Limeira, 25 de junho de 2021

Querida, professora!

Estou muito feliz em escrever para você! 

Deixe-me apresentar. Sou Regina Célia, professora da rede municipal de Limeira, interior de São Paulo e gostaria de compartilhar com você um pouco da minha trajetória profissional e espero assim, fazer parte de sua formação profissional. 

Vamos lá!!!

Iniciei meu trabalho como educadora na rede estadual de ensino de Limeira ao terminar o curso de Magistério em 1995. 

Você sabe o que era o curso de Magistério? Como você estará lendo essa carta muito tempo depois, talvez nunca tenha ouvido falar nele. Era o curso que habilitava os professores a ministrarem aulas na primeira etapa do Ensino Básico (Educação Infantil e Fundamental I).  Pois bem, como não era efetiva, iniciei como professora eventual e posteriormente como professora estagiária, onde permaneci por dois anos. Como não aprendemos apenas com os livros, esse período foi muito importante para a minha formação.

 A princípio, como não tinha experiência, ouvia os conselhos e sugestões de professoras mais experientes, e muitas vezes, replicava as atividades que tinham realizado em anos anteriores. Hoje, tenho conhecimento que era apenas uma reprodutora de práticas, muitas vezes, defasadas. Uma profissional que apenas executava e não refletia sobre minha prática. Quero indicar a leitura de textos de alguns autores que versam sobre esse assunto: Nóvoa (1991), Schon (1992) e Tardif (2002) caso se interesse.

Nós, enquanto profissionais intelectuais, não podemos deixar que isso aconteça, devemos estar em contínua formação e sempre buscar o aprimoramento com a ação- reflexão-ação e a troca entre os pares para que não se perpetue práticas, frequentemente, equivocadas.

Em 1998, houve a municipalização do ensino aqui, onde, as séries iniciais do Ensino Básico passaram a ser responsabilidade da prefeitura. 

Os professores estaduais que exerciam o trabalho nessas séries supracitadas, foram absorvidos pelo município e, para as vagas remanescentes foi aberto um concurso público. Participei do primeiro concurso que houve após a municipalização, tive que estudar bastante, inclusive, fiz cursinho preparatório. Com as graças de Deus passei, mas não fui contratada logo de início, portanto, tive que continuar a dar aulas como professora substituta. 

Aprendi muito!!! 

Durante o período em que atuei como professora substituta, tive a oportunidade de conhecer diferentes escolas, com diferentes realidades, mas dessa vez, não era mais a professora que apenas executava…aprendi a aprender!!!

Observava, planejava e estudava…muito!

Em 2002, fui contratada como professora efetiva e assumi uma sala de 2ª série. 

Calma, explico! 

Em 2009, houve a implantação do Ensino de 9 anos no Brasil, assim, o último ano da educação infantil foi incorporado ao ensino fundamental. A educação Infantil passou a atender os alunos de 4 e 5 anos, o 1º ano do ensino fundamental passou a atender as crianças de 6 anos e assim sucessivamente; portanto, a 2ª série passou a ter a nomenclatura 3º ano.

Voltando…

O sonho de ser uma professora efetiva foi realizado! E assim, poderia voltar estudar, pois não tinha um curso superior.

Ingressei em uma escola excelente, situada na periferia da cidade. Ao assumir, iria ministrar aulas de Língua Portuguesa para três turmas de 2ª série (3º ano), pois a escola dividia os professores por área de conhecimento. Durante a primeira reunião realizada entre a equipe gestora e os docentes, resolvemos que eu assumiria uma turma de 15 alunos que não tinham conseguido se alfabetizar ainda. 

Um grande desafio…mais uma oportunidade de aprendizagem!

Pois bem, iniciei o trabalho. Confesso que tive medo, mas a vontade de ensinar era maior e mais uma vez, com as graças de Deus consegui fazer com que aquelas crianças não estivessem fadadas ao fracasso, pois a literatura nos ensina que, um estudante que passa um ano sem conseguir aprender, é um candidato em potencial a desistir e futuramente, a ser mais um, sem esperança, em uma sociedade com tantas desigualdades como é a do Brasil. Queria minimizar ao máximo essa desigualdade.

Hoje, com toda certeza, posso falar pra você, parceira querida, somos capazes de fazer a diferença para nossos meninos e meninas que muitas vezes só têm a escola como referência e dessa forma, nossa responsabilidade é ainda maior.

