O engenheiro agrônomo Hiromitsu Gervásio Ishikawa é descendente de monge budista pelo lado paterno e pelo lado materno sua descendência vem do primeiro tesoureiro da Cooperativa Agrícola de Cotia (CAC), uma das maiores cooperativas brasileiras. Seu pai transformou a área rural de Socorro (SP) em um verdadeiro empreendimento para alimentar a população de São Paulo, principalmente, com o pioneirismo no plantio de batata. Foi desbravando terras, abrindo estradas, construindo pontes que ajudou a expandir o cultivo do tubérculo pela região mudando de propriedade a cada nove meses juntamente com a família.

O engenheiro agrônomo Hiromitsu Gervásio Ishikawa passando recomendação técnica para cultivo de videira e palestra em dia de campo para produção de hortaliças em estufas, anos de 86 a 90

Entrevistamos Hiromitsu Gervásio Ishikawa, ou apenas Gervásio, extensionista da CATI, descendente de japoneses, para entender como os imigrantes orientais contribuíram para a agricultura na região das águas paulista, que inclui as cidades de Águas de Lindóia, Amparo, Jaguariúna, Lindóia, Monte Alegre do Sul, Pedra Bela, Pedreira, Serra Negra e Socorro.

Os avós maternos

Meu avô, Turuki Mori, veio ainda criança, no primeiro navio Kasato Maru, em 1908, de imigrantes japoneses. Ficou órfão de pai e mãe aos treze anos de idade e depois disso se mudou para a cidade de Cotia (SP), onde trabalhava no plantio de batatas. Essa produção cresceu tanto que chegou nas terras da beira do rio Pinheiros, no bairro do Jaguaré, em São Paulo (SP). Esse local foi sede da Cooperativa Central de Cotia, porque meu avô foi sócio-fundador da Cooperativa e membro da primeira diretoria como tesoureiro. 

Um fato curioso referente a produção da batata é que num determinado momento o preço despencou e eles cercaram a ponte que dava acesso ao Largo da Batata para tentar subir o preço, impedindo os produtores de atravessarem para vender o produto. Neste protesto um dos amigos vindo do Japão trouxe a ideia de cooperativismo para os agricultores. Fizeram a primeira reunião, a assembleia e fundaram a Cooperativa Agrícola de Cotia com oitenta e três bataticultores da cidade de Cotia, onde ficava o núcleo de plantio, além da granja de aves com capacidade de criar as matrizeiras e distribuir para os cooperados as aves para postura, principalmente na cidade de Atibaia (SP). A ideia da Cooperativa era regulamentar os preços e a comercialização.

Meu avô teve dois casamentos e um total de onze filhos. Depois que a primeira mulher faleceu ele casou-se com a cunhada. Eu me lembro, aos sete anos de idade estudando e morando no bairro de Santo Amaro, na capital paulista da roça que o meu avô plantava cem alqueires a cada safra de batata, mas teve um grande prejuízo. Ele avalizou quatro amigos e não pagaram as dívidas, então ele teve que vender seu patrimônio, quitar as dívidas nos bancos e, com o que sobrou ele comprou um sítio no bairro de Parelheiros (SP), e montou a granja de frango, fez um pomar de Lima e plantou as alcachofras. Nesse local, meu avô construiu uma escola japonesa e também tinha um terreno enorme que eram feitas as atividades das festas japonesas, Undokai, que a gente chama. Nessa época ele mandou vir uma professora do Japão pra ensinar japonês aos alunos.

Etsusaburo Ishikawa, pai de Gervásio em fotos publicada no livro “Fazendas; Origem do Progresso – Socorro, Serra Negra, Lindóia, Águas de Lindóia e Monte Alegre do Sul”, no capitulo Etsusaburo Ishikawa, do escritor José Valdir Ferrari

Mais imigrantes do Japão para o Brasil 

Como meu avô precisava de mão de obra, foi através da Cooperativa de Cotia que vieram outros imigrantes japoneses para trabalhar nas terras dos cooperados e um desses imigrantes foi meu pai, Etsusaburo Ishikawa. Meu pai veio sozinho do Japão, com  25 anos de idade e foi trabalhar com meu avô no sítio em Parelheiros (SP). Ficou quatro anos trabalhando e juntando dinheiro, pra isso trabalhava descalço, usando e lavando a mesma roupa durante quatro anos para economizar o máximo. Todo o dinheiro que ganhou, guardou. 

