Fernando Pimentel, apropriado como Tosko, com apoio e incentivo de sua esposa Suellem Adriana de Santana Pimentel, organizou e abriu um local para receber exposições de trabalhos artísticos chamado Oposta Espaço Inventivo, localizado na Vila Camargo, em Limeira (SP). O casal de artistas transformou sua própria casa em um local para receber a visita pública, onde as pessoas terão a oportunidade de conhecer obras de artes de artistas em início de carreira e outros experientes com obras expostas em diversos centros culturais, museus e galerias pelo Brasil, como é o caso de Eduardo Salzane, cujo trabalho com autómatos (esculturas com movimento, em madeira) está em cartaz na Oposta Espaço Inventivo, entre os dias 11 de junho a 02 de julho.

Visitantes no Oposta Espaço Inventivo (foto:tosko)

Entrevistamos Fernando, pelo ineditismo na atitude do jovem casal pois, parte do princípio que a cidade de Limeira tem poucos locais para divulgar trabalhos artísticos, seja de artistas locais ou mesmo receber uma exposição importante com quadros, esculturas, desenhos, fotografias de pessoas de renome no meio cultural brasileiro, como por exemplo, Tarsila do Amaral, que nasceu na cidade de Capivari (SP), distante cerca de 60 km de Limeira, e suas obras retratam a paisagens e o povo brasileiro. No caso da exposição “A poesia do movimento mecânico”, do artista de Hortolândia (SP), Eduardo Salzane, tem suas obras inéditas e acessibilidade em braille e audiodescrição, aberto para visitação, de forma gratuita, na Oposta, o visitante irá encontrar um artesão habilidoso e criativo no trabalho com a madeira. 

Eduardo Salzane, sua irmã Margaret e o casal Suellem e Fernando Tosko (foto:tosko)

Leia a seguir, a entrevista com Fernando Pimentel para saber mais da inquietude artística e a galeria Oposta Espaço Inventivo.

Jornal Pires Rural: De onde surge a ideia de abrir um espaço cultural em Limeira?

Fernando Pimentel (Tosko): A Oposta surge da ideia de ser um lugar para expor, a princípio, o meu trabalho e da Suu (Suellem Adriana de Santana Pimentel), que é minha esposa. Nós dois somos nascidos em Limeira (SP). Abrimos em novembro de 2019, com a exposição do Artur Mociaro, um bonequista e manequista, aqui da cidade. Depois, no início de 2020, tivemos a exposição do Eduardo Salzane, daí fechamos por conta da pandemia. Foram então, dois anos fechados. Reabrimos em outubro de 2021, com a exposição do Wesley Alma.

Jornal Pires Rural: O que motivou esse espaço ser em Limeira?

Tosko: Toda vez que nós queríamos ver alguma coisa de arte era no antigo Palacete Levy, algumas vezes no hall do Teatro Vitória, pouquíssimas vezes no prédio que era a Biblioteca Municipal e hoje é o Museu Histórico e Pedagógico Major José Levy Sobrinho ou então, tínhamos que fazer o circuito Piracicaba, Campinas, São Paulo, cidades de maior porte e com uma visibilidade cultural maior. Depois, nós tivemos o Espaço Cultural Engep e outros lugares pontuais, como casas de coletivos que acabavam se voltando para uma balada mais festiva. Então, a gente pensa em montar um lugar que a gente conseguisse trazer para o público da cidade a arte ou proposta artísticas diferentes que a gente esta acostumado a ver. Por exemplo, quando estamos na Vila Madalena em São Paulo, cada casa, cada rua, cada buraco tem uma galeria, tem uma exposição acontecendo. Alguém na garagem da casa desenvolvendo alguma coisa, uma exposição, uma venda, uma banda, um café, tudo relacionado a arte, sempre gratuito e sempre aberto ao público, e com a venda do trabalho do artista ou os famosos souvenires mas, a pessoa poder entrar numa garagem, numa casa e ver uma exposição. Limeira precisava porque não tinha, até a gente abrir. 

Jornal Pires Rural: Você chegou a conhecer uma casa assim em nossa cidade?

Tosko: Havia alguns coletivos como o King Chong, uma movimentação desde 2015, que foi perdendo força por que é difícil manter algo do tipo. Tem o pessoal da Casa Laranja. Mas é um custo alto e sabemos que galeria de arte não é o foco da maioria da população, principalmente no interior como Limeira, o foco é festa do peão, não que não possa ter. Tem que ter, toda forma de entretenimento é importante, mas aqui o que ganha é rodeio, futebol, point de baladas.

Jornal Pires Rural: O que pode dizer mais sobre o Eduardo Salzane?