Sabemos que nossa sociedade está doente, e a escola está inserida nessa sociedade, mas também é fato que a escola é a instituição responsável por transmitir os conhecimentos historicamente construídos pela humanidade e portanto, é função do professor, ensinar.

Temos que fazer a nossa parte, mesmo com tantos desafios.

Que bom que escolhemos esta profissão e podemos fazer a diferença na vida de alguém com o fruto do nosso trabalho!

Continuando…

No mesmo ano que ingressei na prefeitura, iniciei o curso de Geografia em uma faculdade particular aqui em Limeira. Ministrava as aulas durante o período da tarde e à noite ia para a faculdade. 

Em 2004, fui convidada a dar aula em uma escola da rede particular de ensino de Limeira. Foi outro grande desafio, mas muito prazeroso!

Tive a oportunidade de aprender outras metodologias de ensino, por meio do sistema apostilado. O colégio nos oportunizava o aprendizado contínuo por meio de formações em São Paulo.

Bom, trabalhei dessa forma, com atuação nas duas redes de ensino por cinco anos.

Quando conclui o ensino superior, fiz um curso de pós-graduação lato sensu em Didática.

Amiga, quero versar um pouco sobre a trajetória que percorremos sobre o tema alfabetização de forma bem sucinta.

Até a década de 70, as crianças aprendiam por meio de métodos (alfabéticos, silábicos, fônicos). A partir de estudos, principalmente a partir da década de 80, com as contribuições de Emília Ferreiro e da Psicogênese da Língua Escrita (1985), avançamos significativamente em nossas atuações por meio de leituras, estudos, reflexões e trocas entre os pares. 

Assim, o foco da discussão passou-se do que ensinar para como a criança aprende. 

Foi um divisor de águas!

Não foi e ainda não é tarefa fácil, pois muitas vezes há entraves, como por exemplo, quando encontramos profissionais que têm uma concepção de que a criança só consegue se alfabetizar por meio de um trabalho linear onde apresenta-se as letras do alfabeto, as sílabas, palavras, frases, para somente depois chegar aos textos. Como é um tema que demanda um tempo maior para discussão, vou sugerir a leitura do livro “Alfabetização: propostas e práticas pedagógicas” da Profª  Dra Maria Cecília de Oliveira Micotti (2015). Nele, você encontrará textos bastante interessantes sobre alfabetização e o trabalho com textos em uma perspectiva de uma Pedagogia por Projetos.

Após cinco anos atuando nas duas redes de ensino como já disse , resolvi tentar um novo desafio, fui ser Professora Coordenadora na escola em que lecionava. Sai da rede privada e fiquei apenas na rede pública. Trabalhei por dois anos nessa função e mais uma vez, aprendi muito. 

Eram desafios diferentes. Quando estamos dentro de uma sala de aula, o foco são exclusivamente os nossos alunos, ao sairmos desse perímetro, a amplitude do olhar aumenta para as demais turmas da unidade escolar, passamos a ter uma visão geral do processo ensino/aprendizagem.  Essa função é muito importante, pois além de auxiliar o professor por meio do planejamento de ações que possam diminuir os problemas que surgem diariamente, o professor coordenador é um articulador entre a equipe docente, gestora e comunidade. Enquanto atuei nessa função, fui convidada a fazer parte da equipe técnica da Secretaria Municipal de Limeira – SME, junto ao departamento pedagógico. 

Aceitei o convite! Mais uma vez, sai da zona de conforto e me arrisquei ao “novo” de novo!

Foi um período inesquecível! 

Estudei como nunca!

Atuei como professora formadora em um Programa Estadual chamado “Ler e Escrever” e em outro federal, intitulado “Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa” – PNAIC.

 Esses programas ofereciam formação em universidades estaduais e federais, tínhamos a oportunidade de estarmos com professores formadores de outras redes, autores e palestrantes consagrados, além da disponibilidade de continuarmos nossos estudos. 

Meu trabalho dentro da secretaria consistia em estudar, planejar formações para os professores da rede e estudar…e como estudei! 

Durante o ano de 2013, nós, técnicos da SME elaboramos um novo currículo para a rede, pautado na Pedagogia Histórico Crítica. Caso queira ler sobre, indico a leitura do livro do Profº Saviani (1983), “Escola e Democracia” e autores como Vigotski, Leontiev e Lúria (1926), que trazem contribuições muito importante sobre a Psicologia Histórico-Cultural. 