Quando ouviu falar que na região de Pedra Bela (SP) tinha um clima muito bom para produzir batata, ele pegou suas economias e foi para Pedra Bela. Lá, arrendou terra, fez o preparo do solo, comprou adubo, sementes, um pouco de encanamento para irrigação e fez a primeira lavoura dele. Só que na hora da colheita não deu preço e não conseguiu recuperar o investimento. Voltou para São Paulo, ficou mais quatro anos trabalhando com meu avô, do mesmo jeito; trabalhando descalço, usando e lavando a mesma roupa pra economizar dinheiro. Nessa época meu avô tinha granja de postura, laranja lima e alcachofra. Meu pai cuidava da lavoura de alcachofra, estercando, podando, renovando as lavouras. Era uma área bem grande e tudo era feito no braço, não tinha nenhum maquinário. Por um acaso, meu pai conseguiu descobrir uma técnica para produzir mais de uma safra por ano, a alcachofra. Deu um vendaval forte e algumas estacas de bambu fincaram no talo da alcachofra. Ele percebeu que esses talos que foram rachados pelo bambu começou a dar outra florada e produzir. Ele cortou um monte de palito de bambu e fez uma experiência numa parte da lavoura de alcachofra, e a turma chamando ele de louco. Foi aí que ele conseguiu tirar safra fora de época – eles ganharam um bom dinheiro com isso. 

Depois de quatro anos meu pai voltou para Pedra Bela e, do mesmo jeito, arrendou a terra, comprou adubo, sementes, motor de irrigação, encanamento e plantou um pedaço. Ganhou dinheiro, aumentou a área, ganhou dinheiro e foi dobrando a área de plantio. Comprou caminhão para transporte das batatas, máquinas para classificação das batatas na roça, vários motores de irrigação, aspersor, foi equipando e tinha cem empregados fixos, fazia de dez a doze safras por ano em uma área de 13 alqueires para cada safra. 

De Pedra Bela foi plantando na região toda, abrindo estrada, derrubando mato, construindo ponte. As estradas que liga Pedra Bela, sentido Munhoz (MG) e Socorro (SP), foi tudo meu pai que abriu. Isso foi no início dos anos 1960. Como a cultura da batata é itinerante e exige sempre terra nova, ele derrubava mato e plantava batata e foi avançando até chegar em Socorro (SP) e comprar terra no bairro dos Cardoso. 

Família Ishikawa em foto publicada no livro “Fazendas; Origem do Progresso – Socorro, Serra Negra, Lindóia, Águas de Lindóia e Monte Alegre do Sul”, no capitulo Etsusaburo Ishikawa, do escritor José Valdir Ferrari

O casamento dos pais, o enfrentamento ao preconceito 

Todo mundo era contra o casamento, principalmente minha avó e meu avô, falavam; ‘onde se viu a filha do patrão namorar o empregado?’ Era um preconceito violento, eles não contavam muitas coisas mas, parece que minha mãe perdeu a primeira filha porque minha avó bateu na minha mãe. Mas, no fim acabou se casando com Mituco Mori, a filha do patrão (risos). Eu nasci em 1962, no sítio de Parelheiros com parteira, minha irmã mais velha, nasceu em 1957, no hospital do bairro Butantã (SP).

Gervásio em dia de campo sobre silagem no Bairro do Brejo, Socorro, anos 90

Da capital para Pedra Bela 

Eu me lembro que estudava no bairro de Santo Amaro, na capital paulista e, morava na casa de meus avós enquanto meu pai já tentava o plantio de batatas na cidade de Pedra Bela. Eu, até os seis anos de idade não sabia falar português, passei o maior apuro no grupo escolar, fui aprender a ler só quando chegou na lição do navio, pela cartilha “Caminho suave”. Foi na letra N que ‘caiu a ficha’, daí veio tudo de uma vez mas, quase perdi o ano. 

Depois fomos morar com meus pais aonde tinha o plantio de batata. A gente morava nove meses em cada lugar por causa do ciclo da batata. Meu pai construía uma casa de pau a pique, um poço e um banheiro. Tinha um caminhão Chevrolet branco e verde, carroceria de madeira, jogava a mudança em cima e ia pra outro lugar, foi indo assim. Em 1968, meu pai fixa residência no centro de Socorro, onde nós fomos morar porque estávamos todos em fase escolar, éramos cinco irmãos já. Meu pai continuou trabalhando no sítio no bairro Chico dos Reis e outro no bairro dos Moraes. Depois que colhia a batata, plantava milho, feijão, abóbora. Mas o tempo inteiro arrendava terra para plantar batata. Em 1969, meu pai comprou um sítio no bairro dos Cubas, depois que me formei engenheiro agrônomo, no final de 1983, vim trabalhar no sítio com horta, vim desbravar, porque o sítio ficou doze anos abandonado. Minha esposa Salete de Fatima Torres Ishikawa, engenheira agrônoma, ficou fazendo mestrado em Lavras (MG), e morando com minha filha mais velha. Mais ou menos nessa época, os irmãos da minha mãe, que era a mais nova, foram falecendo e meus avós já estavam com idade avançada para morarem sozinhos em Santo Amaro, daí, vieram morar aqui em Socorro. Ficavam numa casa que fazia fundos com a nossa. E, na verdade, eu acabei cuidando do meu pai, da minha mãe, do meu avô e da minha avó, foram uns quinze anos cuidando da família. Minha avó não aceitava ninguém, era eu quem dava comida, trocava, dava banho, ela ficou um bom tempo de cama. Nesse tempo eu era conveniado da prefeitura de Socorro e prestava serviço pra Cati e plantava no sítio no bairro dos Cubas, dormia umas duas horas por noite de domingo a domingo, trabalhava feito louco pra sustentar todo mundo. Mas, quem aguentou o maior rojão foi a Salete, porque meu convênio com a prefeitura acabava, eu ia para o sítio, trabalhava na Cooperativa de Cotia, mexia com os campos de produção de batata. 

