Dia 13 de Julho é comemorado o Dia Mundial do Rock no Brasil, a moda pegou depois que algumas rádios da capital paulista, com a programação voltada ao gênero musical, escolheram o dia 13 devido a um memorável concerto promovido em 1985 chamado Live Aid, organizado com o objetivo de arrecadar fundos para amenizar a fome na Etiópia, continente africano. Também no dia 13 de julho de 2001, uma importante emissora de rádio, Rede Kiss FM, inaugurou oficialmente sua matriz em São Paulo. No final de 2017 o sinal da rádio Kiss FM chega forte na região de Campinas, SP,  passando a ter horário local apresentado pelo veterano locutor Rony “the rocks” Vianna, ele é o nosso entrevistado para falar sobre o Dia Mundial do Rock.

Rony Vianna, é natural de Aguaí, SP, sociólogo de formação e desde 1978 atua como radialista, apresenta o horário local de Campinas da rádio Kiss Fm, de segunda a sexta das 10 às 14 horas, está na KISS FM desde o final de 2018, acompanhe a entrevista;

Caricatura do “loucutor” Rony “the rocks” Vianna, da rádio Kiss FM, desenhada por Bira Dantas e a capa do livro “Música Caipira”, “a minha base musical é puramente caipira, os clássicos sertanejos”, revela Rony

Jornal Pires Rural: Há quanto tempo atua na profissão de radialista?

Rony “the rocks” Vianna: Trabalhei em pelo menos uma 30 rádios desde 1978, quando foi meu primeiro registro em carteira pela rádio Piratininga de São João da Boa Vista (SP).

Jornal Pires Rural: Quando percebeu que o rock era seu estilo de música?

Rony “the rocks” Vianna: O Rock não foi o meu primeiro estilo de música. O Rock entrou na minha vida por acaso. Eu venho de uma infância do interior de São Paulo, venho da roça, do som caipira de Tônico e Tinoco, de Léo Canhoto e Robertinho, de Jacó e Jacozinho, Pedro Bento e Zé da Estrada, então, a minha base musical é puramente caipira, o som caipira de roça mesmo, os clássicos sertanejos. O Rock entrou na minha vida no meio dos anos 90, depois de dez anos na rádio em Campinas, eu criei um programa chamado “On the Rocks” na extinta Antena 1, que hoje é a rádio Nova Brasil. A partir desse programa comecei a ter essa associação com o Rock. O programa “On the Rocks” passou pela Antena 1 depois foi para a Educadora FM, esteve na Bandeirantes de São Paulo e virou também um site no meio dos anos 90. A gente percebeu que a música detinha um público bem diferente daqueles sons e estilos mais popularesco que as outras rádios ofereciam. “On the Rocks” estreou em 1990 no dia 13 de Julho, coincidentemente, quando se falava no Dia Mundial do Rock, que era uma referência a 13 de Julho de 1985, quando o Bob Geldof realizou o famoso Live Aid. A partir da criação desse projeto, de duas horas semanais apenas, que o Rock entrou no meu estilo de vida também.

Jornal Pires Rural: A escolha de sua profissão se deve pela influência do estilo musical o qual você é fã?

Rony “the rocks” Vianna: Não. A rádio veio antes do Rock. Eu comecei em rádio AM, tocando músicas de Amado Batista, de Odair José, de José Augusto e o meu primeiro programa foi inspirado em uma música de Guilherme Arantes chamada “lance legal”, isso lá no finalzinho dos anos 70 comecinho dos anos 80, quando já estava na Educadora FM de Campinas e, ali eu fazia horário da programação normal da rádio. Então, não influenciou no que sou hoje, nesse projeto da Kiss FM.

Jornal Pires Rural: Profissionalmente houve preconceito devido ao estilo que você curte, ou seja, você chegou a perder alguma vaga de emprego?

Rony “the rocks” Vianna: Não, isso em nenhum momento aconteceu. O que houve no caso da Educadora FM, foi a mudança de formato, então, quando se muda o formato, a grade musical ou estilo de uma emissora, aí, alguns programas não se enquadram dentro daquele público que a rádio busca e o “On the Rocks” ou OTR, como é conhecido também, na época em que a Educadora ficou um pouco mais pop, tirou o pé das músicas mais alternativas então, o OTR não faria mais parte da grade, aí, eu saí da rádio e fui convidado para dirigir a rádio 89FM quando veio para Campinas. O Rock só me trouxe boas oportunidades. 

Jornal Pires Rural: Como começou sua história com a rádio Kiss FM, qual a missão da rádio e o tamanho de sua abrangência?

