Plano ambiental

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O texto ao lado está na Edição 87 - Abril 2010

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Poder Público ignora plano de intervenção ambiental para Engenheiro Coelho

dr francisca pinheiro

Conversamos com a Profª. Drª. Francisca Pinheiro, geógrafa, que fez seu mestrado e doutorado na área de ecologia aplicada pela Universidade São Paulo (USP) no campus da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq) de Piracicaba.
Em 2004, recém contratada pelo Centro Universitário Adventista de São Paulo Campus Engenheiro Coelho/Artur Nogueira (Unasp) seguiu a idéia de seu orientador de mestrado, lá de Piracicaba, o qual achou por bem que ela trabalhasse seu doutorado em ecologia aplicada na região aonde estava morando e trabalhando, ou seja, Engenheiro Coelho.
Nessa entrevista concedida ao Jornal Pires Rural ela contou detalhes de seu estudo cujo titulo é “Áreas legais de preservação (APP e RL) do Município de Engenheiro Coelho-SP: distribuição espacial e situação sócio-econômica” e o trabalho resultou em um plano de intervenção ambiental para o município de Engenheiro Coelho. Leia a entrevista a seguir:

Inicio da pesquisa
“Minha dissertação de mestrado fez um levantamento das áreas verdes no torno da cidade de Piracicaba, que poderiam ser transformadas em parques quando a cidade crescesse. Geralmente estas áreas são “engolidas” pelo crescimento urbano. Durante esse estudo surgiu à idéia de continuar a pesquisa abrangendo toda a área rural do município de Piracicaba. Como vim para Engenheiro Coelho, seria uma boa oportunidade para fazer esse estudo aqui, pois o município é menor que Piracicaba e teríamos como abordar 100% das propriedades, ao contrario de Piracicaba onde faríamos o levantamento por amostragem. Foi o que fiz. Consegui apoio financeiro da Unasp que comprou ‘GPS’, disponibilizou 3 estudantes bolsistas para me auxiliarem. Eu amei fazer essa tese que comecei em 2005, passou por 2006, 2007 e apresentei em 2008”.

Objetivo do estudo
“Foi doado ao município de Engenheiro Coelho, dados preciosos sobre o município na questão ambiental. Foram identificadas as reservas legais (RL) e áreas de preservação permanente (APP) de todas as propriedades. Todas essas áreas foram mapeadas através de SIG (Sistema de Georreferenciamento de Imagens) com um software americano de alta tecnologia, que permite saber todo o relevo da região e ainda localiza nas propriedades quais são as áreas necessárias para preservação e reflorestamento. Na mão do poder publico, esse material bem trabalhado, traz benefícios enormes para a população e ainda permite ao município de Engenheiro Coelho receber verbas ambientais, se tornar referencia nacional e receber o turismo tanto ambiental como educacional. Para tornar esse estudo acessível as escolas de 1º e 2º, além dos agricultores, tive o cuidado de fazer 3 coletâneas educativas de modo a simplificar o conteúdo da tese para os cidadãos. A tese, os mapas produzidos e as cartilhas educativas foram entregues sem custo algum para o secretário do Meio Ambiente e o da Agricultura.

Trabalho de pesquisa
“As informações oficiais da Prefeitura eram desencontradas e desatualizadas sobre as 412 propriedades rurais existentes no município. Na hora de confrontar o mapa da cidade e o mapa que o IBGE tinha não encaixava com os pontos que eu marquei pelo georreferenciamento. O mapa oficial era menor do que os dados coletados. Esse foi um dos sustos que tive. Outra dúvida foi em relação ao tamanho do município. Nas fotos que a Casa da Agricultura tinham e continuam a ter, aparece apenas a microbacia do Guaiquica, e eles estavam em fase inicial de levantando de dados sobre a microbacia do córrego dos Correas, e não tinham nenhum dado sobre a microbacia do Mato Dentro. Com as ferramentas que eu tinha a disposição como “GPS”, um sinal de um software de gerenciamento de imagens via satélite, disponibilizado pela USP, exclusivamente para esse trabalho, os 3 bolsistas da Unasp e trabalhando nos meus fins de semana, ajudei o pessoal da CATI a fazer a vetorização (demarcação de divisas) das propriedades do córrego dos Correas e cheguei primeiro na microbacia do Mato Dentro concluindo o trabalho, antes do órgão estadual. A tecnologia a minha disposição eram bem mais rápidas que a Secretaria de Estado da Agricultura dispõe para a CATI utilizar. Sendo assim meu processo foi bem mais rápido do que o deles. A administração de Engenheiro Coelho teve um serviço gratuito, que é extremamente importante, caro, conseguindo toda a intervenção, os melhores equipamentos e treinamentos preciosos a custo zero para a cidade”.

bacias

Defesa da tese
“Depois que defendi minha tese, fui pessoalmente até Prefeita Rosemeire e entreguei em mãos o meu estudo, mas ele não se encontra lá nos arquivos municipais, então disponiblizei arquivos digitais contemplando, as 3 coletâneas educativas, mapas gerais, atualizados e demarcados corretamente, dados das propriedades rurais identificadas uma a uma com as áreas verdes, áreas de represas e corpos d´água tudo facilitando o trabalho da CATI para visitas além de áreas gerais de preservação, distribuição espacial e situação socio econômica, visando um plano de intervenção ambiental. Hoje é possível pelos dados levantados saber se um proprietário rural tem condições, por conta própria, fazer um reflorestamento em adequação ao tamanho de sua área e qual local de sua propriedade é mais conveniente fazer esse replantio”.

