Átila Ramirez da Silva, é natural de Osasco, SP, veio morar em Limeira, SP, para estudar graduação em Tecnologia em Controle Ambiental pela Unicamp. Durante sua graduação participou de um grupo de trabalho com agricultores limeirenses da bacia do Ribeirão do Pinhal, verificando a forma com a qual utilizam, no dia a dia, os recursos hídricos existentes em suas propriedades. Em 2020, Átila apresentou sua dissertação de mestrado abordando o rural da perspectiva de sua outra paixão, o universo da viola caipira na pesquisa intitulada: “Da construção do instrumento à roda de viola: cultura caipira e multifuncionalidade rural em Limeira, SP”, dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Rural como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Agroecologia e Desenvolvimento Rural pela Universidade Federal de São Carlos – Centro de Ciências Agrárias, na cidade de Araras, SP. Tendo como orientador o professor Dr. Luiz Antonio Cabello Norder, com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES). Átila conversou com o Jornal Pires Rural sobre esse estudo, sobre viola caipira e agroecologia, acompanhe;

(Foto:caipira lab) Átila Silva, pesquisador e violeiro

Mestre Átila descreve, “Tem um passo antes dessa tese, que foi estar estudando viola caipira no conservatório de música, na cidade de Tatuí e vivenciando o mundo da viola caipira do centro sul paulista (norte do Paraná, Minas Gerais, Tocantins, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e São Paulo), porque há diferentes tipos de viola pelo Brasil”, pontua inicialmente e a seguir continua, “fazendo um trabalho com a extensão rural e participando de movimentos abordando a agroecologia eu levava a viola comigo e, comecei a perceber que a interação com os agricultores e outras pessoas que também estavam vivenciando o espaço rural ou numa discussão do espaço rural, a viola estimulava outro tipo de conversa, que na minha perspectiva ela aprimorava o diálogo. Fui percebendo que existia alguma coisa nesse universo que não era discutido formalmente e nem colocado nas pautas das reuniões de discussão do rural, porque quando se discutia as questões rurais falava sobre tecnologia, sobre melhoramento, sobre qualidade ambiental, aspectos super necessário e importantes para a existência do rural e, a viola ou a música ou a cultura que está relacionada ao rural, as manifestações culturais que existem, são várias, ficavam de fora das discussões aparecendo apenas para momentos festivos, considerados momentos mais livres. Comecei a questionar que esses temas tem que ir um pouco mais além do que só nesses momentos, acredito que são questões que tem que ser discutidas de uma maneira organizada e proposital”, avalia.

Em sua tese de mestrado Átila quis dar destaque a cultura que acontece no ambiente rural, nas festas, nas datas importantes, nos ensinamentos e aprendizagem que a vivência nesses locais proporciona, trazendo para a discussão o fato do desenvolvimento rural, a chegada da monocultura, cada vez mais presente nas lavouras, transformando o espaço de convívio e comunidades se isolando, modificando o rural habitado. Esses questionamentos começaram a partir de uma oficina de construção de viola caipira, “eu comecei a mudar o olhar do que estava fazendo, para trazer um questionamento sobre o que foi ocorrendo dentro do processo de construção da viola. Ela ultrapassa a questão de apenas ser uma construção da viola, acaba sendo um termo que propus de “(re) envolvimento” rural, porque a discussão da palavra desenvolvimento leva a pensar; até que ponto esse desenvolvimento é bom?”, afirma Átila. 

(Foto:caipira lab) Projeto junto com a Unicamp para construir violas para o pessoal do pré-assentamento Elizabeth Teixeira, em Limeira,SP

Para chegar nessas proposituras Átila disse que as ideias foram tomando forma a partir de 2016, “fui convidado para integrar uma caravana chamada Projeto “Comboio agroecológico”, saindo da cidade de Botucatu, SP, chegando no Vale do Ribeira, SP. Foram 20 dias visitando propriedades rurais pelo caminho. Também saiu outros comboio na cidade de São Paulo, do estado do Espírito Santo, do Rio de Janeiro e um comboio do Paraná, todos se encontram no Vale do Ribeira, isso organizado pelo MDA (Ministério do Desenvolvimento Agrícola), e pela ABA (Associação Brasileira de Agroecologia). Participaram desse comboio estudantes, pesquisadores e os agricultores, com essa experiência conheci professores de outras instituições que eu não fazia parte, porque sou da Unicamp. Isso foi interessante porque promoveu um outro tipo de diálogo sobre a questão da agricultura e eles também começaram a enxergar essa questão da viola e as manifestações culturais que citei. A presidente da ABA e professora da Universidade Federal de Viçosa, MG, Irene Cardoso, disse que eu deveria fazer um mestrado com esse tema e unir três elementos importantes; a ciência, a prática e o movimento. Fiquei com aquilo guardado pois, tinha uns desafios para início do mestrado, como por exemplo, um professor que compreenda essa dimensão, achar um programa de mestrado, abrangendo o campo de estudo, práticas e determinadas disciplinas. Além de fazer um trabalho com vontade e, não apenas, fazer por fazer”, relata. 

