A história da família Rocha tem muito a nos ensinar sobre o amor através da adoção. O casal Edvaldo e Silmara, desde que se uniram em matrimônio, uniram-se também através de atitudes assertivas, convicção positiva, não colocando em dúvida o desejo de se realizarem como pais. Veio o Gabriel completar essa relação de amor.

A prática da adoção acompanha a humanidade e ocupa diversos significados que foram se transformando de acordo com as mudanças históricas, políticas e sociais. A adoção é ilustrada em algumas passagens bíblicas, mencionada em Gênesis 16:2, em que Sara, a esposa de Abraão, diz: “Visto que o Senhor fez de mim estéril, peço-te que vás com a minha escrava. Talvez por ela, eu consiga ter filhos”. Essa fala deixa claro que, na impossibilidade de Sara engravidar, ela recorre à escrava, junto ao seu esposo, Abraão (Gênesis 16:15). 

Uma série de transformações políticas e sociais, somente na Idade Moderna, a partir do século XV, a adoção de crianças passou a ser aceita e, gradativamente, foi se consolidando na legislação. No Brasil, a adoção é instituição jurídica assegurada pela Lei do Estatuto da Criança e do Adolescente, que foi implantada em 1988 e promulgada em 13 de julho de 1990 pela Lei nº 8.069.

Silmara de Lima Rocha e o filho Gabriel de Lima Rocha, com 7 meses

A nossa sociedade está em processo de transformação e civilidade constante. Portanto, o tema adoção neste Dia das Mães é um assunto muito pertinente, estamos diante de uma pandemia há um ano, não podemos nos ausentar da generosidade com os órfãos vítimas dos mais variados motivos, que superlotam entidades assistenciais por todo o Brasil. 

“Logo depois que eu me casei, eu tentei engravidar. Um pouco antes de me casar a minha sogra Odila Frasnelli descobriu um câncer de mama. Nos casamos, ajudamos ela passar pelo tratamento e no último ano de vida dela, quando o estado de saúde dela piorou muito, ela estava muito debilitada e acamada; nós decidimos tentar novamente engravidar. Eu procurei por atendimento médico especializado aqui e optei por procurar tratamento em São Paulo. Fomos pra São Paulo, fiz o meu tratamento de fertilização lá, isso decorreu um período de um ano, com as consultas, com a realização de todos os exames, porque eles são muito criteriosos e solicitam vários tipos de exames para avaliar qual tipo de problema pode justificar a infertilidade”, contou Silmara. 

Silmara teve o diagnóstico de menopausa precoce, aos 36 anos de idade. “Eu tinha óvulos de boa qualidade — isso é avaliado — a gente tentou a fertilização. Foram retirados três óvulos, dos três, um conseguiu progredir — eles denominam pré-embrião — mas, a hora que foi implantado, não colou na parede do útero. O corpo expeliu. Eu só fiz essa tentativa e não quiz mais pelo medo das consequências do tratamento hormonal que é muito pesado. No final, o tratamento não foi positivo. E, como o médico da minha sogra havia dito que talvez, além do fator genético da família dela, o tratamento hormonal para a menopausa poderia ter influenciado a causa do câncer; eu decidi não prosseguir no tratamento. Eu só tentei uma vez e não tentei mais”, disse Silmara. 

O casal namorou por sete anos, se conheceram através de amigos em comum, até um dia surgir a oportunidade do namoro. “A gente sempre conversou naturalmente sobre ter filhos mas, nunca com a perspectiva de muitos, fosse o que Deus mandasse, um, dois, ou três. Logo em seguida, quando o resultado do meu exame deu negativo, eu imediatamente, procurei a assistente social da Vara de Família, Limeira, SP, para dar entrada no processo de interesse da adoção. Tanto que ao preencher o cadastro de intenção de adoção, lá concordamos na adoção de irmãos, até dois, porque dependendo do caso, o Juiz não separa os irmãos o que é injusto, desumano. Eu digo que é horrível você preencher aquele cadastro porque eles perguntam tudo, é super extenso, lá é necessário citar a cor dos olhos, a cor do cabelo, a cor da pele, o tipo de problema de saúde (os vários tipos, se é grave ou não), são várias perguntas; você se sente no “mercado comprando” uma criança. Eles não estão errados, não é isso, está correto, porque tem casais que chegam lá e querem uma criança com o tipo físico loiro de olhos azuis. Questiona se adotaria filhos de drogadicto, uma criança que foi molestada. O nosso cadastro foi mais abrangente, mas teve algumas restrições, equilibrando, o que meu estado psicológico daria conta de correr atrás. Quando você gesta uma criança, você não sabe o que vai vir (as características), você lançou pra Deus, para o universo. E como é que você vai dizer que quer uma criança perfeita? Nós não somos perfeitos”, avaliou Silmara. 