Benefícios do estudo para o município
“Com esses dados em mãos a vantagem que o município ganharia em pontuação ambiental, frente a outros municípios e ao Estado, é enorme. Receberiam muitas verbas para beneficio da prefeitura e de toda a população. O município teria como pressionar os proprietários a reflorestar suas áreas para controlar a área verde da cidade. Ganhariam pontos no Programa Município Verde do Governo do Estado. Além de atrair mais turismo para a cidade”.

Fazendo uso da tese
“Olha, não tenho visto isto acontecer. É impressionante que com todas essas ferramentas, entregue a custo zero, ninguém está fazendo uso dele até agora. Eu tenho uma leitura, as autoridades municipais não tem noção da importância e da valorização que isso tem para Engenheiro Coelho. Já tive encontro com a prefeita, secretários, assessores, vereadores todos sentados a mesa se encantam, acham muito legal, mas esta parado. Um dos empecilhos dito por eles foi de que não existem quem possa financiar a impressão das coletâneas educativas. Quanto a isso não tenho nem o que dizer. O município poderia avançar. Já me dispus a ajudar na elaboração dos projetos para trazer verbas ao município explicando de “A a Z” como preencher os questionário do Ministério do Meio ambiente, Secretaria Estadual de Meio Ambiente. O último que auxiliei foi em novembro onde pedia uma ação ambiental pratica junto as escolas. Eu falei que era muito simples, só fazer um apanhado dos principais pontos existentes no meu estudo e trabalhar isso em sala de aula, na aula da geografia, da historia, mostrando como é o município de Engenheiro Coelho, a realidade daqui, para os alunos identificarem os córregos que cortam a cidade e achar sua casa, seu bairro. Isso é algo rico, nem todas as cidades tem essa oportunidade, o que estudam são realidade de outras regiões do país”.

A parte agrícola do município
“Engenheiro Coelho tem 70% de pequenas propriedades, os 30% restantes são enormes e voltadas ao agronegócio de exportação, onde predomina a laranja, criação de ovinos e cana de açúcar. Os pequenos tem plantado muita mandioca e manga, também comercializam leite, frango e frutas de forma independente. Não identifiquei nenhuma cooperativa para os pequenos agricultores que diziam que levavam no Ceasa, na feira de forma desorganizada e esparramada. A media salarial é um salário mínimo e meio, isso porque uma grande parte também vivem com a aposentadoria dos avós que moram nas propriedades. A média escolar são 8 anos. Durante o levantamento de dados foi aplicada uma pesquisa de cunho sócio econômica e o que mais me chamou a atenção foi de que os donos das pequenas propriedades estão há mais de 60 anos no mesmo pedaço de terra, que veio de herança, acho isso uma coisa bonita pois eles “vestem a camisa”. Também mostram uma noção de que precisam preservar, mas não fazem porque a terra vem sendo utilizada há anos então, não se sentem na obrigação de reflorestar”.

A cidade e a universidade
“Nas propriedades que são vizinhas da Unasp eu perguntava aos agricultores se eles conheciam o campus, a resposta sempre foi negativa e acompanhada de um certo receio de que o ambiente e o convivo na universidade não é para pessoas como eles. Também não procuraram saber que quais cursos existem. Percebi isto até mesmo  nos trabalhadores que prestam serviço aqui dentro do campus, eles não fazem vínculos e nem despertam para as possibilidades de fazer uma faculdade como bolsista. Essa visão eu trouxe para dentro da Unasp e propus que devêssemos promover saídas ao entorno do campus, promover ações sociais de idas e vindas de nosso entorno rural. Não existe a questão que a Unasp é apenas para pessoas ligadas a igreja Adventista, ela esta aqui para se servir a todos. Seria um prazer enorme poder acolher nossos visinhos”.

Meio ambiente
“A primeira coisa que soa para o agricultor quando ele ouve esse tema é medo. Vemos esse medo tanto no pequeno quanto no grande, até mais acentuado. Acham que somos fiscais e vamos multá-los. Nosso trabalho é identificar as questões e elaborar planos de melhoria. Se o município promovesse com alunos da área rural dias de plantio de mudas a cada seis meses, que dure 3 a 4 horas, em 10 anos quanto isso contribuiria para o município?”

Em resumo
“São poucas as áreas mapeadas que precisam realmente ser reflorestadas. Ainda temos muita vegetação nativa onde podemos colher sementes e fazer o mínimo de modificações na questão ambiental. Esse trabalho é tão pequeno que em menos de 10 anos já estaria concluído. A microbacia do Mato Dentro é a que mais tem corpos d´água e mais área vegetal nativa, essa é a área que deveríamos começar para continuar sendo preservada. Vai gerar banco de sementes. A região mais degradada é a área mais plana onde concentram as maiores fazendas com cana, laranja e ovinos. Por serem planas foram desmatadas até o leito dos córregos e o máximo que se vê é uma fila de árvores que chamam de APP. Está área esta na microbacia do Guaiquica, e deverá ter o maior replantio. Enfim, o estudo é bem abrangente, cada propriedade tem um código que o relaciona com a matricula da prefeitura, descrevendo tudo que existe nela, desde o número de moradores, tipo das construções e quanto é necessário recompor de mata. Os dados analisados para as áreas se adequarem ou para área de proteção permanente (APP) ou para reserva legal (RL), estão de acordo com o código Florestal Brasileiro. Só falta o município tomar posse desse trabalho e fazer a pratica acontecer.”

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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