Tosko: Ele é um multi artista, trabalha com várias vertentes como malabares, faz arte circense, é escritor, fotógrafo, videomaker, é sensível a isso. É um cara que percorre o circuito Sesc, tem vários trabalhos expostos, tem curso na Domestika (plataforma online), trazê-lo para exposição já é interessante por conta dessa produção. Ele trabalha com autômatos desde 2014 e, com outros tipos de materiais há bem mais tempo.

Jornal Pires Rural: O que trouxe nas exposições ? Qual é o público da Oposta?

Tosko: A gente desenvolve aqui algumas feiras, com artistas e artesãos, esse é a maioria do público daqui. Além de pessoas que gostam de arte, muitos não são produtores de artigos mas, gostam de acompanhar a cena artística da cidade e sentem a dificuldade de ter que se deslocar para outras cidades para acompanhar a cena artística. São designer, professores, músicos, poetas de Limeira e também da região como Campinas, Jundiai, Rio Claro, Cordeirópolis e Piracicaba. Toda visita é legal, todos são importantes. Temos um fluxo de poucas pessoas e a gente sempre troca uma ideia. Pergunto como as pessoas conheceram o local, aqui é novo e não tivemos uma grande divulgação, somente pelo Instagram (@opostaespacoinventivo). Eu acredito no boca a boca, numa boa conversa que rende novas possibilidades.

Temos um canal no YouTube chamado Tuko Pamoja que não está vinculado ao Oposta, publicamos alguns projetos que fomos contemplados como documentários, podcasts sobre algumas personalidades e sobre o meu trabalho e da minha esposa, que faz uma coisa mais histórica, são trabalhos ligado as manifestações artística dela, como retratos não realistas usando a técnica da pintura, modelagem e escultura.

Jornal Pires Rural: E os seus vizinhos?

Tosko: Aqui é um bairro de gente mais velha, eu sinto uma certa resistência por parte deles por serem idosos, não estarem acostumados, é diferente. Acham que somos loucos, doidos. ‘Ah, como eles vão fazer isso, ganhar dinheiro com isso?’ Moramos aqui há sete anos, já conversei com diversos vizinhos antes de abrir o espaço aqui em 2019. Tirando a pandemia que ficou fechado dezenove meses, não consideramos oficialmente os três anos de espaço aberto ao público.

Jornal Pires Rural: De quem partiu a iniciativa e o desafio de abrir o espaço cultural?

Tosko: Partiu da minha esposa. Deu a ideia louca e, eu mais louco ainda, abracei, acreditei. Mas está massa! Legal. Não dá pra sobreviver ainda do negócio, entendeu? Que é bem difícil. Mas está tendo uma esperança, uma luzinha no fim do túnel.

Jornal Pires Rural: O horário de abertura é alternativo, por quê?

Tosko: Não é que é alternativo pra ser diferente. É que lugares assim em São Paulo e Campinas funcionam nesses horários. É comum as pessoas de domingo irem em uma exposição, em cidades maiores. É comum de sábado à tarde a galera não ficar na frente da televisão, não é a grande maioria mas, uma pequena porcentagem da população vai nas atividades culturais. Aqui em Limeira o pessoal faz o happy hour no bar de sexta-feira, em São Paulo fazem o happy hour na galeria. A pessoa está saindo do serviço e consegue ter um respiro, ver algo diferente, criativo, motiva ver o mundo de outra perspectiva, não aquilo que a televisão oferece, o que o WhatsApp oferece. Eu observo as reações das pessoas que vêm ver a exposição, e demonstram que faltava isso. Nós deixamos a agenda aberta para as pessoas virem no horário que quisessem, era só entrar em contato e muitas pessoas agendaram e vieram.

Jornal Pires Rural: Pensando na continuidade do espaço, o que lhe entusiasma?

Tosko: É ver a pessoa vir até o espaço e perceber sua reação e, o Feedback, nem que for ‘que legal que tem esse espaço’. É uma casa e essa casa tem algo diferente que a pessoa pode entrar e alegrar os olhos, ver algo diferente. Qual é a função da arte? Não é decorar, a decoração vem com um sofá, um vaso com flores, a arte vai te transportar para outro lugar. É uma ferramenta de transporte, seja pela cor, seja pela forma, seja pela estética, seja pelo manusear, pelo som. A arte tem a capacidade de levar para outro universo, em outro estado de ser. Aqui é isso, fazer com que as pessoas tenham esse respiro. Essa é a função da arte; te levar a pensar, questionar, sentir, liberar algo. Não é decorar um lugar. A pessoa comprar uma obra achando que vai decorar a casa, ela está errada. Quem compra uma arte, é porque aquilo que ela está comprando faz ela estar em outro estado, outro nível de sentimento, de emoção, de contemplação. Aqui nossa ideia é isso. 

Jornal Pires Rural: Como é a sua experiência com a produção artística?

