Artur Mociaro é um artesão de 41 anos que mora no bairro dos Pires, desde 2001, seus trabalhos são esculturas focadas na técnica de modelagem utilizando materiais como madeira, resinas, sementes entre outros. Entrevistamos Artur e conversamos sobre o início da profissão, participação em exposições de arte, o que é ser um artesão, seu entendimento sobre arte e como divulga os trabalhos. Leia a seguir;

Jornal Pires Rural: Fale um pouco de você, como começou no artesanato?

Artur Mociaro: Nasci no antigo Hospital Santa Mônica, em Limeira e, fui criado no Jardim Morro Azul e Jardim São Paulo. Vim morar no bairro dos Pires há mais ou menos 19 anos. Até a 6ª série estudei no Sesi 340, lá no Morro Azul. Depois fiz a 7ª no Major Levy e a 8ª série vim fazer pelo supletivo, há seis anos atrás, aí parei de estudar. Não tenho formação artística, eu vou aprendendo com outros profissionais, vou metendo a cara em fazer. É a tal da “faculdade da vida” que o pessoal fala. Minha profissão sempre foi artesão, desde os meus 16 anos eu trabalho com isso. A outra ocupação que tive além do artesanato foi ajudante de marcenaria. Eu decidi seguir esse rumo desde os meus 10 anos de idade, quando eu vi uns artesãos de rua trabalhando, eu bati o olho e falei: é isso que quero fazer. Trabalhei como artesão de rua uns 4 anos mas não curti muito. 

Presépio em miniatura
Presépio em miniatura, o rosto das figuras tem menos de um centímetro, foi esculpido em cêra. A cena retrata as primeiras horas após o nascimento do menino Jesus. Com essa esculutra Artur Mociaro participou do o “1o Salão de Presépios de Limeira”, 2019

Jornal Pires Rural: Sempre participa de exposições? Como é participar de uma exposição? 

Artur Mociaro: Até o ano passado nunca tinha me envolvido com exposições. Até porque eu nem me considero artista, sabe? Eu me considero um artesão e presto mão de obra, faço encomendas, faço moldes, faço cópias em resina. Aí, o ano passado, durante uns 3 a 4 meses eu dei aula de escultura no Ateliê Coletivo, uma loja de umas primas minhas, a Liz e a Livia, que vários artesãos, artistas e tatuadores expões seus trabalhos para venda, é uma casa mantida por várias pessoas. Lá eu conheci um casal de artistas, Suelen e Tosco, de Limeira, que me incentivou a participar de exposições. Eles falavam pra eu participar de salão (de artes) para meu trabalho ficar conhecido. Aí, eu comecei a participar, meu primeiro foi o “1º Salão de Presépios de Limeira”, peguei em 5º lugar. Depois participei do 83º Salão Ararense de Artes Plásticas “Antonio Rodini” (28 de março a 03 de maio de 2020). Peguei 3º lugar com uma escultura em um caroço de abacate. Participei recentemente do 47º Salão Internacional de Humor de Piracicaba, (em votação aberta que aconteceu entre os dias 29 de agosto e 13 de setembro, a escultura de Artur ficou em 3º com 557 votos). É bem legal participar, é uma porta a mais para mostrar os trabalhos, apesar que vou te dizer, a melhor exposição que a gente tem é o Instagram, a internet. Fazendo uma exposição em salão, poucas pessoas veem seu trabalho em relação ao Instagram. Outro dia mesmo patrocinei uma postagem, 5 mil pessoas viram. Então, é legal participar de exposições mas, vai muito pouca gente, vão mais os colegas. Não sei se vou continuar participando.

Escultura feita em caroço de abacate

Jornal Pires Rural: É preciso ter dom para esculpir?

Artur Mociaro: Não, só se interessar e ter muita paciência. Vou resumir numa frase o que é modelar, esculpir, enfim; é você conhecer e dominar o seu material e treinar sua observação além, é claro, da paciência

Jornal Pires Rural: O que te inspira?

Artur Mociaro:O que me inspirou mais, quando eu era criança, foi o trabalho com barro lá do Nordeste, lá do Mestre Vitalino. Hoje em dia tive a oportunidade de conhecer vários artistas a partir do Instagram, são pra mim referências. O que eu mais gosto de fazer são as carrancas, figuras a partir de rostos, deformações a partir do rosto, eu gosto muito. Esse chamo isso de meu verdadeiro trabalho, pegar um material e fazer uma escultura qualquer de um rosto, totalmente sem plano. É o que faço quando não é encomenda.

Carranca em madeira

Jornal Pires Rural: Como é assumir que você é um artista?

