Entrevistei Dirceu Gonçalves Vilharve, Tupã Mirim, em Guarani, 31 anos, professor da Escola Takuari, Aldeia Takuari, em Eldorado, SP, leciona as disciplinas de história, geografia, filosofia para o Ensino Fundamental e Médio e saberes tradicionais – “são os conhecimentos dos saberes ancestrais, o que a gente sabe, o que a gente conhece, para os nossos alunos valorizando a nossa cultura”, afirmou. 

Os Povos Indígenas possuem seus processos educativos próprios, que ocorrem em diferentes espaços e tempos de ensino e aprendizagem, de acordo com as suas culturas e que, portanto, dizem respeito à transmissão de conhecimentos e técnicas, atividades tradicionais, rituais, modos próprios de manejo dos recursos naturais e de gestão do território, produção do artesanato, entre outros conhecimentos próprios.

A entrevista (a distância) com o jovem professor é a oportunidade de trazer um recorte da realidade do sistema educacional do Estado de São Paulo no território indígena. Ao trazer a pauta indígena para esse veículo de comunicação, há a intenção de comunicar a realidade, através dela possamos reconhecer e respeitar os povos originários. É necessário ouvir, é necessário falar, é necessário reconhecer o que antes foi ‘ensinado’ pelo próprio sistema de ensino que o termo ‘índio’ não existe e que indígenas não tem ‘tribo’, tem território. 

“Falando e conhecendo a história do Brasil, hoje em dia, é muito difícil para mim, Dirceu, falando, dizer que sou indígena, que eu sou um índio. Mas sim, sou do povo originário do país Brasil – antigamente chamado de Pindorama. Esse termo índio, indígena, foi trazido pelos portugueses, pelos espanhóis, na época do tal ‘descobrimento’. Um ‘descobrimento’ que seria mais uma invasão, por erro da rota, porque os navegantes tinham como destino a Índia, então, chegaram no país Brasil Pindorama achando que chegaram na Índia – os primeiros habitantes que eles avistaram os chamaram de índio”, explicou Tupã Mirim. 

Jornal Pires Rural: Fale um pouco mais sobre o que você pensa sobre o erro cometido com os indígenas.

Tupã Mirim: O erro está feito. Não culpamos (ninguém) por esse uso do termo, mas, reconhecer os povos originários, os seus costumes, as suas tradições, as suas especificidades, de cada etnia. A gente não trata como povo também. A gente trata como etnia aquele grupo que fala, que tem o seu dialeto próprio, a sua forma de se comunicar e cada etnia tem a sua maneira, a sua forma de se comunicar. A gente poderia falar língua, idioma ou dialeto – uma forma de se comunicar. Esse termo índio ainda usado hoje, por muitos, inclusive nós sabemos da história, sabemos que esse termo é equivocado, porém se popularizou. Eu não sei como deveríamos inverter. Reconhecer os povos originários primeiramente, e o respeito da diversidade que o país obtém. O primeiro passo, o mais importante, talvez o fundamental, é respeitar as diversidades. 

JPR: Como se dá a formação de um professor para lecionar na comunidade de povos originários? 

Tupã Mirim: Como se forma um professor indígena ou Guarani ou Pataxó, Xavante, cada etnia, cada grupo, tem suas especificidades. Dentro de cada comunidade tem uma escola, então, para executar essa função, hoje em dia, é muito difícil se a gente não tem um histórico de formação, pelo menos o ensino médio completo – eu não tenho nenhuma formação específica, tenho o ensino médio. 

O que me agregou (a este cargo) nessa experiência de me comunicar, de conseguir me comunicar, me socializar com um grupo ou mais pessoas. É difícil do Guarani desenvolver isto (a comunicação) porque o Guarani é muito fechado, na dele, muito quieto – é o jeito do Guarani. Têm outros que se desenvolvem rápido e conseguem se comunicar com muitas pessoas – a minoria. Eu fazia parte dessa maioria, eu não sabia me comunicar diante de uma plateia, por exemplo. O que somou para a minha experiência, para a vida pessoal e profissional foi fazer o curso de RH, no Senac de Registro, SP. Não tenho formação específica para lecionar numa área, mas, por essa facilidade de me comunicar e, de ter o ensino médio completo, foi possível me inscrever nas vagas que abriram. Graças a deus eu estou dando aula, é muito difícil quando você não tem formação, não conhece todo o método de como formular sua atividade, mas, a gente tem aprendizagem contínua, nunca estamos satisfeitos com uma coisa, sempre queremos aprender. Eu ensino, porém, aprendo muito com os alunos. E para filosofar é muito mais difícil até por que você trabalha o seu pensar, isto é para poucos. Não sei se estou conseguindo passar a filosofia para os meus alunos.