A família do meu pai ficou toda no Japão, eu nem conheci. Meu pai voltou para o Japão em 1969, quando teve a Expo ’70. Ele pegou todo o dinheiro que tinha ganho com as batata e voltou sozinho para o Japão. Levou um monte de pedras preciosas para presentear os parentes, visitou a cidade onde nasceu, ficou dois meses por lá, fazendo turismo, até acabar o dinheiro. Minha mãe ficou aqui no Brasil cuidando dos cinco filhos. Meu pai era da província de Miyazaki, lá eles são considerados cultos e letrados, ele veio formado em química, tinha uma inteligência fora do comum. Também era um artista, fazia aquelas caligrafias japonesas no pincel. Cansei de pedir para ele me ensinar mas nunca ensinou, falou que no Brasil a gente só precisava aprender o português, não íamos usar o japonês. 

Como ele era filho de monge budista, desde moleque meditava, fazia as recitações. Aqui no Brasil, ele quem fazia as celebrações de casamento, os funerais e as celebrações nas festas. Ele era além do tempo dele, me lembro que na década de 1970 ele falava de turismo em Socorro, que ia se desenvolver e fazer acontecer, eu sempre duvidava mas, tudo que ele falava está acontecendo, ele era muito visionário, apesar de ser oito ou oitenta, vivia na gandaia, na bebida, tudo no exagero. Tinha uma Rural Willis, enchia a traseira com os engradados de madeira cheio de cerveja, aperitivos, os queijos, levava onde ele plantava batata, tinha os amigos e enquanto não acabava não vinha embora. Aí voltava, dormia uma duas horas e voltava pra roça. Esse negócio de dormir duas horas eu acho que peguei dele, mas agora todo o cansaço de um vida dormindo apenas duas horas está batendo, estou com fadiga crônica (risos). Até pouco tempo atrás eu acordava às quatro da manhã e pegava na horta mas, por causa da seca demos uma parada e juntou com a parada por conta da Covid e, só agora voltamos a trabalhar.

Meus avós eram da província de Kochi Ken, que é considerado o japonês caipira. Eu sofria Bullying aqui no Brasil pelos imigrantes japoneses porque misturou o falar culto do meu pai com a fala caipira de meus avós e os japoneses tiravam sarro ‘olha o japonês caipira’, eu fui desligando da língua e nem mexi com mais nada, porque até os seis anos de idade eu só falava japonês.

O exercício da agronomia 

O relato do agrônomo Gervásio sobre a cidade da Estância de Socorro começa nas propriedades pequenas cuja maior parte da cultura é o café. Perguntamos se é rentável a produção do café em pequenas propriedades? Gervásio responde, “é que o trabalho de mão de obra é familiar. Se for pra ficar pagando (funcionário) não compensa. É uma lavoura permanente, o trabalho é com a família. Na verdade, o que dá de lucro é o abacate plantado no meio do cafezal (risos). O abacate dá mais dinheiro do que o café. O abacate é pesado pra caramba, um pé dá um monte de caixas, e tem diversas variedades. Aqui, como é uma região montanhosa, o que acontece é que ele sai fora da safra normal, enquanto que na região quente ele sai mais cedo. Na região serrana ele sai mais tardio. Ele é plantado na mesma linha do café pra não atrapalhar os tratos nas entrelinhas. Só que planta mais espaçado, no normal, hoje, planta-se 8 m por 6 m, antigamente plantava 8 m por 8 m ou 10 m por 10 m; mas com a enxertia, a poda, o pessoal veio adensando mais. Mas no café, vamos supor, planta-se o dobro da distância ou o triplo”, Gervásio explicou. 