Átila também diz que recebeu um pedido para ensinar viola caipira para o grupo organizado pelas mulheres do pré-assentamento Elizabeth Teixeira em Limeira. “Respondi que sim mas, eles não tinham viola. Fiquei matutando e descobri um um edital da Unicamp que dava recurso para trabalhos de extensão, pensei então, fazer um projeto junto com a Unicamp para construir violas para o pessoal do Elizabeth Teixeira e, depois montar uma escola de viola no rural. Esse projeto deu certo, chamamos o violeiro e luthier João Lejambre para ensinar a construir as violas. A ideia era construir seis violas mas, só tivemos recursos para construir quatro, pretendendo fazer revezamento de turmas com quatro pessoas para ter acesso as violas”, revelou. 

(Foto:caipira lab) O violeiro e luthier João Lejambre ensinando as técnicas para construir violas

Segundo ele o projeto de construção de violas ainda não fazia parte de seu mestrado, era apenas um trabalho de extensão. “Enquanto eu atuava na construção das violas conheci o Programa de Pós-Graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Rural, da UFsCar, apresentei um trabalho sobre agroecologia e viola caipira abordado a vivência que tive no “Comboio agroecológico” e apenas contei que estava fazendo esse projeto de construção de violas para o professor Dr. Luiz Antonio Cabello Norder que me disse; ‘Átila, você já está fazendo a experiência prática. O que você está propondo dentro desse rural já é uma mudança. Portanto é escrever sobre isso que você está fazendo’. Com isso eu mudei o olhar do que estava ocorrendo dentro do processo de construção da viola. Nessas vivências fui tirando elementos e depois fui conversando com o pessoal do Elizabeth Teixeira dizendo o que iria escrever no trabalho. Isso foi muito interessante porque os processos de questionar todas essas estruturas é um processo de aprendizado sobre o que a gente precisa, é questionar o espaço rural que estamos habitando ali”, descreve.

No bojo da viola

O projeto de construção da viola caipira ocorreu entre outubro de 2017 a outubro de 2018, participavam de 15 a 18 pessoas entre estudantes e moradores do Elizabeth Teixeira. Realizaram seis oficinas e, por meio da roda de viola promoveu encontros para a criação de um diálogo sobre espaços educadores culturais, sob a perspectiva da cultura caipira. “Queríamos que fosse uma aprendizagem lúdica, porque nosso foco era algo livre, deixar o pessoal o mais a vontade possível para que eles também possam estar construindo, que não seja uma coisa que veio de fora para dentro, mas também, que fosse um aprendizado recíproco, tanto que tinham pessoas que mexiam com madeira no grupo dos moradores, deram opiniões no uso de materiais e nos modelos ali construídos. Chamamos o João Lejambre, um violeiro daqui de Limeira, porque ele é um inventor, um super músico com composições bem críticas, um grande artista que constrói violas de dois braços, pegou uma enxada e transformou em uma viola, pegou o tacho de fritar pastel e virou uma viola. Não queríamos colocar uma pessoa que poderia criar uma hierarquia tão severa, como acontece com a Universidade quando ela chega em um espaço não formal”, Átila explicou. 

De acordo com ele as oficinas de manufatura eram desafiadoras porque no assentamento não tem energia elétrica, “tínhamos que usar máquinas através de geradores, levávamos gasolina e um dos moradores emprestava o gerador. Um elemento que considerei importante para o (re) envolvimento rural, é a relação de vizinhança, porque num determinado momento o nosso gerador quebrou aí, um dos moradores foi até a casa de um vizinho que sabia arrumar o gerador. Essa pessoa realizou o concerto e ainda participou da oficina e ficou super feliz. São fatos que percebemos, se não houvesse uma relação de boa vizinhança não teria energia e a oficina não teria acontecido. Como no início desse trabalho, não tinha na minha cabeça começar um mestrado, eu fazia algumas anotação como frases, coisas, percepções de forma despretensiosa. Também fomos registrando de forma audiovisual e transformamos em um documentário que está disponível na internet (canal do Youtube) produzido pelo Caipira Lab (https://www.youtube.com/watch?v=LvQEJDVBFzU) isso foi considerado um registro, tem vários episódios. A ideia do projeto de extensão era trabalhar o ensino e prática. Fazíamos as oficinas e as rodas de viola, intercaladas e, levar alguns violeiros, para participarem dessas rodas, era o objetivo, tanto que levamos o violeiro Domingos de Salvi e, foi bem interessante. Eram conversas sobre música caipira, problematizar algumas situações, isso também era um processo de aprendizagem”, conta.