Hoje, aqui na comunidade, uma professora, colega e cunhada, apenas ela tem a formação em Pedagogia, ela está em busca da pós-graduação com uma experiência maior em relação aos métodos que formulam suas atividades. Então, a gente aprende com ela e ela aprende com a gente também. As nossas dificuldades é o motivo da gente continuar aprendendo. 

JPR: Você leciona para quantos alunos? 

Tupã Mirim: Eu dou aula para o Ensino Fundamental, do sexto ao nono ano, e também para o Ensino Médio. É muito difícil a gente preparar a mente de jovens nesse mundo, nesse cenário atual que convivemos, no século XXI, na era moderna. O nosso conhecimento está de frente com a tecnologia, a gente briga todos os dias com a tecnologia, é muito difícil da gente lecionar para para os alunos do Ensino Médio. Eu não vejo essa dificuldade apenas na comunidade indígena, em todo o território tem essa dificuldade. Eu dou aulas de manhã em salas multisseriadas, são 17 alunos, é muito mais difícil mas, a gente aprende com as dificuldades, e no Ensino Médio, são 9 alunos. Estamos em cinco professores da comunidade.

Dirceu Gonçalves Vilharve ou Tupã Mirim, leciona as disciplinas de história, geografia, filosofia para o Ensino Fundamental e Médio e saberes tradicionais na Escola Takuari, Aldeia Takuari, em Eldorado

JPR: Descreva a realidade do dia a dia dos seus alunos. 

Tupã Mirim: De manhã eles estudam, o cotidiano deles é conviver com as famílias, parentes, amigos, eles tem o seu momento de diversão e de estar com a família, tem seus afazeres também. O professor dentro do seu planejamento leva seus alunos para a Casa de Reza (Centro de Cultura) ali, eles aprendem como viver socialmente dentro de uma comunidade e aprender sobre a vida com os mais velhos, os mais sábios. Dentro desse Centro Cultural a gente aprende toda a maneira de ser como os nossos ancestrais viviam e de como está sendo os dias atuais e dessa forma aprendemos a valorizar as tradições, os costumes e o modo de ser. A gente não pode apenas conhecer, a gente tem que aprender a praticar, então, os professores e também os mais velhos reforçam isso todos os dias. 

A escola é uma unidade para eles (alunos) aprenderem o modo de ser, o modo de pensar, o modo que jurua (homem branco) se organiza, mas, a casa, a família é a primeira escola que eles tem com os afazeres dos meninos e das meninas. No terceiro momento, a escola é a nossa Casa de Reza que chamamos de Opy, um Centro de Cultura onde a gente aprende como filosofar com os mais velhos, os mais sábios, através das palavras divinas reveladas pelo Nhanderu que é o deus.  

JPR: Você me disse no início da conversa que nós todos, homens, permanecemos numa aprendizagem contínua. A aprendizagem é um exercício contínuo na sua comunidade? 

Tupã Mirim: O ser humano é rotativo e está em constante aprendizagem. Eu estava no curso de Recursos Humanos pelo Senac Registro, e sempre mantive essa ideia porque enquanto estamos vivos a gente continua aprendendo todos os dias sabendo lidar com as dificuldades e as diferenças impostas pela vida. A gente só acaba, só para de aprender, só para de viver, só para de reviver o nosso modo de ser ou aprendizagem da vida, só para quando a gente acaba. 

JPR: Esse aprendizado com os mais velhos é contínuo na vida adulta? Como se dá a aprendizagem de um homem com os mais velhos dentro da comunidade ? 

Tupã Mirim: Com certeza. Essa aprendizagem contínua continua quando você se permite. Ontem, eu estava falando com os meus alunos de se permitir aos novos conhecimentos através das novas dificuldades que é imposto pela vida. A partir do momento que você se permite a conhecer e buscar os seus conhecimentos, a buscar as suas soluções, você aprende. Quando não consegue mais dar ouvido achando que já está formado, que já não precisa mais aprender com os mais velhos, é uma decisão pessoal. Mas de todo modo, continuam sempre aprendendo. 