Ao centro o casal Gervásio e Salete, com amigos em dia de campo de produção de hortaliças em estufas agrícolas, Socorro, SP

São plantadas as variedades de abacate como ouro verde, breda e fortuna. “Os cafezais mais antigos, consorciado com abacate, é indo pro lado do bairro Serrote, aqui em Socorro. São pés que dão cem caixas de fruto. O pessoal compra o pé; eles olham, faz um cálculo e paga tanto e colhe com vareta de bambu. Lá mesmo tem um pessoal que só meche com isso, ganha a vida fazendo isso. No trato: tem que tratar o café e o que eles estavam cometendo de erro era só tratar o café. Eu falei, gente vocês vão matar o abacate. Vamos fazer a análise de solo, macro, micro e física. O pessoal não fazia análise do solo de jeito nenhum, hoje, a prefeitura de Socorro tem até um programa de análise de solo e recomendação técnica também – criado pelo Fundo da Agricultura e pode pegar verba. O fundo foi criado por uma Lei municipal pra receber verbas de representação de deputados estadual e federal, através de parcerias, convênios, repasses; é gerido pelo Conselho Agrícola Municipal, na reunião é sabido o quanto tem em caixa e decidido o que vão comprar. Geralmente, estão equipando a patrulha agrícola”, descreveu. 

No trabalho de agronomo Gervásio conta como se ocupava, “eu era conveniado, não era do Estado, em 1989 (entrei e sai umas três a quatro vezes porque o convênio durava um ano), prestei o concurso da Cati em 2000. Não chamava, não chamava, eu já estava até desistindo, deixaram vencer o exame. Prorrogaram o prazo. Aí, que chamaram. Entrei em novembro de 2008, fui assumir lá em General Salgado (SP), quase divisa com o Mato Grosso. Peguei o penúltimo lugar na primeira chamada. Tem que ficar no local dois anos, no mínimo, eu falei ‘tô lascado’, e eu era concursado na prefeitura de Socorro, na verdade não compensava. Ouvia ‘vai subir o salário’, e meu cunhado (de Araçatuba) falava, ‘vem’. O Gigli (José Geraldo Zambolim Gigliinstrutor do Senar e engenheiro agrônomo da Cati, que é daqui) afirmava ‘vai ter aumento’. Só que, numa semana lá demos uma bombada no trabalho de extensão. Tinha um pessoal que estava começando com plasticultura com problemas, sem conseguir produzir, eu rodei com a turma, vamos fazer assim, assado, já dei um ‘up’ na produção. Daí, estava encerrando o Programa Microbacias I, eu cheguei no dia 14 de novembro (final de ano), tomei posse lá. Eu não conseguia dormir de tanto calor, meia-noite, uma hora da manhã o relógio digital da praça marcava 43 graus, eu não conseguia dormir”, falou. 

Construção de estufas agrícolas e plantio de pepino japonês nas estufas. Agachados os filhos Francine e Hiroyoshi, hoje, estão com 40 anos e 37 anos

Mas qual agricultura que aguenta essa temperatura? “É cana de açúcar, seringueira, melancia, abacaxi. A terra arenosa, embaixo uma argila amarela, dura, com só 70 cm de terra fofa. Embaixo ou é cascalho ou argila pesada — igual no município de Aguaí (SP). Por incrível que pareça a melancia, as plantações não tinham irrigação, nada; eu ficava bobo de ver. Como assim? Cavucava e o solo segurava a umidade, apesar de ser arenoso, isso porque tinha uma camada de argila impermeável e segurava a umidade acima mesmo sem irrigação. Daí, o Barros Munhoz era o Secretário de Agricultura do Estado de São Paulo, eu expliquei pra ele minha situação, não está compensando, pedi pra ajudar a gente, daí, ele transferiu todo mundo e eu voltei pra Socorro, na Cati. De Socorro acabei indo pra Cati Campinas (SP), na Divisão de Extensão Rural, fiquei uns dez anos lá”, detalhou. 

A diversificação na agricultura do município de Socorro são hortaliças, frutas, gado de corte, de leite e o café. Depois que formou-se agrônomo, o que já havia acontecido com o plantio da batata onde seu pai foi pioneiro? “Quando eu cheguei ainda era forte. A região é Bragança Paulista (SP), Monte Sião (SP) até Munhoz (MG). Em Itatiba (SP), era muito forte com o plantio do feijão-vagem, devido a doença não conseguiram produzir mais. O pessoal de Socorro começou com o feijão-vagem, no bairro Jaboticabal. Daí passou a ser (meio) centro produtor de feijão-vagem na década de 1980. Quando eu cheguei em Socorro para trabalhar como conveniado,  nós montamos a associação de produtores, era um negócio pioneiro, bem antes do Programa de Microbacias. Chegamos a ter três mil associados, a associação fazia compra conjunta de adubos, de herbicidas, conseguíamos até 40% de desconto”, foi dizendo