(Foto:caipira lab) Oficinas desafiadoras sem energia elétrica no Assentamento Elizabeth Teixeira

Durante as oficinas no assentamento, Átila começou a perceber a disposição dos alunos, “uns tinham o interesse de aprender a viola e outros tinham mais interesse em estar no espaço que a viola estivesse com as músicas. Teve gente que não queria aprender a tocar mas, queria participar das rodas de viola. Participou de toda a construção da viola e todas as rodas mas, nas aulas não quis pegar na viola. Foi ficando bem claro esses públicos e tem aqueles que queriam aprender, estão até hoje, só que agora, com a pandemia a gente parou, porque não tem como fazer a distância, não tem acesso a internet. Eu estava indo a cada quinze dias, aos sábados, com recursos próprios”, revelou. 

A proposta do mestrado

“Quando eu fui escrever o trabalho do mestrado, a discussão era mais ampla do que só essa prática que vivenciei da extensão, a ideia era discutir a multifuncionalidade do rural. Quando olhamos uma paisagem rural, hoje, vemos uma paisagem monocultural, em nossa região temos a cana de açúcar como predominância. Paraná e Mato Grosso vai ter a soja tomando conta, que é um ambiente de pouca diversidade de comunidades rurais. A ideia de provocar essa questão de que o rural não é só isso, é uma outra perspectiva que envolve pessoas, isso é o rural habitado. Também trago um questionamento sobre a palavra desenvolvimento, que a agroindústria e o agrorural traz isso (o agro é pop, o agro é tec). Sabemos que dependendo do tipo de desenvolvimento, isso não é favorável para a maioria das pessoas e sim para um grupo específico que está nesse nicho (agronegócio). Então, eu não queria usar essa palavra desenvolvimento, eu resolvi propor a palavra (re) envolvimento rural. Isso é trazer novamente um rural habitado, com outra perspectiva, um rural que traz a questão agrícola e tecnológica com um olhar agroecológico, mais diverso na produção, ambientalmente justo e equilibrado, inserindo a questão multicultural. Porque, o que mantém as comunidades rurais são suas festas, seja alemã, seja indígena, seja africana. É está manifestação que motiva, muitas vezes, o tipo de cultivo que será produzido e a safra vai poder abastecer a festa. É toda uma estrutura que desenvolve uma comunidade rural. Quando chega a monocultura os laços da comunidade desaparecem. Chega o isolamento, isolando as capelas — a cana vem, é plantada em volta das capelas, acabam as estradas e ninguém mais vai naquele lugar, ele se torna sombrio. O que era um espaço de convívio e comunidade rural se transforma. Isso acontece pois é um projeto, não foi naturalmente, essa construção da ideia de quem mora no rural é caipira e, é um lugar ruim, isso é a construção do desenvolvimento para poder tirar as pessoas do lugar e ocupar com a monocultura e, as pessoas (no êxodo rural) viram problema na questão urbana. Chego no ponto de pensar, como violeiro, olhando para a questão do rural com o aspecto multicultural, multi diverso do que só o olhar técnico agrícola, também importante mas, trazer outras coisas que acontecem no rural onde promovem o (re) envolvimento, não só as questões voltada à produção de alimentos”, destacou. 

(Foto:caipira lab) Projeto junto com a Unicamp para construir violas para o pessoal do pré-assentamento Elizabeth Teixeira, em Limeira,SP