Rony “the rocks” Vianna: A minha história começou há 2 ou 3 anos atrás, não sei se foi em 2017 ou 2018 ou comecinho de 2019 me parece. Fui convidado para fazer parte da rádio Kiss FM da região de Campinas, onde a gente atua hoje, mas, eu já conhecia um pouco da rádio, ouvia raramente inclusive e, nunca imaginei que pudesse trabalhar no grupo. Trabalhei em outras rádios no formato de Rock, como é o caso de 89 de São Paulo, isso também nos anos 90, quando o (grupo) U2 lança o (disco)  Joshua Tree (1987), lembro muito bem disso porque se tocava muito esse disco, é a referência que eu tenho, pois, na época do lançamento desse disco eu trabalhei na 89FM. A Kiss é uma rádio de Rock clássico, já tem 20 anos de mercado, começou em São Paulo e agora tem emissoras no Brasil inteiro. A missão da Rádio é manter a chama do Classic Rock acesa, um segmento que não tem tantos adeptos em função de ser uma música mais direcionada a um público segmentado, um público que tem uma opinião formada,  um estilo de vida próprio, não é aquele tipo de música fácil de se consumir. Eu costumo dizer que os roqueiros, quem curte rock, vê como sendo um estilo alternativo, digo que somos poucos mas, somos fortes. Essa é a concepção que a Kiss FM apresenta. A abrangência da Kiss na região de Campinas são mais de 6 milhões de ouvintes, no proporcional a 60 cidades onde o sinal chega. Essa questão do rádio terrestre vem perdendo a sua concepção de origem em função da internet, onde pode ser ouvida no mundo inteiro. Por esse fato, as fronteiras acabam não existindo mais, quando se fala em área de abrangência.

Jornal Pires Rural: Pode falar um pouco do perfil do público ouvinte?

Rony “the rocks” Vianna: A referência que temos na verdade, é apenas pelas participações do ouvinte via redes sociais, diretamente pelo WhatsApp. Não dá para se ter uma visão muito precisa da idade ou sexo. Em nosso mídia kit a gente tem um público masculino maior do que o feminino mas, esse perfil tem aumentado, a faixa etária é a partir dos 19 até os oitenta e cacetada. Eu acho isso porque é o perfil do (ouvinte de) Rock clássico. São pessoas que trabalham e pessoas que estudam e, isso não tem alterado. Recentemente nós fizemos  uma campanha chamada “O futuro Rock” que está lá no nosso perfil do Instagram, para quem quiser ver, tem a primeira temporada, inclusive, onde a gente apresentou os filhos e os netos e até bebês, onde os pais estão ensinando seus filhos a ouvirem Rock ’n’ Roll. Com essa campanha incentivamos a nova geração ao ouvir rock e a descobrir bandas novas, é importante que se diga isso. Qual banda será os Beatles daqui há trinta ou quarenta anos ? Quem será o Led Zeppelin daqui há 50 anos? Então, é importante que se perceba isso também, para a gente acordar para não ficarmos tão saudosistas assim e, essa geração já nasceu dentro da internet e precisa de uma orientação para que a cultura musical, a cultura Rocker permaneça por mais algumas gerações.

Jornal Pires Rural: O que significa para quem curte um rock pauleira ter um dia pra chamar de seu? 

Rony “the rocks” Vianna: Significa no sentido de dar mais visibilidade ao estilo de música, mesmo porque o Dia Mundial do Rock, talvez as pessoas não saibam mas, ele não é mundial, ele é eleito, aclamado e comemorado apenas aqui no Brasil. Existem algumas datas específicas em outros países mas, o dia 13 de Julho, o Dia Mundial do Rock é um dia só do Brasil. Muito estranho dizer isso mas é a verdade, foi criada como alusão a realização do Live Aid e a partir do meio dos anos 90 algumas rádios de São Paulo, especialmente 89FM e a Brasil 2000, que na época já existiam, até mesmo a Kiss FM, introduziram a comemoração do dia 13 de Julho como Dia Mundial do Rock. Então, eu acredito que é importante, por exemplo, eu estou dando essa entrevista a você, em função do Dia do Rock. Nesse sentido é importante ter um dia só pra gente.

Jornal Pires Rural: O rock já foi sinônimo de atitude rebelde e incomodo para vizinhança, familiares e grupos sociais como a escola, por exemplo. Hoje, o comportamento roqueiro foi engolido pelas campanhas de marketing e se tornou corriqueiro. Pra você vale mais o comportamento contestador, transgressivo do artista ou o som musical que ele cria?