Quer dizer, então, Gervásio, que o produtor rural da região tem o perfil de associativismo? “Eu vou falar pra você, não tem! Produtores brasileiros nenhum tem. Nós fizemos, mas correndo atrás como malucos! Fizemos o projeto pra montar a máquina de bica corrida (classificação de café tipo exportação), para ir direto para o Porto de Santos (SP). Já tínhamos conversado lá no Porto de Santos pra fazer negociação direta, só que houve um boicote violento dos atacadistas de café. Aí, o que aconteceu? Ficaram pondo medo nos produtores, ‘você vai vender lá e depois vai ficar sem receber’, aquela ladainha toda. Fiz um ‘Livro Ouro’ pra arrecadar dinheiro pra comprar duas máquinas de beneficiar café, conseguimos um armazém comunitário na época de mil metros. Íamos pôr as máquinas lá, com o secador de grãos, para secar milho de pipoca, feijão. Fizemos um projeto, eu trabalhava conveniado. Catava um carro, queimava um tanque de combustível de manhã, outro à tarde, um Fuscão a álcool, saía falando que vai ficar em tanto, estamos levantando a verba pra comprar as duas máquinas e mais balança para pesar caminhão. Fizemos os orçamentos, pedimos a autorização, juntamos todo o dinheiro que precisava. Só que o pessoal que comprava, nossa! Fez um levante, porque eles iam perder. Fizeram um boicote tão grande, mas tão grande, que eu fui obrigado a devolver o dinheiro para o pessoal (doadores). Com todo o dinheiro nas mãos pra comprar duas máquinas de bica corrida, balança pra caminhão, tudo. O armazém, a gente tinha conseguido pelo Estado que depois virou almoxarifado da Prefeitura”, lamentou.

“Quando eu cheguei em Socorro, a Casa da Agricultura (Cati) estava praticamente fechada, não entrava uma mosca lá. Eu entrei e começamos a fazer o trabalho de amostragem de solo. Ia de propriedade em propriedade, na época, eram mais de 4.500 unidades produtivas, eu trabalhava até 15h por dia. A produção agrícola estava sem planejamento, principalmente a parte de horta, se não trabalhar com planejamento o produtor não tem sucesso. Eu foquei no café porque 80% das propriedades tinha café e leite. Ainda era tudo na enxada, não tinha o uso de herbicidas, usava esterco de curral e, bebida tipo exportação. A hora que começou (adubação usando) 25, 20 (aplicação de agrotóxico) glifosato, aí ferrou tudo. Hoje, acho que dá uns 40% e olha lá, de bebida tipo exportação porque foi estragando o solo, foi morrendo os pés de café, intoxicando com o próprio ‘Roundup’”.

Gervásio, como testemunha ocular da história foi vendo a degradação acontecer, “foi degradando, foram abandonando as lavouras. A tangerina ponkã também no mesmo processo (de degradação). Começaram passar o tratorzinho, herbicida e, daí veio o greening, acabou tudo. A gente trazia a tangerina (como opção de plantio) porque a laranja estava muito sensível às pragas e doenças e aí observava os pomares do pessoal que diziam, ‘a ponkã não dá nada (pragas e doenças), mesmo lado a lado num pomar doméstico. Vamos plantar ponkã’. Um dos pioneiros foi o Ermelindo Fávero que expandiu. As tangerinas de Socorro eram famosas porque é  região serrana, produz fora de época e mais tardia. Então, numa área pequena você conseguia uma colheita boa, tinha comprador, tinha máquinas, barracão. Vinha o pessoal de fora com o caminhão, caixaria e gente. Só que o cara vinha comprava o pomar, carregava o que dava, colocava no caminhão e ia embora. Sobrava, o produtor vendia o pomar de novo. A produção era tanta que outro (comprador) vinha e (o citricultor) vendia pela terceira vez”, revelou. 

