Jornal Pires Rural – Edição 241 | LIMEIRA, Maio de 2020 | Ano XV

Em 2013, a Câmara Municipal de Limeira, institui a Câmara de Vereadores Juniores, com a finalidade de possibilitar aos jovens das escolas públicas e particulares a vivência do processo democrático, por meio da participação nas atividades do Legislativo limeirense. A Resolução 519/13, que criou o programa, foi proposta do ex-vereador Dr. Júlio César Pereira. O Parlamento é constituído por 21 alunos do ensino fundamental ou do ensino médio, com idade de 10 até 16 anos. Cada vereador apadrinha um vereador júnior e auxilia no trabalho. 

O ano de 2020 não foi realizado eleições nas escolas, portanto não está ocorrendo mandato da Câmara de Vereadores Juniores. Então, conversamos com o adolescente Victor Eduardo Gravena dos Santos, vereador júnior em 2017, teve como padrinho o vereador Wagner Barbosa. 

Victor Eduardo Gravena dos Santos com o diploma de Vereador Júnior, em Limeira

O assunto tratado foi saber o que mudou na vida de Victor depois da experiência de vereador júnior e como a pandemia e o isolamento social está afetando a sua vida. 

Victor foi eleito vereador júnior através da Escola Estadual Leovegildo Chagas Santos. Deficiente visual, sempre estudou em escolas regulares públicas desde o ensino infantil, cursado na EMEI Célio Sampaio Silva e o ensino fundamental 1, na Escola Maria Thereza de Barros Camargo. Foi para a Escola Leovegildo, onde completou o fundamental 2. Durante a sua permanência nessa escola, surgiu o interesse por se candidatar ao cargo de vereador júnior. O interesse foi despertado através de uma apresentação de uma vereadora júnior, na escola. Ele assistiu a palestra e imediatamente foi atrás do seu objetivo: ser um vereador júnior. Recorda Victor, “ela falou e, depois eu pensei bem sobre o assunto. Falou sobre o mandato dela na Câmara Júnior. Até então, eu não sabia que existia, sabendo, como eu gosto muito de política, pensei sobre o assunto. Falei: será que tem como eu ser vereador júnior? A gente conversou, teve a eleição, eu fui eleito. Na minha escola apenas eu tive interesse em participar daquele mandato, então, entrei direto sem concorrência”, contou.

O interesse de Victor pela política começou muito antes dele saber a informação de que poderia se candidatar na adolescência. Victor frequenta o Centro Educacional João Fischer Sobrinho, para deficientes visuais. “Eu comecei a me interessar por política, com as reuniões que eu tinha no ‘João Fischer’. Nas assembleias sobre os direitos da pessoa com deficiência, falando sobre política mesmo. Eu acompanho muito as notícias através do rádio, acompanho as notícias em geral, inclusive o que acontece na cidade. A Instituição João Fischer é um centro educacional e a assistente social estimula muito, ela ‘bate’ muito nessa tecla; das pessoas portadoras de necessidades especiais entenderem e saberem o que é o assunto, abrindo para o debate. Eu sempre gostei dos termos técnicos que ela usava então, estava sempre perguntando”, destacou. 

Sessão na Câmara Municipal de Limeira

Victor conversou em casa, e levou a proposta de se candidatar para os dirigentes da escola, a diretora gostou da ideia e apoiou. Como único candidato da escola, entrou direto para a Câmara, “agradeço muito a coordenação e diretoria da escola. O que eu precisei, eles me ajudaram. Os amigos me parabenizaram, disseram: nossa, vai ser importante, vai ser político”, contou. 

Sendo vereador Júnior, ele levava as pautas para a diretora e coordenação da escola, depois seguia para o gabinete do vereador Wagner Barbosa; “os assessores sempre me ajudavam. Eu não redigia porque não tinha como redigir em braille, na Câmara Municipal. O bom é que eu podia votar em braille através da urna eletrônica. Na primeira sessão que eu fui o presidente da Câmara, na época o José Roberto Bernardo (Zé da Mix), ele determinou colocar o voto em braille pra eu poder registrar o meu voto. Deu certo, seguimos votando em braille”, disse. 

O primeiro requerimento que ele fez, foi para o Sr. Mário Botion, prefeito de Limeira, solicitando o atendimento 24h no Posto de Saúde do jardim Nova Suíça. Ele aponta, “o morador daqui, sai do bairro quando está doente para procurar um lugar próximo para ser atendido numa emergência. Não é legal uma pessoa doente ter que se deslocar até o centro da cidade ou até o parque Hipólito ou até o Pronto Socorro da Santa Casa. Atenderia a nossa região. Mandamos o projeto para a prefeitura, não foi possível atender o pedido”. Algum tempo depois, o Posto de Saúde recebeu sinalização para vagas de cadeirante, idosos, e piso tátil. 

Quando o adolescente estava no nono ano foram surpreendidos com a possibilidade do Governo do Estado fechar a Escola Leovegildo Chagas Santos. Organizaram um abaixo-assinado pra não fechar a escola e trazer de volta o ensino médio. Chegaram a levar o abaixo-assinado no gabinete do deputado Miguel Lombardi, em Limeira. “Fiz uma moção, só que não deu certo, mas, permaneceu o ensino fundamental 2”, contou. 

A outra pauta foi reativar a base da Polícia Militar em frente a Escola Leovegildo Chagas Santos, para atender a segurança dos alunos. Não foi possível, dessa vez. Hoje, funciona a Base da Defesa Civil no prédio.

A mãe de Victor, Giovana Carolina Gravena dos Santos, diz que a vida deles mudou muito depois da vereância do filho. Hoje, Victor mantém contato com os vereadores, na Câmara, estes se dispõem em ajudar, tem amizade com o prefeito, com o deputado Miguel Lombardi, o adolescente acabou ficando conhecido. A política aguçou ainda mais na vida dele. Giovana descreve, “eu e a assistente social do ‘João Fischer’ dizemos pra ele, que vai ser o nosso futuro prefeito, pela vontade que ele tem. Porque, um adolescente de dezesseis anos, se interessar por política, como ele se interessa, é difícil. Eu mesmo não sabia nada. A partir do momento que ele passou a fazer parte da Câmara eu tive que aprender muitas coisas. Cada vez que eu levava ele nas sessões – os outros iam sozinhos ou com os diretores das escolas – quando ele saia de lá, eu fazia perguntas pra ele me explicar, pra eu ficar por dentro dos assuntos. Eu sempre participei de tudo com ele e com as minhas outras três filhas. Muitos deficientes não tem voz, tem a dificuldade, talvez por medo ou por vergonha. O Victor não, ele se impõe”, contou a mãe.

Giovana Carolina Gravena dos Santos, mãe de Victor

Victor confirma a percepção da mãe. “Eu adoro política. Eu dou as minhas opiniões, eu falo, às vezes, até exagero e passo do ponto, acontece com qualquer pessoa. Eu, por característica tendo a falar, já que me foi dado o dom da voz então, vamos falar”, Victor diz. 

Durante o isolamento social, as aulas estão acontecendo pela internet, o seu computador tem um aplicativo de voz. “A minha opinião perante o isolamento social é que não afetou a minha vida, só deixou saudades dos amigos. Eu estou com a minha família aqui, meus pais, minhas irmãs. Só que eu me coloco muito no lugar das pessoas, eu fico triste, muito triste, sabendo que infelizmente o isolamento social vai deixar marcas tristes pra gente, do ponto de vista econômico, dos óbitos e da fome. Muitas pessoas vão morrer de fome. Eu fico muito preocupado com as pessoas passando frio, eu sou muito coração”, revela. 

Quanto ao que mudou na sua vida depois que passou pela Câmara de Vereadores Juniores, Victor é enfático: “Contribuiu, foi eu passar pela Câmara e ter o maior apoio possível dos vereadores e também, mudar a forma de algumas pessoas pensarem sobre política. Por exemplo, tem pessoas da minha idade que não gostam de política, não sonham em ir para uma Câmara Júnior. Algumas pessoas gostam de política como eu. Nas sessões a gente conversava pra caramba. Eu fui corregedor da Câmara (o cara que analisa, por exemplo, se um vereador xinga o outro vereador no parlamento, ele vai levar o vereador que xingou pra corregedoria da Câmara). Graças a Deus, felizmente, os meus amigos são diplomatas. Assim como eu sou um diplomata”, contou quase discursando. 

Deputado Federal Miguel Lombardi, Victor e o prefeito de Limeira, Mario Botion

Ao completar dezesseis anos, Victor comunicou a mãe: “no dia do meu aniversário, você vai me levar para eu tirar o meu título de eleitor”. A mãe levou. Ele só ainda não sabe em quem votar. Atualmente estuda na Escola Estadual Perches Lordello, pensando em seguir carreira de advogado. E quando a pandemia passar, realizar o sonho de ir à Brasília e conhecer o presidente da república Jair Messias Bolsonaro.

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