Na minha comunidade Guarani – eu falo o que eu vejo – estamos dispostos, indo a Casa de Reza pra gente aprender. Nesse Centro Cultural Opy acontece a nossa espiritualidade, lá acontecem revelações divinas com o pajé. Através dessa reza do pajé ou de outro ser humano mais jovem – que não seja pajé mas, que entra com a espiritualidade na Casa de Reza bem concentrado – , ele consegue receber palavras divinas e, consegue passar isso aos presentes. Por isso que a gente fala que nós temos que estar sempre dispostos a conhecer novas palavras, aceitar, ouvir, e respeitar; o processo é contínuo. 

JPR: Como foi o seu processo de alfabetização no território Guarani? 

Tupã Mirim: Na minha época já tinha escolas mas, não tinha muitas oportunidades onde tudo era mais distante. Fui alfabetizado com sete para oito anos de idade, foi quando eu conheci a escola dentro da comunidade. Na época, não tínhamos professores indígenas da comunidade. Os professores eram pessoas de fora da comunidade. Toda a alfabetização já aprendia a língua portuguesa, hoje, as crianças da minha comunidade aprendem o português e o Guarani. Todas as matérias que não seja do Guarani, na época, era precário, não tinha ainda como lecionar em dialeto Guarani. O acesso ao dialeto Guarani não é muito novo talvez tenha um pouco mais de uma década. As lideranças começaram a perceber que na comunidade estava sendo aplicada matérias que não tinha essa convivência dos saberes tradicionais, não tinha menção sobre a língua, o dialeto pelos povos. A partir dessa percepção, a comunidade junto com as lideranças moviam pedidos de solicitações aos poderes públicos para que as escolas dentro da comunidade levassem um pouco mais sobre a cultura, a forma de como ensinar, o que ensinar. A partir disso, veio pegando o gancho pra admitir os professores da comunidade. Por que quem que vai ensinar o dialeto de uma etnia às suas crianças? Jurua não ia conseguir. A partir disso começou essa briga para que as Secretarias da Educação junto com o Governo pudessem criar um sistema mais próprio para as escolas das comunidades. O Guarani conseguiu esse espaço, se é pra falar dos indígenas, da sua etnia, tem que ser da comunidade. E para falar de saberes tradicionais, o jurua com seus estudos sabem muita coisa, porém, na prática como que isso é feito, respeitando o tempo, a época de cada coisa que é feito no conhecimento de uma etnia, o jurua não ia conseguir, e, essa prática é tão importante. A escrita não é nossa, só que a gente adotou a escrita como uma forma de muita gente se comunicar. A pronúncia, as falas, é nossa. Nos dias atuais muitas falas mudaram assim como a palavra português mudou. A gente aprende a língua portuguesa só que não é o português de Portugal. Ninguém no Brasil fala o português, então, por que a matéria é denominada Língua Portuguesa? Até agora eu não entendi. 

Hoje, os jovens (da comunidade) falam e os mais velhos não entendem o que é falado. Com o passar do tempo, as coisas mudam, a forma de falar vai pegando outros caminhos, o jovem inventa, encurta ou alonga uma frase e muitas vezes os mais velhos questionam isso. A partir disso, veio essa briga para a Secretaria da Educação também respeitar a educação escolar dentro da comunidade e que tinha que ter a cara da comunidade. 

JPR: As etnias nunca tiveram a linguagem escrita, sempre se comunicaram de forma oral. A partir do momento que vocês tem acesso a essa política indigenista de ter um professor que é da comunidade ensinando o dialeto Guarani, vocês passaram a ter registros escritos do dialeto? Vocês tem acesso a escrita do dialeto? 