Primeiro plantio de batata orgânica, propriedade de Luiz Carlos Montini, Bairro dos Marianos, Socorro, SP

Do plantio convencional ao orgânico 

Eu plantava batata, tomate e ingeria agrotóxico. Em 1989, eu fiquei acompanhando o meu pai quase um ano inteiro indo (no hospital) na Unicamp, porque ele teve câncer no pâncreas (generalizado). Em 1989 ele faleceu com 59 anos, e eu, do dia pra noite virei orgânico. Não vou mais mexer com esse negócio não (agrotóxicos). Não entendia nada de orgânicos, nada, zero de informação. Mas eu vou tentar. O pessoal de Atibaia (SP) mexia com estufas de crisântemo, produtores que há dez anos ou mais estava plantando no mesmo solo sem rotação. Eu perguntava, o que que esses caras estão fazendo? Os caras são muito fechados, não recebem a gente e nem passam a informação. Na época, meu pai ainda era vivo, ele tinha uns amigos que eram vizinhos no Japão, ele conversou lá e me receberam. Fui ver o que esses caras fazem para produzir sem rotação de cultura, na mesma cultura direto. Daí, eu vi que eles estavam fazendo composto, bokachi e biofertilizantes, trouxeram a técnica do Japão.

O amigo do meu pai chamava Hidaka, ele resolveu ganhar dinheiro depois dos 60 anos porque tinha dois filhos, e queria deixar alguma coisa pro filho mais novo e foi se dedicar a produção de crisântemos, encheu (a propriedade) de estufas. Era tudo novidade na época, mandaram os filhos para os Estados Unidos, no Chile, na Holanda, no Japão, através da Cooperativa de Cotia, para fazerem estágio, por um ano, trabalhando junto com a agricultura de interesse. A família pagava as despesas e a Cooperativa fazia o intercâmbio com a propriedade do fulano de tal lá nos Estados Unidos ou no Japão e Holanda. 

Na minha formação fiz o Técnico Agrícola, em Espirito Santo do Pinhal (SP). Daí pensei, não vou fazer o curso de Agronomia porque com o técnico, na época, podia fazer projetos e assinar. Pretendia fazer o treinamento na Escola Agrícola da Cooperativa de Cotia, lá em Jacareí (SP). Naquela época já tinha estufa, fazia enxertia, tinha uma tecnologia muito pura. Minha ideia era fazer por um período o curso aqui no Brasil, passar lá na Escola Agrícola da Cooperativa, daí aluno podia ir ao Japão. Só que no ano em que eu me formei (técnico agrícola), em 1978, os caras falaram, ‘acabou a mamata! O técnico não pode assinar mais nada’. Eu ia ficar um ano na Holanda, um ano no Japão e um ano no Chile. Daí eu não fui, resolvi fazer o curso de Agronomia  na UFLA (Universidade Federal de Lavras – MG). Eu fiz meio ano de cursinho e prestei. Passei na Escola Superior de Agronomia de Lavras, ESAL, não era Universidade ainda. Na verdade, eu estava indo pra Viçosa (MG), no meio do caminho, ‘nossa! Tem uma escola de agronomia, vamos conhecer?’ Eu e dois de amigos, um de Andradas (MG) e um de Pouso Alegre (MG) e, eu dirigindo (risos). O (ex-ministro) Alysson Paulinelli foi o paraninfo da nossa turma, dois filhos dele estudaram com a gente. Eu me formei em dezembro de 1983 e já voltei pra Socorro, disse. 

Um relato de Gervásio sobre o que estava ocorrendo nas lavouras em 1989, “as pragas e as doenças estavam deteriorando tudo. Estávamos pulverizando de manhã, de tarde, de noite e todos os dias. Não controlava mais, mesmo usando aqueles (agrotóxicos) tarjas vermelhas e tudo mais e, agora tem o (defensivo químico) Piretróide, (o inseticida) Decis, não sei o que mais. Eu fui usar aquele negócio e, me deu uma reação alérgica, fui parar no hospital. Trabalhava com os de tarja vermelha não me fazia nada, na hora que eu fui usar o Piretróide me deu uma reação alérgica”, revelou.

Produção de mudas de morango, introduzindo em pequenos terraços de base estreita, em novembro de 1986, produtor Osvaldinho, Bairro do Visconde de Soutelo, Socorro, SP

Gervásio não desistiu da agricultura, pelo contrário, buscou alternativas para produzir alimentos. “Sempre mantive a atividade no sítio, trabalhava o tempo todo e dormia duas horas por noite. Fui caçar como é que se produzia orgânicos. Quando fui pra Atibaia ver como eles estavam trabalhando, pra usar o método com hortaliças orgânicas, porque ainda ninguém mexia. Levei um rapaz que trabalhava comigo, o Renato de Morais. O que você explicava pra ele, ele guardava, até a parte de pragas fazia experiência com os ovos num vidro e acompanhava todo o processo. Daí ele falava, ‘aqueles ovos é de tal praga, essa lagarta é de tal, tal’. Onde eu ia levava o Renato junto. Lá em Atibaia, enquanto eu conversava com o dono, ele ia conversar com os peões, ver o que eles estavam fazendo, como eles faziam o substrato, enquanto eles mostravam, eu ia conversando mais ainda. Depois ele me contava, ‘nossa eles fazem as mudas, montaram estufa, tem sistema de nebulização, bancada alta e eles queimam a casca de arroz, fazem carvão carbonizado e fazem as mudas no pó de carvão com a casca de arroz. O negócio é assim, assim, assim’. A gente ia no meu sítio e fazia. O Renato é um cara muito curioso, o senso de observação dele é sensacional. Ele está no sítio, montou o sistema de agrofloresta, de café com várias frutas plantadas, fossa biodigestor, montou um reservatório grande pôs uma bombinha, de lá ele joga onde está o café e as frutas”, completou. 