Átila refere-se ao tema de multifuncionalidade, mostrando que o rural tem diversas funções como ambientais, atividades laborais, sociais e dentro dessas diversas funções ele levanta a questão cultural, “eu fui olhar para esse multifuncional para poder trazer e exaltar a questão da cultura dentro do espaço rural, porque a gente já reconhece que existe outras funções, que são muito importante. Até a questão de manter a preservação de mananciais na cidade de Limeira, é o rural que mantém as águas para abastecimento da cidade e, as pessoas conseguem perceber isso. Eu quis dar o destaque para essa função cultural, mesmo que, hoje em dia, sejam muito poucas pois, foram dizimadas junto com o processo cultural, porque para ocupar o território rural com a monocultura não pode ter pessoas, então, tem que destruir todo o elemento cultural que fortalecem as pessoas a ficarem no território, por exemplo, se existe uma árvore sagrada de um povo e ela é cortada, acabou. Então, tem essa destruição cultural onde eu quis abordar. O aspecto multifuncional é para trazer essa questão cultural dentro do rural, só que para fazer isso, eu discuto uma confusão de conceito pela pluriatividades. Ao falar das atividades rurais, já vamos para a plantação, o tipo de produção agrícola, algo mais técnico. As pessoas falam ‘multifuncional eu também sou, planto milho, mandioca, alface. As pessoas confundem, reduzindo os temas somente voltados a estrutura de produção. Nossa dificuldade de ampliar a mente pra entender que o rural é muito mais além da produção de alimentos, que é fundamental mas, ele tem outras relações que precisam ser trazidas e discutidas novamente. Porque são essas funções que vão extrapolar o território rural e vão afetar a cidade. Eu trago na minha tese a discussão do multifuncional para esclarecer os sistemas”, disse. 

Sobre o documento produzido Átila afirma, “o conteúdo contextualizo no trabalho traz alguns dados do rural brasileiro nas questões de habitação, estradas, questões hídricas e vegetação, para mostrar o que esse desenvolvimento rural da monocultura está trazendo, pois, estamos sentido na pele os efeitos, interferindo na função reguladora do clima, diminuição da fertilidade dos solos e na qualidade da água, além da diminuição de fauna e flora. Os efeitos provocados pelas intensas atividades agrárias modificam a biodiversidade em escala mundial. Até os próprios agrobusiness sabem disso, que é um grande desafio e uma preocupação pois, eles sabem que os dias estão contados para esses recursos”, Átila explanou.  

O fenomeno do Neorrural

Sobre a questão do rural habitado ele revela que o espaço rural vem sendo ocupado por novas populações, alguns conhecidos como neorrurais, ou por fazendeiros que fabricam uma agricultura “alternativa” ao processo agrícola do agronegócio monocultural. “Agora, tem os neorrurais, são aquelas pessoas que estão querendo voltar para o rural com a opção de reconstrução dos projetos de vida mas, isso já é uma outra discussão pois, em alguns casos, tornam-se militantes de movimentos sociais ambientalistas, buscam construir novas formas de interação com o meio ambiente, não contrariam os formatos hegemônicos de produção e organização, já que muitos pertencem à classe média. Eles ainda reproduzem a organização capitalista do trabalho baseada na exploração dos trabalhadores. Muitos desses ‘neorrurais’ vão habitar os condomínios rurais e sabemos que condomínios são isolamentos, não são comunidades como existiam. Eu brinco na explicação, é aquela relação ‘compadre, comadre’, que quando mata um porco se dá a melhor parte do porco para o compadre. Ele não fica com a melhor parte porque sabe que o vizinho também vai lhe dar a melhor parte do porco, é uma relação que quase não existe mais. Esses elementos que quero provocar para esses ‘neorrurais entenderem que a vida no campo não é viver no sossego e se isolar no rural, a perspectiva é criar novas comunidades rurais, para isso tem que estar ativo na estrutura do território, na organização, no debate, na defesa desse território quanto as questões ambientais como manter o rio limpo, manter a floresta em pé, porque, se não tiver isso não vai haver biodiversidade, não vai ter água no poço”, citou.

A música caipira

Interrogado sobre as poesias das letras das músicas caipira que representam a vida rural, teve alguma influencia em seu trabalho, Átila respondeu, “as letras das músicas caipiras, são crônicas da realidade do território. Elas relatam determinados momentos, isso é interessante porque se consegue criar uma cronologia da estrutura do processo de desenvolvimento rural no Brasil, através da música caipira. Tem música que fala que o cara terminou a lida na roça, senta na soleira da bota e começa a olhar os passarinhos e relata esse cenário que lhe traz felicidade. Tem uma outra que conta a mudança do campo, a venda do sítio para um grande fazendeiro para morar na cidade e o sujeito se arrepende, até hoje, por isso e vive sofrendo querendo voltar para o campo para vivenciar aquilo que ele achava que não tinha muito valor. O que vai determinando esse aspecto cultural na prática, na vivência, é o elemento da convivência do ser humano com o território. Se esse território é monocultural a relação da convivência humana é muito pouca, não tem uma dinâmica de vida num só produto, numa única cultura, cana de açúcar, por exemplo. Agora, se você entra dentro de uma floresta, há interação com inseto, passarinho, com árvores, isso atrai alguns elementos e atrai a atividade cultural e o cara não vai sair dali, vai fazer música, vai pescar, tem outros elementos que vai desenvolver o ser humano. Por isso eu entendo que a questão monocultural é muito mais além do que só a questão produtiva, acaba sendo uma crítica nesse sentido, mas a intensão do meu estudo não é criticar a monocultura, é trazer o olhar para um outro cenário, não estou olhando a monocultura, estou olhando para um outro processo de envolvimento cultural, por isso que chamo de (re) envolvimento pois, a palavra desenvolvimento as pessoas confundem pensando se dá pra ganhar dinheiro, pode ser que sim mas, pode ser que não. Ao inserir a palavra desenvolvimento aparece alguns conceitos já pré editados pela economia. Mas, qual proposta maior, nesse momento, para o território? É trazer uma qualidade ambiental ou é trazer recursos financeiros?”, questiona Átila.