Artur Mociaro: Esse negócio de ser ou não artista, em minha opinião não tem muita definição. Qualquer pessoa que fizer um trabalho e falar que é um artista, ele é um artista. Mesmo que não for uma linguagem feita a mão, pra fazer um trabalho de arte, não precisa ser necessariamente feito a mão. E também, eu acho que qualquer um é livre pra olhar o que eu faço e dizer que é arte, beleza. Pra mim não é! Eu sou um artesão. Falo que não é arte porque eu nunca tenho um contexto sobre aquilo que eu faço. Se faço uma carranca num pedaço de madeira, aquilo pra mim é isso. Se eu faço uma estatueta qualquer de alguma coisa, é aquilo ali. Eu não tenho nenhum contexto atrás daquilo, que significa tal coisa. Por isso, eu digo que não considero o que faço arte. Hoje em dia, tendo contexto qualquer coisa é arte, se o cara pregar uma banana na parede e tiver um contexto sobre aquilo, é um trabalho artístico.

Pode ser que se eu for pro lado das artes meu trabalho fique mais valorizado, mas depende de onde está e de quem. O grande lance é o seguinte; o mercado de artes é um grupinho que elegeu tal pessoa, que é o artista do momento. Isso não quer dizer que a pessoa é boa ou não. Isso depende do círculo de amizade que se tem. Faço meus trabalhos autorais e isso não demonstra interesse de ninguém, só eu gosto.

Escultura feita sob encomenda com resina de poliéster e durepoxi

Jornal Pires Rural: Como descreveria suas esculturas, é um clone?

Artur Mociaro: A maioria dos trabalhos que faço não são clones mas também, não são autorais, porque eu faço encomendas a partir de fotos das pessoas. Eu não faço clone de personagens, faço um trabalho caricato em cima, quando alguém me pede. Poderia estar muito melhor de vida, se eu fizesse personagens de super heróis, de filmes e vendesse, as pessoas compram mais pelo personagem mas, eu não acho legal fazer isso, prefiro fazer uma encomenda de uma pessoa que quis fazer uma caricatura do pai, do amigo, do que ficar fazendo personagens famosos. Eu não acho legal fazer uma coisa que é errado (infringindo lei de direitos autorais sobre usar personagens famosos), mesmo que dificilmente possa ter uma penalidade, eu não acho legal. Tem escultor que fala: ‘olha o Batman que eu criei’, criou nada! O Batman quem fez foi o autor. É triste ver quem mexe com desenho ou escultura, na grande maioria, acaba achando o caminho da pirataria o único caminho. O cara que criou o Batman teve sucesso porque ele quis fazer uma coisa nova, ele criou um personagem. Ninguém mais cria nada e ninguém se importa muito com o trabalho que você fez, eles estão ligados no personagem. Mas eu já fiz muito, eu sobrevivi vendendo turma do Chaves um bom tempo. Depois eu descurti, se eu tivesse autorização do pessoal para fazer eu faria, mas é uma coisa muita cara. Eu estou fazendo bastante modelagem que não tem mais esse caso de direitos de personagem. Estou fazendo trabalho para empresas com bonecos de profissão e outras cenas que não tem a ver com filmes, fora o trabalho de caricaturas que faço das pessoas, que não deixa de ser um trabalho autorizado e dou uma versão autoral para a figura, eu não faço um retrato fiel de ninguém. Eu gosto bastante de temas de roça, de sítio, aquelas casinhas de fazenda, velhinha dando milho para as galinhas, tem tanto universo pra explorar, do que ficar nessa mesmice de super heróis, não sou contra quem faz, não quero por regra pra ninguém.

Jornal Pires Rural: Como podemos considerar um trabalho artístico, arte?

Artur Mociaro: Sobre ser arte ou não ser arte, eu acho que qualquer pessoa que faça um trabalho e coloque um conceito verdadeiro, pra ela, naquilo, eu respeito, acho muito legal. Se colocar uma pedra no chão e ela tiver um conceito sobre aquilo e aquilo for uma verdade pra ela, pô eu acho super legal. Eu não gosto de colocar um conceito falso em uma coisa, só pra tentar engrandecer aquilo e isso eu não vou fazer! Entende? Eu não vou pegar uma peça minha, que não tem conceito nenhum e inventar um negócio em volta daquilo, numa tentativa de ficar mais interessante. Eu acho isso uma babaquice, eu não vou fazer isso aí! Mesmo que atrapalhe meu comércio. Pra mim, as minhas coisas não tem conceito mas, eu respeito todo mundo que tenha um conceito verdadeiro. Eu acho um babaca quem faz um conceito falso pra deixar aquilo mais interessante.