Rony “the rocks” Vianna: Eu acredito que são as duas coisas vivendo harmoniosamente sob o mesmo teto! Cara, eu acho que o som deve ser contestador, o som deve transgredir a partir do momento em que aquilo que o artista está colocando na sua arte, seja verdadeiro e sincero, tenha transparência. O comportamento de quem faz a arte é o seu espelho, então, isso independe até mesmo do som que ele cria. Se você analisar a história do Rock ele talvez seja o estilo mais contestador, é o estilo que mais movimenta massas ou fala politicamente e com mais tranquilidade. Diferente de outros estilos musicais que fazem um som apenas por diversão, por alegria e tal. Não que seja errado mas, o Rock tem esse poder, através da música, para mudanças comportamentais e até mesmo políticas.

Jornal Pires Rural: Completando a pergunta anterior, o rock tem atitude? Quais você destaca?

Rony “the rocks” Vianna: Eu acho que a maior atitude do Rock é ser uma música que vai além do estilo musical, se torna um estilo de vida, isso interfere no comportamento, no tipo de roupa que a pessoa usa, nas opiniões que ela tem, em todos os segmentos da sua vida. Então, eu acho que essa questão do Rock e atitude vai muito também de cada personalidade. Uma coisa que me irrita, em algum momento, é porque todo o roqueiro deve usar preto e ter cabelos compridos e ser rebelde? É um estereótipo! O paradigma do Rock, a partir do momento em que ele foi associado com coisas mais pesadas como o Heavy Metal que leva a questão das músicas que tiram uma onda com o satanismo, como foi alguns sons do Black Sabbath até bandas como o Sepultura, Kreator, como o The Plasmatics que eu tenho ouvido muito ultimamente, era uma questão de atitude no palco mas, que tinha um sentido para aquilo que estava acontecendo ali.  De alguma maneira ou de outra era possível tirar alguma orientação, alguma mensagem na atitude dessas bandas. Só para completar, para deixar mais claro a resposta, não era um som como isopor ou gelo que derreteria, que não tenha consistência, para usar uma metáfora, é um rolo compressor que vai quebrando pedras. Você pode muito bem ser uma pessoa “normal” e gostar de Rock and Roll, ninguém dita o que você deve ou não fazer a não ser você mesmo! Então, eu acho que essa é a atitude Rock and Roll!! Pode ser cristão e ser do Rock, independente da sua religião, você pode gostar de faroeste italiano mas também gostar de Rock and Roll. É ser você mesmo, está é a grande pegada.

Jornal Pires Rural: Se você fosse iniciar uma pessoa no mundo do rock, por onde começaria para que ela se tornasse um fã cativo, seria pela teatralidade de Kiss, Iron Maiden e Made in Brazil ou no discurso político de Pink Floyd, Rage Against The Machine e Cólera, no perfeccionismo do Rush, Dream Theater e Shaman, na diversão dos Rolling Stones, Foo Fighters e Raimundos ou entraria com o pé na porta com Slayer, Exodus, Metallica e Sepultura?

Rony “the rocks” Vianna: Cara, eu acho que um pouco de cada, bicho! Sacou? Eu acho que o Kiss tem ali o seu papel fundamental no visual, os shows glamourosos com fogos de artifício. O Iron Maiden pelo peso dos riffs. O discurso político do Rage Against The Machine mais aqui nos anos 90. A sua pergunta já deu uma resposta completa. Tem o Rock mais erudito, progressivo que vem ali do Rush, Gênesis e tal, aquelas bandas que fazem um som mais por diversão mas, tem a sua mensagem, que é o caso do Foo Fighters. Faltou aqui na lista os Ramones. Acho legal também o Metallica, Slayer, é sensacional. Então, depende muito do estado do espírito do dia de cada um.

Jornal Pires Rural: Essa é uma pergunta para você expressar seu lado sociólogo. Rita Lee já dizia: “roqueiro brasileiro tem cara de bandido”, essa frase em sua opinião tem qual sentido? É uma crítica dela aos artistas brasileiros para se tornarem mais profissionais ou uma fala que surgiu nas grandes gravadoras para depreciar os artistas e suas músicas?

Rony “the rocks” Vianna: Essa música da Rita Lee chama-se “Ôrra meu!”, foi lançada no disco “Lança-perfume”. Acho que essa frase foi para entrar ali no contexto da melodia, só pra fazer um lembrete daquilo que já era clássico, não é o bandido marginal, bandido assassino, é aquele bandido no sentido de ser revoltado, contestador, o ovelha negra da família no bom sentido. A própria Rita Lee tem uma música chamada “Ovelha negra”. Acho que a fala da Rita nessa frase é uma simples rima dentro da melodia, talvez uma visão da época em que a música foi gravada.

Na música “Ôrra Meu!” a cantora Rita Lee já dizia: “Eu to ficando velho, cada vez mais doido varrido, Roqueiro brasileiro, sempre teve cara de bandido”

Jornal Pires Rural: A banda de Rock ACDC já deu o recado; “It’s a long way to the top if you wanna rock ‘n’ roll” (é um longo caminho ao topo se você escolher o rock n roll). O que falta para o rock autoral brasileiro ter a mesma valorização pelo público, como tem os grupos estrangeiros? 

