia do Covid-19 ? Qual é o tamanho da importância desse marco ou ‘ruptura’ provocado pela pandemia na relação entre escola e aluno? 

Professora Ma. Janaína de Souza Silva: O Plano Nacional de Educação sancionado no ano de 2014, apresenta 20 metas que devem ser cumpridas até o final de sua vigência, ou seja, no ano de 2024. Além dos destaques apresentados no documento no que diz respeito a formação inicial e continuada do professor, a elaboração da Base Curricular Nacional, e as metas estabelecidas para a alfabetização plena de todos os estudantes, em especial a meta 5, em meu entendimento, são os maiores marcos para a educação brasileira dos últimos dez anos. Salvo algumas questões que necessitam ampliar e aprofundar as discussões, tais como, condições de oferta, demanda e implementação das políticas de educação, considero estes acontecimentos como cruciais para promover a equidade e não igualdade nos processos educativos do país de modo que estes contribuam para o desenvolvimento integral de todos os estudantes. Sem dúvida, o contexto da pandemia não colabora para a eficácia desses destaques. No entanto, a pandemia provoca ações, movimentos que nos obriga a “reinventar” processos que tentem ao menos “minimizar” esse prejuízo. As aulas “on-line”, as famosas TICs — Tecnologias de Informação e Comunicação, invadiram definitivamente as salas de aula. Hoje, boa parte do trabalho educativo que a escola oferece assume o modelo e tendência digital e a distância. De uma hora para outra fomos obrigados a inovar e assumir um novo modelo de educação incorporando outros comportamentos e ferramentas nesse processo. Eis um novo e grande desafio para a educação, manter e alimentar a relação de ensino-aprendizagem, ou seja, estimular a “relação social” com meu educando a distância. 

Jornal Pires Rural: Há algum tempo, ouvimos que num futuro próximo teríamos o ensino através das plataformas digitais. Além dessa afirmação, tínhamos os dados da precariedade do acesso à internet e a falta de uma estrutura adequada pelas famílias carentes para a realização de tal desafio. Quais desafios se impuseram para a relação ensino-aprendizagem, além daqueles já conhecidos antes da pandemia?

Professora Ma. Janaína de Souza Silva: Consoante ao dito em linhas anteriores, as condições de educação oferecidas pela escola pública nem sempre são as melhores. Embora os documentos reconheçam a importância dos recursos e condições materiais para o desenvolvimento dessa prática, os registros apresentam apenas “ações intencionais”. Na prática o que nos é oferecido não dialoga com o que está em destaque nos documentos oficiais. Por um lado, lidamos com escassez de materiais considerados pelos educadores como básicos para a educação, e por outro,  enfrentamos a ausência de competência técnica que saiba utilizar as ferramentas digitais. É claro que não se pode generalizar. Prova disso é o fato de que embora a escola enfrente condições precárias dessa natureza, isto é, condições pouco favoráveis para a utilização e implementação das TICs, reconhecendo a importância desse trabalho para o êxito da aprendizagem de seus educandos, boa parte das equipes gestoras das escolas públicas do nosso município, buscam parcerias com secretaria de educação, universidades, comunidade e empresas que possam investir em formação continuada de modo a possibilitar suporte aos docentes para colocar em prática o trabalho com as ferramentas digitais bem como colaborem para a obtenção de insumos digitais.

Jornal Pires Rural: O professor sempre foi a “ponte” na relação do aluno com os conteúdos, um mediador. Com a imposição das aulas remotas a educação teve que agregar um novo personagem: os pais (ou responsáveis), agora considerados um auxiliar direto do professor. Como você enxerga esse novo componente na disseminação do conteúdo, na relação ensino aprendizagem?

Professora Ma. Janaína de Souza Silva: Parto do princípio de que a educação escolar é insubstituível, portanto, salvo exceções, a família pode exercer o papel de facilitadora, mediadora, contudo, cabe ao técnico exercer o papel de professor uma vez que este profissional tem preparo adequado e estudo para isso. O que a família pode fazer, principalmente diante de excepcional situação de pandemia,  é possibilitar por meio do processo de interação possibilidades de desenvolvimento e conclusão das atividades propostas pelas instituições escolares. A unidade escolar não pode perder de vista sua função – ensinar. Tampouco a família não pode negligenciar possibilidades da criança ampliar e reforçar os conhecimentos aprendidos nas instituições escolares.

Jornal Pires Rural: Ao longo da história, a sociedade depositou todas as expectativas na educação para atingir o almejado desenvolvimento. O professor esteve à frente, na representação da educação para a sociedade, sofrendo muita pressão por imensa responsabilidade. Existe de fato, uma pressão da sociedade sobre o papel desempenhado pelo professor na educação? 

Professora Ma. Janaína de Souza Silva: Sem dúvida. A sociedade tenta impor todas as mazelas causadas para a educação. Poucos reconhecem que a educação sofre influências históricas e sociais, que somos frutos de uma sociedade desigual e por isso enfrentamos os desajustes das condições efetivas de vida e educação. Não penso que a formação moral seja conteúdo exclusivo da escola, a família, a comunidade tem parcela de responsabilidade na formação moral e social desse sujeito. 

Jornal Pires Rural: As escolas particulares estão convivendo com os números da evasão escolar devido às consequências da crise econômica imposta pela pandemia do Covid-19. Na escola pública, o isolamento social distanciou a relação do aluno com aquilo que ele tinha como modelo de escola e ensino aprendizagem. Os professores já conseguem ter uma avaliação que aponte os resultados de aproveitamento e interesse, neste período de quarentena? Como você imagina a volta dos alunos para a escola física? 

Professora Ma. Janaína de Souza Silva: Conforme dito, não está fácil para ninguém. A suspensão das atividades escolares presenciais não favorece em nada a aprendizagem das crianças. Para além das relações entre professor e estudante, a escola é espaço de aprendizagens, de socialização dos saberes de partilha de conhecimentos. Com ausência dessas atividades, os mais prejudicados na situação de isolamento social são as próprias crianças, por isso a importância de que as possibilidades de atividades oferecidas pelas instituições escolares, bem como trabalho coletivo em parceria com a família sejam propulsores de acesso ao conhecimento e fortalecimento das relações entre os estudantes e a instituição escolar. 

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