Tupã Mirim: Há registros sim, alguns livros. Hoje em dia temos escritores indígenas, eles acabam ajudando bastante porque quando é indígena, ele escreve em português, mas, ele acha interessante também destacar no dialeto, é muito rico quando o autor faz isso. Sim, a gente faz registros, temos alguns livrinhos de contos, de mitos, as crianças vão tendo acesso. Sim, o nosso conhecimento dos povos, das etnias, sempre foi oral, os conhecimentos passados de geração a geração de forma oral. Até hoje, a gente tem dificuldades pra unificar essa escrita mas, a gente conversa pra tentar pelo menos aqui no Vale do Ribeira fazer uma unificação da escrita, de como fazer essa escrita no dialeto. Porque o Guarani, um dia eu ouvi o cacique falando, “o jeito do Guarani é um pouco ‘nômade’, ele mora um pouco numa comunidade, depois quando acha que deve ir para outro lugar ele vai. Depois ele volta, visita a família e vai pra outro canto”. É um povo um pouco ‘nômade’ porém, por conta disso, por exemplo, aqui no Vale do Ribeira tem quase 20 Comunidades, a gente percebe que a forma de cada comunidade escrever é diferente, eu critico ou não acho certo a escrita do outro. E o outro não acha certo a minha escrita. Mas, dentro desse contexto todo, ninguém está certo porque a escrita não é nossa. E pra gente definir uma escrita é preciso um diálogo com outros professores, com outras comunidades pra gente tentar unificar. Porque acontece de uma família se mudar de lá de Iguape, SP, pra cá, Eldorado. Lá em Iguape ensinaram uma escrita, quando ele vem pra Eldorado, ele vê outra forma de escrita. Como o cacique fala, “ninguém está certo, a gente nunca é o dono da verdade”. 

Listagem atualizada com a localização de todas as Aldeias Indígenas do Estado de São Paulo

JPR: E você, sendo professor, como lida com essa realidade da criança que se muda com frequência, ou seja, você inicia o ano letivo dando aula para um grupo com um número de determinadas crianças e termina o ano dando aulas para um grupo totalmente diferente no mesmo ano letivo.  

Tupã Mirim: Exatamente. Esse ano começamos, por exemplo, no ensino fundamental com 12 alunos e, hoje temos 17 alunos. No ensino médio, estava com 5 alunos, hoje são 9 alunos. As professoras do Ensino Fundamental 1 tinham poucos alunos, agora, a sala está cheia. A gente tem que lidar com várias dificuldades. A gente conversa, tenta conhecer primeiramente a criança, quais são as dificuldades específicas que ela tem, se é na leitura, na escrita, ou na maneira de pensar ou se não consegue usar a cabecinha, fazer a cabecinha trabalhar. A gente tenta conhecer a criança através das dinâmicas que eu aplico pra saber o tamanho da dificuldade pra gente trabalhar. 

JPR: Quando foi que você teve acesso, que pegou nas mãos um livro que trouxesse o dialeto Guarani escrito? Qual foi o sentimento ao ler o dialeto Guarani?

Tupã Mirim: Eu devia ter 12, 13 anos, nessa idade eu desenvolvi pouco o que era essa conquista. O que me fazia olhar e poxa vida! Ver o teu desenho no livro e a tua escrita. Nessa idade, eu comecei a ver esses materiais não só do Guarani, de outras etnias também. 

JPR: O professor da aldeia tem muito mais atribuições e responsabilidades para além do ensino aprendizagem? Por exemplo, o professor, muitas vezes é convidado a assumir outras funções, como a presidência da associação da aldeia? 

Tupã Mirim: Sim. Porque o professor é a figura que a maioria o vê como uma pessoa que está apta a essas atribuições e executar funções como a de presidente da associação. São pessoas que mesmo que não estejam estudando mas, saibam pensar, dialogar e sabem pensar uma solução, então, essa pessoa também está apta. Não é só o professor, de todo modo, quando a gente fala de reuniões, fala de possíveis projetos, o professor é sempre chamado para acompanhar porque ele tem um pouco mais de facilidade de entender o que é que está passando, porque muitas vezes são usadas palavras técnicas. 

JPR: Quando criança, que sonhos você alimentava realizar? Faça uma comparação entre as suas aspirações quando criança e as aspirações das crianças e jovens da sua comunidade. 

Tupã Mirim: Na minha época, no ensino fundamental eu fui muito bem na área de matemática. Eu sonhava tentar entender o curso de Administração. E, voltando a sua pergunta, foi bem assim mesmo, porque eu tive que decidir nesse momento, quando eu estava no ensino fundamental, no estado do Espírito Santo, eu saia de casa pra estudar fora da minha comunidade, era muita dificuldade na época. Eu tinha que descer (o morro) da minha casa, andar por uma hora, duas horas, para pegar um transporte para chegar na aula noturna. Pra voltar da escola, eram duas horas pra pegar essa estrada (morro acima) até chegar em casa. No meio disso tudo, houve imprevistos, houve coisas que aconteceram que me fizeram pensar por algum momento, me fez sentir medo. Então, eu tive que decidir. Eu vim para o Estado de São Paulo, só que antes disso, eu já tinha passado por três colégios. Quando cheguei em São Paulo com 16, 17 anos, pensei, poxa, toda vez que eu estudo parece que sempre há alguma coisa que me atrapalha, não vou estudar mais. Comecei trabalhar pra sustentar a minha família – fiquei sem estudar por três anos. Voltei e fiz o EJA na época para terminar o ensino médio. Eu conto as histórias das dificuldades que eu passei para os meus alunos. Onde eles tem aulas na comunidade sem as dificuldades de ter que pegar um transporte, de ter que ter dinheiro para fazer um lanche (na escola), hoje, eles não tem as dificuldades que eu tive. 