Jornal Pires Rural: Algum dia você deixou de executar esses trabalhos? 

Artur Mociaro: Eu faço isso aqui, não é questão de trabalho, quem faz isso aqui precisa fazer. Eu optei por fazer disso meu trabalho mas, se eu trabalhasse com outra coisa, continuaria fazendo.
Eu não vou parar de fazer, eu não ganho nada, eu vivo uma vida bem modesta. Vamos supor, eu poderia ganhar o que ganho fazendo um trabalho que requer muito menos treino, muito menos estudo, não desmerecendo o trabalho de ninguém. Eu nem quero ganhar dinheiro, meu objetivo é a hora que quebrar meu carrinho velho, eu ter um dinheiro pra consertar. Meu sonho não é ter um carro novo. Esse lance de grana, quanto mais se arruma mais começa a atrair problema. Um exemplo aqui dos Pires, todo mundo que já deu uma arrumada na casa, colocou sua piscininha, sua churrasqueira, seu carrão bonito, está preocupado com bandido e eu não estou. Aqui da minha casa estou bem de boa desses problemas aí. 

Quando eu comecei, não tinha uma noção de comércio, como eu tenho hoje, eu vendi muito trabalho de graça. Eu tenho duas a três contas de luz pra pagar então, vou vender um trabalho para pagar, mesmo que ele valesse 10 vezes mais. Porque eu fazia isso? Por tentar viver só daquilo, eu me deixei numa situação vulnerável, de não ter um plano b. Então, eu aconselho as pessoas que estão começando, tenham um plano b, trabalhem com outra coisa, ou tenha um plano b dentro do artesanato, que é o que eu faço hoje. Com o tempo eu consegui desenvolver a minha mão de obra, que é o meu ganha pão, dentro do artesanato, eu presto mão de obra para outros escultores que não gostam de fazer moldes, não gostam de trabalhar com resina, eu vivo 90% desse serviço. Aí quando alguém me procura para uma encomenda, eu não preciso abaixar as calças, entendeu? A pessoa me pede uma encomenda, eu dou o preço, não quer, beleza. Eu descobri isso tardiamente, agora eu aconselho as pessoas que não se deixem numa situação vulnerável para não desvalorizar seu trabalho, tenha um plano b, para não vender seu trabalho a um preço de banana.

Jornal Pires Rural: Desde muito novo você se expressa, concorda que um artista se expressa porque transborda?

Artur Mociaro: Sim eu concordo, eu estudei música quando eu era criança pelo método Bona de solfejo, e lá falava assim: ‘a música é a arte de expressar os diversos afetos da alma através do som”. Eu acho que no fundo, no fundo é arte o que faço. Só que não combina com que está sendo chamado de arte, por exemplo, ao se escrever num salão de arte, o que eles perguntam? ‘Fale seu trabalho, descreva’. Eles não estão querendo saber apenas sobre técnica, eles querem que você fale sobre, e eu não tenho o que falar, eu simplesmente faço esculturas figurativas. Pra esse pessoal, eles não gostam de quem não tem o que falar e, muitas vezes não é escolhido pra participar do salão, porque não deu um bom contexto sobre aquilo que foi feito. Eu mandei um trabalho o ano passado (para a exposição de arte Naïf de Piracicaba), mas não foi aceito, acho que não fui considerado Naïf o suficiente e, muitas vezes eu acabo me sentindo sem local, pelas coisas que eu faço, como eu não sou estudado, então, meu trabalho não é nem acadêmico, nem Naïf e outras denominações. Sempre brinco que gostaria de ter um salão, uma exposição ou concurso para participar que tivesse várias pessoas na mesma situação. Esse negócio Naïf, eu sei bem por cima, nunca estudei artes mas acredito que não tem mais não. Poxa, Naïf é um trabalho autodidata, inocente, uma comunidade que não tinha contato com artes. Hoje em dia com Youtube, ele é uma faculdade grátis pra quem quiser aprender, fazer o que quiser, a pessoa só não aprende porque não quer. Se tiver algum Naïf, é um resto de antigamente, aqueles mestres de lugares longínquos. Hoje em dia, um cara da nossa geração se apresentar como Naïf, ele tava onde esse homem? Ele tava escondido? Não tem internet? Então, não é mais inocente, puro. Também ninguém pode dizer que é autodidata, quem vê um vídeo na internet ensinando, está aprendendo pelo vídeo, só não cursou alguma coisa formal, uma faculdade, uma escola, um curso. 