Tosko: Eu não sou aquele cara que nasceu com o dom. Quando criança, eu desenhava como toda criança desenha o universo dela. Quando está sendo alfabetizada, o desenho da casa, soletrando as sílabas, simbolicamente aquelas quatro letrinhas formam a palavra casa, porque ela está condicionada que aquele desenho é casa. Então, somos simbólicos, somos desenhos. Ninguém foi diferente disso. Conforme vamos ficando mais velhos, vamos ficando com vergonha, normal também. Vai construindo o mundo, vai ficando com vergonha e não desenha mais, porque o desenho do outro é mais legal. Então, para de desenhar. Comigo aconteceu assim, até entrar numa escola bem complicada, barra pesada, no ensino médio. Lá tinham alguns pichadores, que nunca tinham feito um grafite na vida mas, desenhos no caderno e pichações, eles faziam. Comecei a ter contato com eles, ouvir um Rap, conhecer o movimento Hip Hop através de revistas, a internet era para poucas pessoas naquela época. Eu só desenhava. Aí, entra na escola uma pessoa cadeirante e eles constroem uma rampa e, a diretora me propõe ser o pintor da rampa, em troca eu poderia fazer um grafite de frente com a quadra. Eu nunca tinha pego num spray, nada, só desenhava no papel. Fiquei pensando, ‘nossa a escola inteira vai ver, vai ser nossa, legal’. Aí escrevi “Fernando”, bem grande (risos). Lembro até hoje, letras amarelas, o fundo (outline) rosa e contornei de preto. Disso aí eu não parei mais. Como acho meu nome muito grande, tem oito letras, quando começaram os apelidos na escola no início de 2000, aí ficou Tosko, na verdade é uma gíria e eu me aproprio disso. 

Fernando Pimentel (Tosko) ao lado de seu grafitti realizado em em Atibaia, SP (foto:tosko)

Jornal Pires Rural: Pichação ou grafitti é arte?

Tosko: A questão de arte parte para uma outra conversa do que seria arte? Mas essas duas são linguagens, são vertentes artísticas com propostas diferentes. O grafitti é ilegal, ele é igual a pichação, a diferença entre eles é a estética. A pichação é um tag reto, aquelas letras retinhas e tudo o mais e o grafite tem certa plasticidade, mais cor, mais volume, ambos são sem autorização. Como é ilegal, se tiver uma autorização para usar o muro, estou fazendo grafitti? Não, estará fazendo uma intervenção urbana, se for de grandes proporções é um muralismo.

As pessoas tem um certo preconceito quanto a pichação mas, há um motivo para aquilo estar acontecendo. Tem aqueles jovens que fazem por moda ou mesmo por ser transgressor, mas até o ser transgressor tem um motivo pela atitude. A sociedade rotula, apontado o dedo mas, os pichadores, às vezes, são muito mais organizados que muitas pessoas por aí. No sentido de estudar o lugar, passar vários dias em horários diferentes para ver a movimentação, desenham como vão fazer, ensaiam, pessoas ajudam, tem um planejamento, não é na loucura, não. Eu não sou pichador, não fui pichador mas, conheci vários deles e digo que são muito organizados. Os desenhos são codinomes ou alianças que eles falam, que representam o clam, crew (grupo) que eles são. Sempre tem uma palavra com uma mensagem, mesmo você não concordando com aquela mensagem , a pessoa está ali usando o mobiliário urbano e também sendo usada quando sai de casa com uma roupa com a marca no peito, está se fazendo uma propaganda de algo, de um valor, de alguma ideia que é a missão que a marca carrega.

“O trabalho no geral aborda a simbiose entre humanos e animais. A parte superior animal para discutir o instinto prevalecendo sobre a razão. No caso desse trabalho, o porco símbolo de fartura com as espadas de São Jorge, símbolo de força e resistência”. Esmalte sintético a base de água, corantes e acrílica sobre tela emoldurada 32 x 32 cm, 2022 (foto:tosko)

Jornal Pires Rural: Como você veio lapidando seus trabalhos artísticos?

Tosko: Foi uma coisa lenta, porém continua. Acabei o ensino médio com 16, 17 anos, sou filho único, minha mãe pressionando para continuar os estudos. Ela queria que eu fosse advogado, ela era funcionária pública. Aí, entrei na faculdade de design, dois amigos já estavam fazendo. Fui trabalhar e estudar, mas não me encaixava, fui metalúrgico, eletricista, trabalhei na Telefônica, fiz um curso de três anos e meio em técnico de telecomunicações e não conseguia me adaptar. Fiquei desempregado um tempo e minha mãe enérgica, perguntando se eu não ia fazer nada da vida? Quando o governo do Estado de São Paulo abriu vagas para ser professor de arte, categoria O. Era um contrato emergencial pois, estava faltando professores de todas as matérias, só que precisava ter licenciatura. Eu já estava formando em bacharel de designer e, na sequência, já entrei em licenciatura em artes visuais, que é pedagogia junto com as práticas de artes. Ao todo, foram oito anos na faculdade. Outra coisa legal as pessoas entenderem, que não é a instituição que vai formar o aluno em artista. É a prática que desenvolve o artista, a faculdade não é tão prática, é algo mais teórico.