JPR: Como as pessoas mais antigas da sua comunidade receberam a informação sobre a pandemia da Covid-19? O que eles dizem sobre a pandemia? Qual é o entendimento dos mais velhos sobre a Covid-19?

Tupã Mirim: Parece que a etnia Guarani, outras etnias, através de seus conhecimentos espirituais, o grupo já sabia. Assim que houve as primeiras mortes e que ia se agravando, o cacique juntou a comunidade na Casa de Reza e contou que antigamente, já estava profetizada para isso acontecer. Não é uma novidade, porém, os cuidados que a gente deve manter é sempre reforçado. Uma hora ia acontecer e estamos passando por isso. Nossa realidade mudou tanto pra gente como pra vocês e a partir desse acontecimento a gente reforçou um ciclo coletivo de trabalhar junto, de pensar junto e, dentro da comunidade refletir sobre o que estamos fazendo. Aonde está a nossa espiritualidade, aonde está a nossa fé? Porque tudo isso Nhanderu já sabia. Nhanderu já profetizava para os seus filhos que tinham fé. Quando a gente tem fé a gente consegue entender os acontecimentos. O cacique pediu muita calma para a nossa comunidade, para não se assustar muito, mas, não tirar dessa situação como qualquer outra. A sociedade que cuida da parte da saúde estão orientando, então, vamos tentar fazer um pouco dessas orientações dentro da nossa comunidade também.

Eu não brinco com essa situação porque já estamos quase atingindo as 500 mil mortes. Essa doença ainda não deu trégua, parece que o vírus é inteligente, não sei se é, mas acredito que seja. Quando a comunidade que cuida da saúde acha que encontrou a solução, uma maneira de se prevenir, parece que esse vírus se regenera de outra forma e volta mais forte. Hoje em dia, infelizmente, nós estamos dependentes da cidade. Antigamente nós tínhamos a própria medicina, as nossas próprias plantações, o nosso próprio alimento. Mas hoje não. Somos dependentes do supermercado, temos que sair pra comprar alimentos. Quando a gente está bem a gente esquece de Nhanderu mas, quando a gente está mal com o corpo enfraquecido é nesse momento que você sente falta e se pergunta, onde está deus pra permitir isso? Quando se perde pessoas da família, se pergunta, por que a minha família? Viemos nesse mundo para passar essas dificuldades, não é a primeira vez, e não vai ser a última que está por vir. Porque nós, seres humanos estamos acabando com o nosso planeta, o nosso egoísmo, a nossa ganância de ter mais dinheiro que o outro, essa ganância toda provocou esse desequilíbrio da natureza. 

Esse vírus é um desequilíbrio total, porque abaixo da gente, abaixo da terra, abaixo do mar, do rio, a gente não conhece quais (são os gazes) oxigênio, quais são os venenos, a gente adoece, e o nosso chão também sofre esse desequilíbrio. Isso tudo já estava profetizado há milênios de anos mas, hoje os mais velhos estão podendo vivenciar essa crise com essa doença. Eles pensam, poxa, antigamente já falavam que isso ia acontecer. Hoje eu estou podendo ver qual é o perigo disso. O rio vai secar, haverá tempo que as plantações do jurua, o solo não vai dar resultado pra germinar – é um desabafo.

JPR: Você afirma que hoje a sua comunidade é totalmente dependente da cidade. Você já morou em alguma aldeia que era totalmente sustentável na época, que não dependia da cidade? 