“Lá pelo ano de 1992, em São Paulo, na Cooperativa de Cotia, cooperativa central no bairro do Jaguaré, eu fui contratado pelo meu conhecimento de engenheiro agrônomo. O sonho de todos os agrônomos era trabalhar na Cooperativa de Cotia, era uma escola de vida, o mais avançado. A Cooperativa de Cotia ditava as normas de preços de hortaliças, de frango, de aves e suínos. Antigamente, quem plantava hortaliças era só o estado de São Paulo, daqui saia para o Brasil inteiro, hoje, planta-se hortaliças até no Amazonas – naquela época, tudo saia do estado de São Paulo. 

Eu comecei plantar tomate (estufa e campo), alface, tudo fora de época e não tinha nem prática – pra você ter uma ideia. A gente trabalhava o alface em túnel, cortava o bambu fazia as estacas, preparava o canteiro, punha os arcos e depois punha a tela de sombreamento em cima. Se ia chover eu cobria, dava a chuva forte, batia e quebrava as gotas que escorriam pela lateral. Parou a chuva tirava ela de cima. Eu deixava tudo pronto e só plantava na época do verão. Foi a época que a gente conseguiu capitalizar porque chegava a época do verão ninguém conseguia produzir e o preço ia na estratosfera. Todo ano, no dia 13 de dezembro eu plantava tomate na estufa e no campo. Eu fiz uma transição de (tratamento) químico para (sistema) orgânico. Em Cotia, tinham várias fórmulas, um adubo que era com farelo de mamona (não empedrava) e fui fazendo a transição químico-orgânico. Depois que o meu pai faleceu, só orgânico”, contou.

“Quando começamos não tinha lei, não tínhamos o selo de orgânicos, não tinha nada. Quem dava o selo era a AAO (Associação de Agricultura Orgânica de São Paulo), com sede no Parque da Água Branca (SP). Eu fazia parte da diretoria e também fazia auditoria pela Associação de Agricultura Natural de Campinas e região. Com o tempo foi aparecendo a Fundação Mokiti Okada e outros. Fizemos várias oficinas na região, eu participei de todas as reuniões que você possa imaginar pra tentar montar a legislação orgânica. Era trabalhoso, tinha que correr atrás da turma, fazer reuniões à noite. Fomos desenhando a legislação, lá na Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), em Monte Alegre do Sul (SP). Eu já estava ficando desanimado e perdendo tempo com esse negócio quando o (ex-presidente) Lula, em 2009, estava saindo do governo, não sei se ele bebeu uma cachaça, mas só sei que ele assinou a Instrução Normativa quando ele estava saindo. Eu não acreditei. Ainda não era a lei. A certificadora a gente fazia particular porque não tinha a lei. A associação não podia emitir a certificação, cada associação criou um selo.

Elaboração de Bokashi para produção comercial de morangueiro, produtor Toninho do Bairro da Cachoeirinha, em Pinhalzinho, SP, anos 92-93

Houve uma época que fomos vender os produtos orgânicos para a Cooperativa Horta & Arte de São Roque (SP), uma cooperativa de orgânicos. Pagávamos frete para enviar a mercadoria pois, lá era um centro de distribuição para os supermercados. A própria cooperativa tinha que montar, expor e toda semana tirar o que estava vencendo e fazer a reposição no ponto de venda. No supermercado o preço de venda era bom, cerca de doze reais o quilo do tomate e a gente (produtor) recebendo um real e oitenta centavos. Eu corria toda a região para dar orientação e passava um planejamento. Decidimos nas reuniões em São Roque, o que cada região produz, então, na região montanhosa lá de Socorro ficamos com batata, morango e tomate. Eu pegava as planilhas de vendas com projeção de plantio e nesse planejamento ia atrás do produtor. Exemplo, preciso plantar dez mil pés de tomate. Distribuia entre o vinte e cinco produtores de Socorro para minimizar as intempéries como a ocorrência de granizos e geada. Na época fazíamos as contas por metro quadrado, 10kg de tomate por metro quadrado, 6kg de cenoura por metro quadrado, registrava a data de semeadura, data de transplantio e a data provável de colheita e a produção estimada. No caso de plantio de tomate, 500 m quadrado de 30 em 30 dias. No caso do milho verde, seis  mil metros quadrados de dez em dez dias, o produtor assinava um termo de compromisso, ele, eu e o pessoal da Horta & Arte assinava. Eu era consultor da Horta & Arte. Desses vinte e cinco produtores orgânicos, alguns desistiram e outros entraram. O pessoal fica muito iludido, acha que tudo é fácil, só que é muito trabalhoso, seja grande ou seja pequeno a prova de fogo é de três anos. O grande despeja dinheiro, prepara tudo, faz adubação verde em tudo, é o pior erro, não compensa. 