Escultura em fibra de coco verde

Jornal Pires Rural: Como divulga seus trabalhos? 

Artur Mociaro: Hoje em dia prefiro fazer o meu caminho, na minha rede social, fazendo minhas postagem, direcionar pra quem eu quero, para o nicho que eu quero, não vou ficar muito preocupado com esse negócio de exposição, do pessoal da arte, sabe? Eu só quero fazer o meu trampo, estou conseguindo sobreviver dele e meu trabalho também é o meu lazer. Não estou nem aí pra esse mercado de arte, com dizia o (personagem da TV) Chaves; ‘isso não me sobe, nem me desce’.

Escultura em uma cenoura

Jornal Pires Rural: Você trabalha por demanda? É pelo Instagram que chegam as encomendas ou você produz conforme inspiração?

Artur Mociaro: Sim, meu perfil no Instagram é @arturmociaro. Eu faço quando chega uma encomenda. O que não é (encomenda), eu só faço por diversão, que são as esculturas utilizando coco, bandeira, caroço de abacate, geralmente esses trabalhos não tem comércio nenhum, acaba tudo ficando aqui comigo e são trabalhos que não me interessa vender barato. Eu nunca fico parado, nunca precisei ficar pensando o que vou produzir para vender, o que faço no entre meio das encomendas, é pra esfriar a cabeça. Faço um trabalho, quando bate a inspiração e é gostoso de fazer. Mas preciso dar essas paradas no meio das encomendas, pra ter como válvula de escape, eu não bebo, não sou um cara que gosta de ir em bar, não saio, não gosto de festa. Então, minha diversão é a escultura. A encomenda ainda bem que nunca falta. No Instagram e no Facebook eu exponho os meus trabalhos. O que está me dando mais resultado é o Instagram. Um trabalho chama o outro, tem as indicações também, quando faço além do que o cliente está esperando, ele fica contente ele indica, ele quer mostrar, e assim vai indo. Gostaria de fazer alguma coisa pra cidade de Limeira, alguma coisa que ficasse, alguma estatua. Fiquei sabendo que o ano passado foi feita uma imagem de santa que fica para o lado de fora da igreja Matriz. Ela foi feita em uma impressora 3D em outro país, só que como ninguém me conhece aqui na cidade, apesar de eu trabalhar com isso a mais de 25 anos, ninguém sabe que eu poderia ter feito na minha oficina aqui nos Pires. Seria muito mais legal ter uma escultura lá de um limeirense.

Escultura em uma lata de spray vazia que virou um cofre

Jornal Pires Rural: Concorda que o espaço público deveria ter mais arte?

Artur Mociaro: Deveria ter sim. Muita gente poderia se deparar com um trabalho e se interessar, procurar saber o que é, do que é feito. Alguma criança ou jovem se interessar em fazer. Tenho vontade de fazer o que o pessoal chama de intervenção urbana, através de pinturas, que os grafiteiros fazem, Quero fazer com alguma coisa de escultura, por exemplo. Fazer uma intervenção em 3D, só não fiz ainda porque fico envolvido com meus trabalhos e, não dando tempo aos meus projetos que gostaria de fazer. Também porque esses trabalhos na rua envolvem tempo e dinheiro na compra de material, bancar isso é complicado.

Jornal Pires Rural: Qual artista é uma referência pra vc?

Artur Mociaro: O @villafanestudios no Instagram, é um escultor de frutas, tem um trabalho incomum, quando crescer gostaria de fazer trabalhos como o dele. Eu acho legal pra caramba os grafiteiros, mas tenho pouco contato. Acompanho as coisas mais pela internet, eu estou sempre enfiando no meu quartinho, esculpindo, não tenho vida social com ninguém, além da internet.

Jornal Pires Rural: Pra finalizar Artur, me diga, quando se deseja muito se expressar, se delira?

Artur Mociaro: Aí eu não sei…risos. Eu não faço nada para me expressar, eu gosto da técnica, eu sou um artesão aprendiz de escultor. Qualquer um que faça uma escultura, seja abstrata, seja realista, é uma escultura e quem fez é um escultor, só que porém é um escultor aprendiz. Pra mim um escultor é aquele que consegue representar o que ele quer em um material duro, por exemplo reproduzir a foto de uma santa em uma madeira, sem inventar moda. O dia que eu fizer isso daí, eu vou começar a me considerar um escultor mas, enquanto isso eu sou um escultor aprendiz. Então, eu não faço nada para me expressar, eu gosto de cavoucar a madeira, eu gosto de mexer com massa, da técnica e dominar o material.

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