Jornal Pires Rural: Então, de que forma a faculdade contribuiu para o seu trabalho ?

Tosko: Quando eu começo a trabalhar com arte fui para a parte prática. Eu não sabia nada de arte, até reprovei no ensino médio em arte, fui aprovado pelo Conselho dos Professores; ‘passem o Fernando, pelo amor de Deus!!’. Eu achava que não precisava estudar para ser grafiteiro, era só pintar. Quando cheguei na faculdade, a primeira matéria era história da arte, não sabia nada de nada. A formação acadêmica fez com que eu quisesse aprender um pouco mais, desde o início da humanidade e, isso foi contribuindo porque fui incorporando essas questões mais acadêmica em meu trabalho, como o estudo da simbologia, da forma enfim, fui agregando. A instituição me ajudou a compreender que eu precisava ter esse conhecimento, antes eu achava que era idiotice. A teoria complementou a prática. Entrei no mundo dos professores, na verdade eu orientava as oficinas de grafite antes de entrar na faculdade, trabalhei na Oficina Cultural Carlos Gomes, em Limeira. Sabe como paguei a faculdade? Eu fazia a ‘Escola da Família’, que era um projeto daquela época pra ficar nas escolas estaduais todo sábado e no domingo, das nove da manhã às cinco da tarde. Não podia faltar, se não perdia a bolsa (de estudo). Fui amadurecendo, surgiu a oportunidade de lecionar e ganhar dinheiro dando aula. Mas eu nunca vi a arte como uma forma de ganhar dinheiro, como diz o Emicida; ‘eu cantava por Hobbie e trabalhava por uns trocados’. Então, eu pintava por Hobbie e trabalhava pra me sustentar. Eu comecei a pensar em arte como forma de ganhar dinheiro em 2017/2018, só que eu já pinto desde 2000. Nunca achei que iria sobreviver de arte.

“Esses trabalhos foram uma série que está no Canadá. Neles quis falar sobre as belezas do Brasil e suas diversidades, retratando as araras, dando acabamento com o macramê e crochet, utilizado pelos artesãos de todo o país. Os menores são utilizados esmalte sintético a base de água, corantes, acrílica e madeira birch sobre canvas com acabamento de crochê e macramê , 118 x 61 cm (aproximadamente), ano 2022. O maior, esmalte sintético a base de água, corantes, acrílica e madeira popler sobre canvas com acabamento de crochê e macramê, 187 x 92 cm (aproximadamente), ano 2022”. (foto:tosko)

Jornal Pires Rural: Qual foi o ponto da virada?

Tosko: O ponto da virada foi quando me casei. A minha esposa me ajudou muito. A gente se conheceu pela arte. Ela trabalhava na Câmara dos Vereadores e eu com mais dez artistas fomos fazer uma exposição e pintar ao vivo, aí a gente se conheceu. Ela me ajudou a ver muita coisa que eu não conseguia ver. É possível viver de arte, é possível sobreviver, muita coisa é possível e, depois é a vida. É legal, ganhar um prêmio em um salão de artes, uma pessoa comprar seu trabalho, as pessoas ficam comentando, encomendando, querendo, elogiando, criticando, é legal. E aqui o Oposta, este espaço aqui, somos contemplados, nossa casa é uma galeria de arte. Toda manhã fico olhando as coisas que tem aqui, pô, é um oásis. Estamos tentando trazer um alívio as pessoas. A única coisa que eu acho ruim é que as pessoas não estão acostumadas a vir conhecer o espaço, elas não estão compreendendo o espaço. Acho que vai demorar um pouco para elas compreenderem. Muitas pessoas estão presas num mundo que não existe, que é a internet, então, elas vivem conectadas num lugar que não existe. Muitos não estão abertos ao despertar, outros acham que tem que comprar as coisas que tem aqui. Qualquer um pode vir e só ver, não precisa comprar nada. Também aqui não tem o hábito de cidade grande que tem museu, Sesc, estamos atrasados. Isso é ruim porque as pessoas vão para outras cidades e não ficam aqui. Quero aproveitar para convidar as pessoas para conhecer a Oposta Espaço Inventivo, fica na Rua Lopes Trovão, 337, Vila Camargo, Limeira. Atendemos com horários agendados via DM no Instagram (@opostaespacoinventivo). Venham que é muito bonito.

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