Construindo a viola

Átila acrescenta que “o (re) envolvimento acontece quando o humano e o território se modificam juntos, existe uma função importante com os dois; um não ‘se desenvolve’ sem o outro. O território molda a pessoa e a pessoa também molda esse território, os elementos que estão neles, vai determinar o que será no futuro. No estudo eu divido entre indivíduos e território e no final transformo esses dois elementos representados pelo desenho da viola, associo ao instrumento, a viola seria toda essa dinâmica. O bojo da viola seria o território e existe alguns elementos do território que vão dar essa característica de (re) envolvimento rural, por exemplo, os valores ideológicos e culturais, a resiliência, as manifestações culturais. Isso tudo cria propostas para aquele território e ao mesmo tempo, o braço e as trastes da viola, seriam as pessoas, que reflete o senso de comunidade, ocupar os espaços vazios, tipo, uma casinha abandonada no meio do nada, vamos transformar em um centro cultural, as pessoas dispostas, são os elementos que vão se juntando e se formando. Nessa discussão ficou faltando as tarrachas, que afinam as cordas e dão o som para a viola, dão tom da música no final. Essa seria a afinação do elemento humano e território. E pra mim os elementos que representam as tarrachas são a natureza, a cultura, a linguagem, o local (Mata Atlântica, Cerrado) e a práxis, é essa questão da prática mesmo, do “vamos fazer”. Esse são os elemento que dão o som, da união entre território e o ser humano para o (re) envolvimento. Fiz essa associação como uma perspectiva de um violeiro que sou”, destacou.

Desenho da viola com os elementos representados para o (Re) envolvimento rural. Elaboração: Átila Silva (2019)

Qual moda de viola tocaria essa dinâmica?

“O mais importante nas manifestações culturais, não é o dia da festa e sim os dias e meses que antecedem essa festa, isso é o que promove esse (re) envolvimento rural, promove o encontro, as pessoas vão se organizando. Tem uma coisa que eu percebi e foi muito marcante, ocorreu na mudança da estrutura de poder do território rural, quando se tem a construção das festas, porque, normalmente é o homem que dá a palavra final mas, quem sabe fazer o doce é a mulher e ela fala assim; ‘não senhor! Fica quieto aí, senta e descasca isso daí’. Então, isso muda a estrutura da relação, isso é muito importante para o desenvolvimento e também para que haja mudança nas relações de poder, para ter uma questão de horizontalidade, trazer àquela pessoa que estava numa situação que não era de poder, poder também, no sentido de se sentir representativa, se sentir participante e construindo; ‘esse doce aqui foi fulana de tal quem fez. Essa bandeira quem levantou foi o senhor tal’, incluir pessoas que poucos conheciam, essas relações são muito interessante, dentro desta construção”, sustentou. 

Para concluir Átila apontou, “a moda que tocaria seria a moda de repensar o rural, trazer um novo olhar no sentido cultural, trazer o elemento da festa, da celebração. É uma reação em cadeia a celebração cultural no rural, pois, é onde se promove os encontros, por exemplo, quando tem a festa, você conhece outra pessoa, vai pensando em projetos e vai desencadeando outras coisas, os outros elementos dessa multifuncionalidade rural vão sendo praticados de uma forma continua. Acredito que tenha um grande potencial ao retomar essas discussões, organizar essas festas, principalmente nos lugares que ainda não tem ou tinha e foram tiradas. A moda seria celebrar o rural e o processo de construção”, finalizou.

A dissertação de mestrado de Átila Silva pode ser acessada na internet pelo link: https://repositorio.ufs- car.br/handle/ufscar/13144


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