Quero destacar que nunca esqueci da sala de aula e das crianças. Tudo o que fazia, era pensando em melhorar o aprendizado dos nossos pequenos, como também, em contribuir com os docentes para que esse trabalho, que é tão árduo, pudesse ser visto como algo belo e essencialmente importante.

Cabe a nós, educadores, nos empoderar, de que forma? Por meio do estudo. Algo, que ninguém pode tirar de nós é o conhecimento, e esse, adquirimos por meio do estudo.

Bem… aproveitei cada oportunidade que tive. Ingressei como aluna especial na Universidade Estadual Júlio de Mesquita UNESP em Rio Claro em 2015. Durante os dois semestres, participei das aulas e tive o prazer de desenvolver um projeto de pesquisa e apresentá-lo junto ao programa de pós graduação da universidade em uma linha de pesquisa de Alfabetização.

Meu objeto de pesquisa foi a produção textual oral e escrita no ciclo de alfabetização e tive o privilégio de ter como orientadora a professora Maria Cecília de Oliveira Micotti, conceituada pesquisadora na área de alfabetização no Brasil. 

Gostaria de, em poucas linhas, falar um pouquinho sobre a produção de textos no ciclo de alfabetização. Espero que entenda que o meu intuito é apenas deixar registrado para você a importância do desenvolvimento das capacidades leitoras e escritoras durante a alfabetização.

 Vamos lá…

Aprendemos com Vigotski que todo conhecimento é adquirido, portanto, não é inato, como muitos pensam. Sendo assim, a produção de textos no ciclo de alfabetização é um conteúdo que necessita ser ensinado.

 A palavra “texto” vem do latim textum, que significa tecido. Uma combinação perfeita entre os “fios” (orações), tendo como resultado uma costura (texto propriamente dito). A partir disso, sabemos que o texto é a materialização de um discurso e que mesmo uma palavra apenas, pode ser um texto, de acordo com o suporte em que está inserida e do contexto de produção; exemplo, o “PARE” que está escrito em uma placa, é um texto e portanto tem um significado. 

Quero destacar também, que ao escrevermos, idealizamos o nosso interlocutor, um interlocutor que compreenda o nosso texto e que contribua para a construção dele.  Dessa forma, podemos dizer que ao escrevermos um texto, ele não estará pronto, caberá ao leitor fazer parte da construção do “todo significativo”. 

O leitor é coautor do texto, pois contribui significativamente, com suas subjetividades, compreensões e seu conhecimento de mundo. Posto que a leitura é sempre produção de significados, ela é condição sine qua non para a produção de textos orais e escritos no ciclo de alfabetização.

Um dos livros que li para a produção da minha dissertação de Mestrado, foi o livro da Ingedore Villaça Koch (2014), “Ler e Compreender, os sentidos do texto”, uma leitura indispensável.

Continuando…

Em 2016 sai da secretaria e fui trabalhar como vice-diretora em centros infantis. Durante os anos de 2016, 2017 e 2018, desenvolvemos alguns projetos juntamente com a equipe docente e a professora coordenadora. Esses projetos foram realizados com as crianças da 2ª etapa da Educação Infantil (6 anos e consistiram em aprender a tocar um instrumento (flauta), conquistar um passeio de formatura e produzir textos, mesmo antes de saberem ler e escrever convencionalmente.

Estudar e escrever se tornaram algo significativo para os estudantes desses centros infantis, pois perceberam que eram os protagonistas do processo ensino/aprendizagem. 

 Escrever se tornou algo significativo, pois escreviam para alguém de verdade, e não apenas para que a professora corrigisse. A escrita deles ultrapassou os muros da escola.

Foram projetos muito bons! Em 2017, tivemos a oportunidade de expormos um desses projetos em um Congresso da América Latina no México. Algo que nos trouxe um grande orgulho, pois vimos uma escola pública, da periferia de uma cidade do interior de São Paulo, mostrar seu trabalho fora do país.

 É possível, basta acreditar!!!

 Atuei como vice-diretora até 2020. 

Hoje, atuo em duas salas de aula, uma de educação infantil e outra do ensino fundamental. 

Estamos passando por um momento muito difícil! 