Rony “the rocks” Vianna: Com relação ao autoral brasileiro eu acho que tudo tem o seu momento. O Rock é como a gente tem falado aqui, é um estilo de música que não é para qualquer ouvido. Não é para todo mundo ouvir. E o Rock autoral no Brasil está muito forte, só que é aquela questão de estar ou não no “underground” (referente a produtos e manifestações culturais que fogem dos padrões comerciais). Então, depende da banda em querer manter os seus conceitos e não ser famoso ou você muda o seu estilo de música e faz uma coisa mais popular para ser famoso e ser passageiro. A questão é essa, tem que entender o que eu quero para minha banda, para o meu som autoral. Eu quero mudar a concepção e levar minha mensagem para poucas pessoas que entendem e que vão conseguir capturar essa mensagem ou vou fazer um som autoral que é temporal? Um som que vai estar ali no top hits, nos trends topics ou no top five do Spotify ou das rádios por um curto período e depois de um tempo ele vai ser esquecido eternamente. Acho que o Rock autoral no Brasil precisa ser mais profissionalizado, no sentido de entender que a música é um produto e entender também que os tempos são outros, então, a banda autoral tem que achar o seu público-alvo, tem que criar suas tags nas redes sociais e, entender que a sua banda tem um produto, que é a música e deve ser consumido como qualquer outro tipo de produto. Mas aí, vem aqueles dizendo: “você está falando de capitalismo”. Mas é essa a grande questão e a concepção de cada um. Eu quero viver no underground, então, beleza, maravilha. Enfim, é bem complicado definir isso, como eu já disse, vai depender da concepção do líder da banda dar o direcionamento para como aparecer no autoral. 

Tem muita coisa boa sendo feita no Brasil, de qualidade. É ter um pouco mais de paciência e garimpar os sons que estão por aí. Eu vou citar duas banda que gosto e tenho ouvido recentemente, Far From Alaska e, gosto do Ventania, aquele doido que faz o som inspirado no Raul Seixas, é messiânico. Raul foi um grande marco no rock brasileiro, acho que nunca mais apareceu alguém que poderia falar com a simplicidade do Raul Seixas, ele é um exemplo de artista que navegou por todo os estilos musicais e manteve a sua essência. Eu acho que é isso que falta no mercado de hoje e, não consigo entender alguém como Raul Seixas, por isso que talvez não tenha outro, sobreviveu podendo fazer todos os estilos, mandar suas mensagens e não perder a essência Rock and Roll.

Jornal Pires Rural: Considerando como período de tempo de cada geração humana cerca de 25 anos, acredita que o Rock vai transcender quantas gerações ?

Rony “the rocks” Vianna: A gente que vive no mundo do Rock percebe isso com mais clareza, talvez quem está fora do mercado ou os meus meus amigos que trabalham em outras rádios, rádios mais populares, não entendam a dimensão do que é o Rock and Roll, mas nesse momento em algum lugar, num fim de semana qualquer, eu tenho certeza que se entrar em qualquer colégio, em qualquer escola pública ou particular, sempre vai ter três ou quatro adolescente pensando em montar uma banda de Rock, mais do que uma boy band. Então, acredito que vai transcender por várias e várias gerações. Tenho duas filhas, uma de 26 anos e outra de trinta e poucos e elas gostam de Rock, aprenderam a ouvir Rock and Roll, a gostar de muitas coisas que eu gosto também. Acredito que a coisa vá, aí, muitas gerações ainda para curtir Rock and Roll. Agradeço a oportunidade e agradeço o convite e longa vida ao bom e jovem Rock and Roll, eu não uso muito termo bom e velho Rock and Roll, porque o Rock por sua essência, por sua natureza é uma coisa jovem, dinâmica e alegre sempre. Eu tenho quase 60 anos e trabalhando numa rádio como a Kiss FM, cada dia que eu vou para a rádio, cada momento que abro o microfone, eu me sinto como um adolescente de 18, de 20 anos, na minha energia para transmitir e fazer o meu horário, atender os ouvintes, ter ideias novas para gerar conteúdo. Esse é o meu tesão pelo rádio e por fazer uma rádio Rock cada dia maior. Independente da idade o Rock tem esse poder de nos tornar jovens.

Estreia do Video Cast Pires Rural, a nova ferramenta de comunicação do Jornal Pires Rural.
Nada melhor do que iniciar nesse 13 de Julho, onde é comemorado o Dia do Rock, com o entrevistado de Rony “the rocks” Vianna, locutor da KISS FM na região de Campinas.

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