Silmara de Lima Rocha, Edvaldo Miguel da Rocha e Gabriel de Lima Rocha, aos dois anos

A adoção, por sua vez, adentra esse campo para viabilizar que o direito da criança ao bem-estar, ao convívio com a família e com a comunidade seja resguardado e garantido. Podem candidatar-se à adoção homens e mulheres, independentemente do seu estado civil, desde que sejam maiores de 18 anos de idade e que lhe ofereçam um ambiente familiar propício. Assim, pessoas solteiras, viúvas ou divorciadas podem adotar. 

De acordo com o art. 45, § 1º, do ECA, serão postos em adoção todas as crianças e adolescentes cujos pais biológicos ou representante legal concordem com a medida ou se os pais estiverem destituídos do poder familiar ou, ainda, se estiverem falecidos. No entanto, só será efetivamente deferida a adoção sempre que ela manifestar reais vantagens para o adotando e fundar-se em motivos legítimos.

“Passamos um ano nesse processo para a habilitação da adoção e quando foi no meu aniversário, dia 4 de fevereiro de 2013, minha sogra faleceu — depois de sete anos de sofrimento. E, no dia 29 de fevereiro, nós fomos habilitados pela juíza a entrar na fila da adoção. Em 17 de dezembro, eu recebi uma ligação da assistente social da Vara de Família, Limeira, perguntando se a gente ainda estava interessado na adoção. Eu respondi que sim, ela disse, “então vamos marcar um horário para amanhã para vocês virem até aqui para conversarmos”. O Edvaldo estava no trabalho, ele recebeu a minha ligação, “nossa, não acredito”. Fomos até lá, conversamos, ela nos explicou o caso através do calhamaço do processo, por ser uma família que já vinha sendo acompanhada há muitos anos, ocorreu a destituição do poder familiar e tanto o Juiz como o Promotor de Justiça deram o prazo de uma semana para a assistente social providenciar um lar substituto”, disse Silmara. 

O bebê estava na Associação Casa da Criança Santa Teresinha Limeira, tinha 12 dias de vida, quando foi acolhido. “A psicóloga me disse que “dificilmente isso acontece” e que no final do ano, pela questão do Natal, é comum acontecer de forma mais rápida, geralmente com crianças maiores, porque dificilmente os pais conseguem adotar bebês. Ela confirmou se estávamos de fato, dispostos, eu confirmei que estávamos sim dispostos, com certeza, eu queria ver a foto do meu filho porque ele já era o meu filho, mesmo sem o ver. Ela explicou detalhadamente como ocorreu o processo, eu perguntei quanto tempo ia demorar para nós o levarmos pra casa. Porque o procedimento normal é primeiro conhecer a criança por foto, depois os pais vão até a Casa da Criança para se conhecerem mas, isso demanda um certo tempo — são meses para os pais terem o contato com a criança e para estabelecer uma relação de confiança entre ambos. No meu caso, ela disse: “então, hoje é terça-feira, na quinta-feira você tem que vir buscar ele”, afirmou Silmara. 

“Assim passamos pelo crivo do Juiz, a assistente social e a psicologa disseram: você tem como correr atrás de tudo para recebê-lo em dois dias? Eu não tinha comprado nada porque eles (os técnicos) não aconselham comprar nada, porque muitos casais, na ansiedade de ter um filho, eles montam o quarto e idealizam tudo sem conhecer a criança, e muitas vezes não é dessa maneira que as coisas ocorrem. Eu falei pra elas que eu ia providenciar sim. Saímos todos da família mobilizados compramos berço, minha irmã Selma comprou o carrinho, minha mãe comprou o bebê conforto, comprou roupas, mamadeira, chupeta; compramos praticamente tudo em 48h. O nível de ansiedade estava a mil. A psicologa me disse que ia me ligar quando estivesse tudo pronto pra ir busca-lo, só que pra isso o Juiz precisaria assinar e estávamos na semana do Natal”, enfatizou Silmara.