Tupã Mirim: Quando eu me dei por gente, quando eu já conseguia identificar o que era a minha família, o que era a minha comunidade, o que era a cidade, quando eu consegui identificar isso eu já tinha uns sete anos. Lá no Rio de Janeiro, lá em Ubatuba, não tínhamos muito contato com a sociedade jurua, a gente plantava mais, conseguia juntar mais o pessoal, conseguia se organizar melhor dentro de uma comunidade. Mas hoje, infelizmente, a tecnologia avançou bastante e de alguma forma a gente teve que se adequar, se adaptar a elas. Muitos de nós conseguem fazer o uso moderado dessas tecnologias mas, vem na cabeça dos jovens, das crianças, com mais força porque pra eles tem muitos jogos, muitos aplicativos, pra eles é muito interessante, mexe com a cabeça. Mas já vivi em Paraty-Mirim, em Ubatuba na Aldeia Boa Vista, e lá em Sapukai, em Angra dos Reis, RJ, são lugares um pouco mais afastado da cidade e conseguíamos plantar para o consumo da comunidade e, hoje aqui na Aldeia Takuari também estamos um pouco mais distante (18 km) da cidade e temos essa oportunidade. A gente tem produção de mandioca, milho, batata, um pouco de banana, porque aqui é a área do bananal e algumas famílias fazem suas hortas também – não dependemos muito da cidade. 

JPR: As aulas estão acontecendo de forma presencial na aldeia Takuari durante a pandemia?

Tupã Mirim: Aqui na comunidade não tem jurua, não tem professores da cidade. As aulas foram suspensas por algumas semanas, meses; quando a situação estava um pouco mais grave na cidade, antes da vacina. Foi importante para refletir, pensar como que esse vírus estava se desenvolvendo, e se a vacina estava a caminho – nesse tempo as aulas foram suspensas. Hoje, o país não parou e não pode parar porque jurua pensa no dinheiro e de alguma forma concordo que não pode parar. Hoje, continuamos o trabalho com o horário reduzido. Estamos numa comunidade, pra gente não adianta muito restringir a criança da escola sendo que a criança convive com outras crianças numa comunidade – fora da escola eles se encontram, brincam, na sua rotina de convivência. Não é como na cidade onde cada um tem o seu portão. É difícil quando as famílias não tem condições de manter a internet para que os filhos consigam estudar de forma remota. Quando teve que voltar as aulas de forma remota houve essa dificuldade do aluno não ter acesso a internet, não ter celular, não ter computador. Os primeiros testes que fizemos foi fazer atividades impressas e entregar na casa dos alunos pra eles fazerem. Hoje, as crianças estão indo pra escola no horário reduzido, essa é uma dificuldade para os professores, por ter pouco tempo. Colocamos álcool em gel, falamos sempre das orientações de prevenção, as crianças estão seguindo as orientações. A partir dos 16 anos estamos todos vacinados, porém os mais novos ainda não, temos essa preocupação embora estejamos dentro da comunidade. 

Tupã Mirim: “Na Casa de Reza (Centro de Cultura) a gente aprende toda a maneira de ser como os nossos ancestrais viviam e de como está sendo os dias atuais e dessa forma aprendemos a valorizar as tradições, os costumes e o modo de ser”

Consideração final:

Tupã Mirim: A forma da gente perceber e olhar o nosso mundo onde habitamos, como está, como esteve, fazer uma reflexão; cada ser humano deve fazer essa reflexão. A cidade, a população cresce e com elas vêm novos conhecimentos, novas dificuldades, novas adversidades também. Manter o respeito, fazer a reflexão coletiva e individual para que as comunidades façam um diálogo pra chegar num entendimento favorável pra nossa convivência e nosso habitat. Ressalto a dificuldade e ficamos muito preocupados e tristes quando a gente perdeu o nosso colega liderança João Lira (1978-2020) vice-diretor da Escola Estadual Indígena da Aldeia Itapuã, um dos pioneiros que batalhou bastante para que a educação escolar dentro da comunidade fosse diferenciada, do nosso jeito de ser, para manter vivo e forte o nosso dialeto e os nossos costumes. João Lira teve essa bagagem, ele teve a participação nessa conversa, o reconhecimento a ele por essa luta porque a gente em nenhum momento desistiu de nossas crianças. João Lira sempre levou forte a manter a nossa cultura – é o mínimo que a gente poderia fazer por ele, pela família, em respeito. É triste ver esse vírus desconhecido tirar alguém da nossa família. As famílias desses quase 500 mil mortos como estão? Onde eles estão? Qual é a dor que eles sentem? Aquele que ainda não perdeu alguém da família parar um pouco e refletir sobre isso.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *