O casal Célia e Marcos Archângelo é bem conhecido no bairro dos Frades, em Limeira. Chegaram por aqui por volta de 2005, já a frente de um comércio. Conversamos com o casal que adotou a cidade de Limeira como morada por conta da influência de seus pais. Célia e Marcos relembraram como foi o início do bairro Parque Hipólito com poucas casas e sem nenhuma rua, a primeira fábrica de jóia, o casamento e a candidatura a vereador nos idos dos anos 1980 entre outros marcantes momentos vividos aqui na cidade que outrora já foi considerada a terra da laranja. Confira.

Marcos e Célia Archângelo

A história do casal com a cidade de Limeira começa no ano de 1976, quando Célia, aos 10 anos de idade, chega da cidade de Dracena, SP, para auxiliar sua irmã que estava a espera do primeiro filho. “Minha irmã mais velha quando casou-se, seu marido arrumou emprego em Americana, SP, só que ele não conseguiu moradia por lá, só tinha aqueles hoteizinhos para rapazes ou mulheres solteiros. Aí, eles vieram morar com uma tia em Limeira. Quando ela engravidou, minha mãe mandou meu pai me trazer pra cuidar da minha irmã e da neném. Quando chegamos, era final de 1976, meu pai viu aquela cidade crescendo, abrindo loteamentos, indústrias e como veio só com o dinheiro da passagem, ele pegou um muro pra fazer, depois calçada, acabou ficando um mês em Limeira. Aí ele pensou: ‘eu vou pra lá (Dracena), e vou arrumar a mudança’. Eu fiquei 3 meses na casa da minha irmã Marlene, dezembro, janeiro e fevereiro. Quando voltei pra terminar os estudos em Dracena, meu pai já estava com a mudança pronta; ‘agora nós vamos de vez’, sem dar nenhuma satisfação”, Célia descreveu.

A primeira casa

A família mudou-se para Limeira com os sete irmãos e vieram também os avós por parte de pai, sendo que sua avó era acamada e sua mãe cuidou dela por 18 anos. O primeiro bairro em que moraram, durante um ano e meio, foi o Nova Suíça, próximo ao mercado Dadona, depois seu Nilson, pai da Célia voltou a Dracena para vender as casas do avô e a dele. “No meio de 1978, nós compramos um terreno no Parque Hipólito. Meu pai foi pra Dracena, vender as nossas casas, porque era um terreno só, como uma chácara, com duas casas. Não sei quanto media mas, custava muito dinheiro. Quando ele voltou pra Limeira, ele falou que tinha sido roubado no trem, naquela época costurava um bolso do lado de dentro do paletó para andar com mais dinheiro, aí ele chegou com essa história mas, na verdade não foi nada disso… o que sobrou deu pra dar de entrada num lote. Era um bairro com poucas casas, naquela época. O povo erguia as paredes e cobria daquele jeito que você possa imaginar e entrava pra morar. O Parque Hipólito não tinha nem rua quando erguemos a nossa casa. A maior dificuldade era energia, tinha que puxar um fio do vizinho e depois pagar a conta dele. Minha mãe era uma guerreira, criou 7 filhos, cuidava do sogro e da sogra, não tinha nem aposentadoria. Então, pra poder diminuir as despesas da casa, quando vim morar em Limeira, eu fui funcionária do seu Keizo Fukunishi e da dona Júlia, donos das lojas Tokyo. Eu morava na casa deles pra não gastar muito comigo em casa. Os irmãos mais espertos casaram pra sair de casa”, ela relembrou.

Fazendo jóia

A casa construída no Parque Hipólito foi com muito sacrifício, a família se mudou mesmo sem colocar as portas e janelas e, o piso eram pedrinhas. Célia fez amizades com as funcionárias da fábrica de jóias Malisa, na Vila Cláudia, que ficaram de lhe avisar quando tivesse uma vaga de emprego. “Quando esse emprego na Malisa apareceu, eu falei para o seu Keizo e dona Júlia que estava saindo mas, que minha irmã estaria vindo trabalhar para a senhora. Quando entrei na fábrica de jóias, já arrumei uma vaga para um irmão mais velho para a irmã mais nova. Trabalhei na fábrica por 8 anos, o salário todinho a gente entregava na mão da mãe, que pagava energia, água e as despesas que tinha na padaria, no açougue e as compras feitas, marcado na caderneta, no armazém São Francisco na avenida Campinas. Eu saí da fábrica porque minha mãe reclamava muito, por causa da casa que tinha chão de pedrinhas, tanto que a gente não barria o chão, a gente catava a sujeira com a mão para não tirar as pedrinhas de lugar e também faltavam porta e janela, meu pai colocou um plástico que subia de dia e abaixava de noite. Minha mãe começou a reclamar, reclamar e eu estava de saco cheio de zum, zum, zum na fábrica que pedi pra ser mandada embora”, revela. O patrão de Célia a despediu sabendo das condições da casa mas, pediu para que ela voltasse 3 meses depois que a contrataria novamente, “eu nunca mais voltei. Terminei a casa, comprei porta, janelas, fizemos o contra-piso, portão, o piso da cozinha, o tanque de lavar roupa, que era o sonho da minha mãe, tinha que ter duas cubas e um esfregador/batedor no meio. Depois eu fui trabalhar com o Rubens Kairalla, outra fábrica de jóia na vila Labaki. Como tinha muito serviço, eu trazia para casa e minha mãe ajudava a colocar feixe, montagem, cravação, isso era um dinheiro a mais”, ela conta. 

Para se locomover de sua casa até o emprego Célia disse que era sempre a pé, pois nunca estava sozinha, “ía um bando, conforme passava nas ruas encontrava uma turma. Na verdade, eu, meus irmãos e um primo enxerido que é culpado de eu estar casada com o Marcão, saíamos às 4:30 da manhã, pra estar no serviço às 6h”, relembra. 

Depois que as casas foram aumentando no bairro, Célia recorda que apareceram as festinhas, as brincadeiras e os bailinhos, “cada um levava um refrigerante, um Cinzano, juntava todo mundo mas, não tinha essa ‘pegação’ que tem hoje, né! Não tinha drogas. Só que a mãe falava: ‘você vai sair tal hora e chegar as 22h, na porta de casa’ e, aí da gente se não chegasse”, contou. 

O primo, os amigos e o casamento

Dez anos depois de morar em Limeira, Célia se casa. “Eu vim conhecer o Marcos quando eu saí da firma (Malisa). Ele era amigão do meu primo, que também veio de Dracena, aliás veio a família inteira morar em Limeira. A gente tinha muita amizade lá na fábrica e o Costinha ia se casar. Esse meu primo era a perturbação da minha vida, ele queria sair com as minhas amigas mas eu tinha que ir na casa pedir pra mãe delas, se elas podiam sair comigo com a intensão desse meu primo. O dia que ele Marcos me conheceu foi no casamento do Costinha. Meu primo falava; ‘você vai comigo no casamento porque tem um amigo que virá nos buscar, não vamos de ônibus’. Nessa época, já tinha o ônibus na Vista Alegre, na Vila Paulista, na Vila Queiroz. A festa do casamento foi na Cecap, naquele estilo de barraca de lona, sonzinho dançante, à noite, perto da igreja, a bebida era Cuba (Coca-cola com Cinzano, vodka ou pinga). Meu primo ficava insistindo tanto, que minha mãe virou e falou; ‘filha você pode ir. Seu pai está cansado, vai cair na cama e vai desmaiar’. Porque o dia que o pai não estava cansado ele ficava andando pela casa perturbando todo mundo. Meu primo falou: ‘meu amigo vai chegar tal horas’. Aí, encosta o Marcão, de Brasília amarela. Meu pai disse: ‘onde você vai? O Valdecir (o primo) vai junto? Então, pode ir. Mas dez horas quero você aqui’. Eu achei isso inédito, meu pai gostou do Marcão logo de cara, porque quando ele não gostava do namorado ele saia de pau atrás do sujeito. Tinha muito daquela coisa que a filha passou dos 18 anos ia ficar pra titia, acho que meu pai pensou que eu iria ficar pra titia, então, vamos fazer ela casar logo. Minha mãe falava: ‘pode ficar tranquila, porque, o que é seu vem na porta de casa’, era o conselho dela”, Célia descreveu.

1979

Marcos Archângelo nasceu na área rural do município de Conchal, SP, “depois de Conchal, mudamos para Santa Cruz da Conceição, SP, depois para Pirassununga, SP, e depois viemos para Limeira. Meu pai construía granja de frango e tocava em sociedade. Chegamos aqui em Limeira, no ano de 1979, moramos no bairro dos Pereiras, na chácara do Francisco Bellão. Naquela época, estava no auge a granja, foi bom até mais ou menos 1993, quando meu pai mudou para Descalvado, tocar outra granja. Eu estudava no colégio Ely, no centro da cidade, ia de ônibus que vinha de Americana, viação AVA ou a Bonavita de Cosmópolis. Depois de formado no Ely chegou a hora da faculdade, o pai não podia pagar, então, fui trabalhar. Meu primeiro emprego foi na Malisa. Era um tempo mais fácil de conseguir um emprego. Conseguia entrar para aprender um trabalho, hoje isso é difícil, conseguir uma vaga sem experiência. Conheço muitas pessoas que entraram sem experiência alguma e permaneceram anos dentro da firma, ganhando cargos. Eu acho que hoje as firmas não querem ficar muito tempo com os empregados, passa um tempo e logo mandam embora”, Marcos detalha. 

Na fábrica Malisa, ele ficou amigo de Valdecir, irmão de Célia. Como trabalhavam em setores diferentes, pouco se viam. Foi somente na festa de casamento do amigo Costinha que Marcos conversou pela primeira vez com sua futura esposa. A descrita Brasília descrita pela esposa, segundo ele tinha a cor bege, puxado para o amarelo, “o carro era do meu pai, que me emprestava”. Quando participava das brincadeiras dançantes realizadas no Grêmio da Varga, Marcos ficava na sua, “eu dançava, mas não participava daqueles conjuntos que dançavam um igualzinho ao outro, antigamente tinha muito”, falou. 

Marcão na bicicletaria CicloMarcos, no bairro da Vista alegre

Vista alegre

O emprego na Malisa durou apenas um ano, Marcos decidiu que não queria mais ser empregado, queria trabalha “por conta” e montar uma bicicletaria. “Como eu já arrumava umas bicicletas em casa, comprei uma bicicletaria na Vista Alegre chamada Romão, isso foi em 1984. Comecei a trabalhar, mudei o nome para Ciclo Marcos, ficou bastante conhecida na cidade, tinha muitos fregueses. Fui um dos primeiros a montar Montain bike aqui em Limeira, só tinha eu e um rapaz lá do Morro Azul. Tinha até um time de futebol de salão chamado Ciclo Marcos. Fui candidato a vereador na mesma época que a Cida do Mirandinha foi eleita com 600 votos, eu tive duzentos e poucos. Fiz muita amizade, dez anos depois, em 1994, eu vendi a bicicletaria. Estressava muito, tinha muito serviço e chegou uma época que eu não conseguia atender o freguês. Eu estressei. Na verdade eu não deveria ter vendido. Deveria ter me afastado um pouco, eu tinha dois funcionários e, quando montava as Montain bike tinham mais dois. Hoje, usa-se mais bicicleta do que naquele tempo. Usa para trabalhar, para o lazer e para fazer exercícios. Fui estressando, estressando, vendi e depois eu fui trabalhar com funilaria. Até hoje a turma passa aqui e fala da minha bicicletaria”, relembrou Marcos dos tempos das lucrativas magrelas.

Fachada do bar quando se instalaram no bairro dos Frades

Bairro dos Frades

Quando estava para casar, Marcos deixou o bairro dos Pereiras, na área rural de Limeira e se mudou para o Jardim Presidente Dutra, em uma casa que seu pai acabara de comprar, no ano de 1986. “Logo que casei, mudei para o Dutra, com o tempo vendemos essa casa para comprarmos uma no Jardim Vista Alegre, perto da bicicletaria. Quando comecei a trabalhar com funilaria, a oficina ficava na parte da frente da casa. Depois meu pai voltou de Descalvado, nós queríamos sair da cidade, foi quando em 1999, apareceu o negócio com essa chácara aqui de 1.500m, no bairro dos Frades, com um bar aberto pra rodovia. Meu pai e eu, trabalhamos juntos durante 3 anos. Quando mudei para o bairro dos Frades, eu aluguei uma casa que tinha barracão e montei a funilaria aqui no sítio e ajudava no bar à noite. Foram 15 anos ao todo de funilaria. Depois mudei a funilaria na frente do bar do Tijela, aqui nos Frades, ficando 7 anos. Aí meu filho Marquinhos aprendeu a trabalhar e hoje é um dos serviço que ele faz”, disse.

No começo o bar tinha pouco movimento e dava para Marcos tocar junto a funilaria. “Meu pai não gostava de modificar as coisas aqui no bar, não queria arriscar, era meio inseguro. Depois que meu pai faleceu, minha mãe foi morar junto com meu irmão e nós começamos a aumentar as opções aqui no bar como torresmo, linguiça e aí aumentou os clientes. Essa reforma que nós fizemos, gostaria que ele estivesse vivo para ele ver como ficou. Não foi fácil fazer essa reforma, ainda não acabamos, o ano que vem o pedreiro volta pra finalizar. Estamos até hoje, graças a Deus o movimento é bom. Com o bar você trabalha muito, não tem tempo pra nada, não tenho nem tempo para ajeitar as coisas do barracão, aí parei com a funilaria, porque o bar toma todo tempo, mas é bom!”, Marcos contou.

O casal juntamente com os pais de Marcos

A melhor cidade

Pra finalizar Marcos fala, “quem escolheu Limeira pra viver foi meu pai. Eu achei que foi uma boa, Limeira é uma ótima cidade pra gente morar, tem muitos recursos, aqui a gente construiu a família”, frisou. 

Para a esposa Célia dizer que Limeira é a melhor cidade do mundo é um exagero porém, Marcos afirma que é, porque eles moram aqui. “Se você não tivesse vindo para Limeira e nem eu, não tínhamos nos conhecido e formado família”, emendou. “E, lá se vão 35 anos de casados. Melhor agora. Temos 3 filhos, quatro netas e muito trabalho. Duas coisa Deus me deu de presente: minha vida e meu marido. E, Limeira tem o dedo nessa história. Ele foi o escolhido, minha mãe falava o que era meu, vinha no portão”, Célia concluiu.

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