“Às 18h do dia 22, ela não me ligou. Eu falei para o Edvaldo, o juiz não assinou, essa hora o Fórum já fechou e vão deixar para o início do ano que vem, depois que o Fórum reabrir. Porque tudo depende do entendimento do Juiz que está na Vara da Infância, e quem estava com o meu processo era a Dra. Daniela Mie Murata Barrichello, ela tinha saído de férias, tinha um Juiz no lugar dela. Quando foi 18:30, nós estávamos voltando da loja, onde fui buscar uma banheira para o meu bebê, ela me ligou, ‘Silmara, pode vir’. Eu falei, você está de brincadeira, ele assinou? ‘Assinou’. Estou indo agora. A minha comadre estava na loja e me perguntou ‘onde vocês estão indo?’ Estou indo buscar o meu filho. Sem entender, ela reagiu ‘como assim?’.  Eu não tinha avisado ninguém porque tudo aconteceu em dois, três dias, só a minha família sabia”, revelou Silmara. 

Gabriel de Lima Rocha

No interior do Fórum, o casal assina a guarda provisória do filho, recebe a criança e alguns pertences, uma malinha com algumas fraldas, três peças de roupas, sapatinhos, meias, para seguir pra casa com a família. “Eu cheguei lá, fiquei esperando na sala ali, quase botando o coração pela boca. Tinha uma segurança dentro do Fórum, ela viu a minha cara e me perguntou o que era, ‘é verdade? Nossa!’. Foi muita emoção eu mal conseguia assinar o papel da guarda provisória, de tanto nervoso, eu não consegui conferir o meu CPF e o RG que estava errado — quando o Fórum voltou do recesso eu tive que ligar pedindo pra ela fazer outro papel da guarda provisória porque os meus dados estavam errados. Você não vê nada, porque eu assinei tudo com a presença dele, é muita emoção. Você não faz ideia do quanto. Foi um milagre muito grande nas nossas vidas, porque a minha família estava fazendo a oração do Cerco de Jericó naquela semana. O Cerco de Jericó é uma oração que as famílias fazem quando você tem alguma “muralha” que você quer e precisa transpor, então, você faz essa oração durante uma semana, nós estávamos no quinto dia de oração”, contou Silmara. 

A família saiu do Fórum diretamente para o comércio de Silmara para serem recebidos pela família e amigos. “Na época, eu tinha a loja e a família toda foi pra lá esperar por nós; minha mãe, a Selma, a Silvana minha cunhada, minha comadre, alguns conhecidos; foi uma festa, com uma energia maravilhosa para receber a nova família”, afirmou Silmara.

Silmara não era somente uma tia, agora, era a mãe do Gabriel. “A gente já tem o instinto de mãe, de cuidar, no primeiro dia ele teve uma cólica muito forte porque ele tomava leite em pó, eu fiquei o dia inteiro com ele berrando de dor. Mas sempre foi um bebê muito tranquilo que dormia a noite inteira, mamava super bem. Cuidei sozinha dele numa boa, com total apoio do pai. Olha, eu fui mãe aos 38 anos de idade, a gente já tem uma noção, e qualquer dúvida eu ligava para a minha irmã porque a Giulia ainda era um bebê”, disse Silmara.

Na reunião familiar para comemorar o primeiro Dia das Mães, “Ah! Foi demais! Foi muito bom! Nós fizemos o almoço de comemoração na casa da minha irmã Selma, o Gabriel tem um ano de diferença da minha sobrinha. Foi uma emoção no primeiro Dia das Mães, não sei nem te falar, porque você sempre quer comemorar, todas eram mãe e eu não. Eu queria saber como era esse sentimento de ser mãe e, é muito gratificante. É demais”, afirmou.  