A Mokiti Okada virou empresa criou a (marca) Korin, hoje comercializam os microorganismos eficientes. Lá no começo eles orientavam ‘faça você mesmo’, tinha as apostilas. Hoje, produzem sementes orgânicas e tem lojas de frangos orgânicos. 

Quem se mantém na produção de orgânicos hoje, na região, é quem tem mão de obra familiar. As pessoas que dependem de pagar mão de obra estão fora (do mercado) porque fica inviável. Na hortaliça, seja no convencional, seja no orgânico, se não render o serviço não compensa. 

Socorro é uma região tradicional de café, eles fazem um tipo de serviço todo dia que é cortar capim pro animal, passar na picadeira e jogar lá no coxo. Se eu chego para esse cara, e falo; você já tem o capim, tem o esterco, vamos fazer um composto, ou forrar um canteiro? Ele responde ‘ah! Dá muito trabalho’. Ele faz isso todos os dias pra vender o litro de leite a um real – eu não entendo a lógica. O cara quer comprar o adubo e comprar o veneno de fora. Hoje, o preço dos produtos biológicos não compensam mais a produção, questionou.

Além de uma seca brava é preciso muita água para tocar uma horta, é necessário seis litros por metro quadrado por dia – essa quantidade é para quem consegue manter a umidade com formação de canteiro. Se tiver um terreno todo descoberto evaporando tudo com vento, é preciso de pelo menos oito a dez litros (de água), por metro quadrado. A projeção que deve ser feita para uma horta de cinco mil metros quadrados: tem que ter cinco mil metros de lâmina d’água, de um metro de profundidade para conseguir atravessar três a quatro meses de seca. Ninguém quer fazer essa conta, nem planejamento. 

Produção de hortaliças no Sítio Vale das Flores no Bairro dos Cubas em Socorro, anos 80

O produtor tem que trabalhar o planejamento, por exemplo, para fornecer para uma empresa grande de orgânicos, tem que plantar toda semana. No caso do tomate, a curva de colheita dele é muito rápida e declina em dois meses. Começa com 12.5% de colheita, 12,5%, 35%, 35%, 12,5%, 12,5%. Por que trinta dias? Porque que no mês que está no pico da safra dá os 30 dias de colheita. Ai, é a hora de plantar e a curva vai subindo. E o produtor consegue estabilizar ao longo das semanas do ano a quantidade. Por isso a gente fala, ‘assina aqui e cumpre isso aqui. Não interessa se tiver chovendo canivete, planta na chuva’”, descreve Gervásio. 

São dezessete anos (de Jornal Pires Rural) ouvindo tudo isso que o senhor acabou de explanar sobre o planejamento, investimento e cursos oferecidos. Quantas associações de cooperativismo foram constituídas, por que isso não cresceu e desenvolveu? “Porque as pessoas são individuais, é a cultura”, afirma Gervásio. 

Pra onde caminha a agricultura familiar? “Não estão conseguindo fazer sucessores, ninguém quer ficar na roça. Só que, se trabalhar direito ganha-se mais do que ficar trabalhando por um salário mínimo na cidade, pagando aluguel, comprando tudo o que consome no supermercado. Aí ele (trabalhador) fala, ‘lá no sítio eu tinha galinha, tinha horta, o leite, fruta do pé, feijão, arroz’. Na hora que muda pra cidade cai em si”, diz.  

O agrônomo Hiromitsu Gervásio Ishikawa em visita ao casal Rosina e José Franco de Moraes produtores de pitaya do bairro Camanducaia do Alto, Socorro, SP

Na visão do agrônomo e produtor rural que é, como vai ficar a produção de alimentos? “Se não partir para uma produção agroecológica vai quebrar. Até a indústria de fertilizantes diz que se não tivesse vendido nada, tinha ganhado mais dinheiro. Em pouco tempo, o valor passou de cem reais a saca de 50 kg para mais de trezentos reais. A logística fica inviável. Não paga o combustível nem o dia de serviço”, destacou.

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