No momento, temos que enfrentar algo nunca visto antes, um vírus silencioso (Corona), mas que causa uma imensa destruição no organismo. Um vírus que impede o ser humano de respirar e que mesmo que consiga superá-lo, pode deixar sequelas por um bom tempo. 

Muito triste!

No Brasil, a história nos conta, que tivemos outros momentos pandêmicos como retratado no início do século 20, com a gripe espanhola. “Uma doença que agia muito rápido, há notícias de famílias inteiras que morriam em casa e só eram descobertas por vizinhos que notavam a falta de movimento” (https://www.bbc.com, 2021). 

Num momento em que os recursos e o conhecimento científico sobre o vírus ainda eram escassos, o governo brasileiro demorou para tomar as primeiras medidas e patinou até conseguir coordenar as ações e criar políticas efetivas contra a “espanhola”, como a doença era conhecida no período.

Conseguimos superar!!!

Na década de 80, quando o vírus “HIV” foi descoberto, muitos equívocos ocorreram, por falta de informações, como por exemplo, ao acharmos que o vírus se transmitia apenas em um grupo de pessoas (homossexuais) ou ao extremo, de acharmos que se transmitia por meio do beijo. 

Foram grandes os equívocos por falta de informação, o que causou danos irreversíveis, principalmente às mulheres que contraíram o vírus por meio de seus parceiros estáveis.

Há mais ou menos 10 anos, tivemos um outro vírus que chegou de mansinho e causou grandes perdas. O vírus “influenza A”. Como a tecnologia médica estava mais avançada em relação à pandemia anterior, foi possível detectar o agente com rapidez e trabalhar em novas soluções a partir das vacinas, mas em virtude dessas não serem fabricadas em quantidade suficiente, o número de mortes foi bem alto (https://saude.abril.com.br, 2018).

Vemos, por meio da história, que nossos governantes, não são capacitados para lidar com questões tão sérias e que podem causar grandes dores à população, por perderem pessoas que lhe são tão “caras”. 

Outro problema que temos que enfrentar hoje, é o aumento da desigualdade social, com o aumento significativo de desempregados, comércios tendo que fechar as portas por não conseguirem cumprir com seus compromissos, aumento da infração e a diminuição do poder de compra dos brasileiros. 

Infelizmente, revivemos momentos, os quais não queríamos, mas sabemos que a dor nos serve como evolução espiritual, tento entender este momento dessa forma para conseguir continuar em frente, mesmo a tantas perdas.

Sabe, amiga, aprendi com o passar do tempo, que toda situação pode ser transformada, depende única e exclusivamente, da forma como a enxergamos. 

Tive que me reinventar enquanto professora!!! Achei que sabia, parafraseando Sócrates, vi que, quanto mais sabemos, mais sabemos que não nada sabemos!

 Hoje, tenho que trabalhar em home office, manter um distanciamento com os meus alunos, dar aula síncrona, gravar vídeos explicativos, planejar ações para os alunos que não estão no nível adequado, planejar atividades para diferentes momentos (aula presencial, remota e síncrona), enfim… novos desafios…novas aprendizagens.

Que bom que temos a tecnologia para nos aproximar em tempos de afastamento social, mas confesso que não está sendo fácil! Não consigo entender como farei para ensinar meus pequenos, sem interagir com eles da forma como se faz necessária. 

Vou compartilhar algo com você que levarei para sempre. Outro dia, cheguei à escola e fiquei aguardando meus alunos na porta de entrada da sala. Chega um dos meus alunos (D. 6 anos) e grita: “Professora, que saudade!” e me abraçou. Eu não resisti e o abracei também. Bem, seria algo normal em tempos normais, mas em tempos de pandemia, isso é proibido. Tivemos que nos “pulverizar” com álcool… só um desabafo!

Bom, vou encerrar esta carta e dizer somente mais algumas palavras.

Muitas vezes, o ser humano, luta por ideais que são apenas escapes convenientes, são incapazes de compreender o outro e lidar com ele de forma inteligente, para ele o que importa é o ideal a ser atingido. O seguimento de um ideal exclui o AMOR, e sem o amor nenhum problema humano pode ser resolvido.

Se você leu até aqui, provavelmente está atuando em uma sala de aula minha e eu devo estar aposentada, pois quando escrevi, estávamos em 2021 como você pode verificar na data acima e agora, estamos em 2030. 

Um grande e afetuoso abraço!

De sua amiga

Regina Célia

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