Silmara recebeu o filho no colo, o apresentou à família, cuidou naturalmente com o instinto materno mas, não havia ouvido do próprio filho o significado do amor. A primeira vez que  Silmara ouviu ser chamada por mamãe, “quase morri, primeiro você não vê a hora que a criança comece a falar, fica esperando a criança falar, ele não demorou não, foi muito bacana. O Gabriel é companheiro do pai mas é mais companheiro da mãe. Ele é muito carinhoso, ele gosta muito de abraçar, muitas vezes ele para o que está fazendo e diz, ‘mãe me deixa te dar um abraço’. Ele é assim, muito carinhoso e é muito ligado ao pai dele, muito calmo, ficou um pouco mais agitado um pouco quando entrou para a escola”, descreveu Silmara. 

Formar um casal e constituir família são processos complexos, distintos, mas complementares, e por vezes, concomitantes, para as pessoas que decidem viver juntas e ter filhos. O casamento requer que duas pessoas renegociem juntas inúmeras questões que definiram previamente para si em termos individuais, ou que foram definidas por suas famílias de origem. A transição para a paternidade, por sua vez, também envolve uma infinidade de questões e transformações físicas, psicológicas e sociais, as quais serão mais bem compreendidas e elaboradas se os parceiros enquanto casal estiverem satisfeitos.

“Eu e o Edvaldo, pais, ficamos mais unidos embora a nossa relação sempre foi de muito companheirismo. O Edvaldo participou de tudo, trocou fraldas, deu banho, sabia fazer de tudo para o filho, o que um não podia fazer o outro fazia; nós dividimos bastante todas as tarefas de cuidados até hoje. Durante um ano eu ainda fiquei com a loja mas, a minha mãe me auxiliava, ficando com o Gabriel enquanto eu trabalhava ou quando eu estava com ele, minha mãe ficava na loja pra mim. Depois eu fechei para me dedicar somente a ele, voltei a trabalhar no ano passado. A orientação é de que a mãe tem que criar um vínculo forte com o filho, eu tive a oportunidade e me dediquei.

A verdade sobre a própria origem nem sempre aconteceu no passado recente, no Brasil. A partir da Lei Nacional da Adoção (12.010/09), o direito a conhecer a origem biológica passou a fazer parte do artigo 48 do Estatuto da Criança e do Adolescente. “A primeira vez que o Gabriel me perguntou, aos cinco anos, eu falei. Na realidade, a gente teve uma oportunidade quando surgiu uma situação que eu aproveitei para entrar no assunto. Eu já fiz a introdução ali e mais pra frente vieram algumas perguntas que eu respondi o que ele tinha maturidade para entender. A gente foi orientado a falar a verdade sempre. Mesmo que aquela atitude doa é preciso fazer o que é correto. Ele sabe que nasceu de outra barriga. Se ele quiser saber mais, ele tem todos os direitos, eu não posso tirar dele a sua origem. Eu sou grata porque eu fui mãe por intermédio de outra pessoa”, afirmou Silmara. 

Gabriel de Lima Rocha com seis anos

O significado da adoção para Silmara é o amor. “Eu falo, eu gestei (o Gabriel) fora, essa é a única diferença. Mas não há diferença alguma, eu não me sinto diferente de maneira nenhuma de uma mulher que conseguiu por mérito engravidar. É tão gratificante quanto. Eu me sinto tão realizada quanto. Eu não sei o que teria sido da vida sem o Gabriel. Não sei. Não sei. Porque eu não sei como pode existir alguém que diga “filho do coração”, isso não existe. O Gabriel é o meu filho, ele não nasceu de mim mas, eu não vejo ele assim, ele é simplesmente o meu filho, ponto. Tem gente que acha que adotar uma criança é fazer caridade, eu cansei de ouvir isso. Todas às vezes que eu ouvi, respondi que eu não faço caridade adotando uma criança. Caridade é quando você vai e leva o que comer para uma família necessitada. Adoção não é caridade. Adoção é amor. Hoje, eu não ouço mais isso e muitos nem sabem que o meu filho é adotivo, porque todos dizem que ele é a minha cara. E é!”, concluiu Silmara.

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