Jornal Pires Rural – Edição 242 | LIMEIRA, Junho de 2020 | Ano XV

Uma notícia para os pecuaristas é que a Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo, decidiu prorrogar a campanha de vacinação contra Febre Aftosa nesse primeiro semestre de 2020. Agora os criadores de bovinos e bubalinos tem até 30 de junho para vacinar o rebanho. O prazo para cadastrar ou entregar a declaração de vacinação, também foi prorrogado, até o dia 31/07/2020. Visando esclarecer algumas questões referente a Febre Aftosa entrevistamos por WhatsApp João Paulo Nikolaus, 33 anos, Médico Veterinário, que atua na na Coordenadoria de Defesa Agropecuária, órgão da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. João Paulo preferiu enviar suas respostas por escrito. Leia abaixo a entrevista:

João Paulo Nikolaus, atua hoje, nas atividades de Defesa Agropecuária, para a manutenção da sanidade dos rebanhos do Estado de São Paulo

Jornal Pires Rural: O EDR (EDA) de Mogi Mirim tem uma estimativa do rebanho de bovinos e bubalinos, nessa região?

João Paulo Nikolaus: Trabalho no EDA (Escritório de Defesa Agropecuária) de Mogi Mirim, responsável pela gestão da sanidade animal e também vegetal de 11 Municípios (Artur Nogueira, Conchal, Cosmópolis, Estiva Gerbi, Engenheiro Coelho, Holambra, Itapira, Jaguariúna, Mogi Guaçu, Mogi Mirim e Santo Antônio de Posse), a região possui 1080 propriedades cadastradas com rebanho bovino ou bubalino, totalizando cerca de 83.000 animais, sendo predominante o rebanho de bovinos

Jornal Pires Rural: Desde quando a vacinação contra febre aftosa acontece em SP?

João Paulo Nikolaus: A vacinação contra Febre Aftosa antecede os anos 2000, a data precisa, não sei exatamente informar.

Jornal Pires Rural: Por ser uma doença raramente fatal, o pecuarista é consciente a realizar essa vacinação acompanhando o calendário?

João Paulo Nikolaus: A Febre Aftosa tem baixa mortalidade, porém possui alta morbidade, isso quer dizer duas coisas. Do ponto de vista clínico, significa que causa alterações no organismo que comprometem a normalidade do seu funcionamento, neste caso a Febre Aftosa causa muitas lesões, principalmente em boca, nariz e pés, regiões estas que prejudicam a alimentação e locomoção do animal, acarretando em perda produtiva. Do ponto de vista epidemiológico, quer dizer que em um rebanho muitos animais podem ser portadores da doença. Os dois conceitos são de difícil compreensão pelos produtores, os fatos os quais acredito que os motive em vacinar o rebanho são dois: a obrigatoriedade da vacina com imposição de penalidade, mas sobretudo por tratar-se de uma doença de grande impacto econômico para a cadeia de produção de bovino, visto que a identificação de um foco, acarreta na suspensão das exportações de carne para outros países, por consequência ocorre queda nos preços da arroba do boi. Ou seja, a Febre Aftosa é uma barreira sanitária, utilizada no comércio internacional de carnes.

Jornal Pires Rural: Em caso de suspeita da doença o que o pecuarista deve fazer?

João Paulo Nikolaus: Em caso de suspeita da doença, por observação de sinais clínicos característicos da doença, como lesões/feridas (“aftas” ou bolhas) em boca, narina, úbere e pés, o produtor ou o médico veterinário deve, imediatamente, comunicar a Defesa Agropecuária. Diante do recebimento da notificação de suspeita, a Defesa Agropecuária encaminhará em até 12 horas os técnicos para fundamentar ou não a suspeita. Diante de uma suspeita fundamentada, a equipe da Defesa Agropecuária aciona o protocolo de atendimento de possível foco, conforme treinamento que possuem, para conter a disseminação da doença.

Jornal Pires Rural: O que acontece quando uma suspeita é fundamentada?

João Paulo Nikolaus: Diante da suspeita fundamentada, ou seja, são verificados sintomas condizentes com a doença, a equipe realiza a coleta de amostra do animal para diagnóstico laboratorial, para confirmação da doença. Uma vez confirmada a doença a propriedade passa a ser um foco e medidas para contenção do foco são adotadas, conforme determinação do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). O período em que se aguarda a confirmação dos testes laboratoriais, a propriedade fica interditada para movimentação de animais, para evitar a disseminação do vírus, bem como os produtores são orientados a seguir medidas sanitárias para evitar espalhar o vírus para outras propriedades.

Jornal Pires Rural: Quais são os danos ao pecuarista (financeiros, ele ou a propriedade sofre alguma punição/sanção)? 

João Paulo Nikolaus: Em caso de foco Febre Aftosa os animais são sacrificados, pois seguimos o protocolo internacional da Organização Mundial de Saúde Animal (OIE), uma vez que não conseguimos diferenciar os animais curados, dos que ainda possuem o vírus. Dessa forma a perda é direta ao produtor, o qual, porventura, pode ser indenizado pelo MAPA. Há também a perda indireta aos outros produtores não envolvidos no foco, em consequência da suspensão das exportações e posterior queda nos preços da arroba.

Jornal Pires Rural: O que é importante frisar para o pecuarista nesse momento?

João Paulo Nikolaus: Acho que nunca foi tão fácil explicar a importância da vacinação, sobretudo neste momento em que todos querem uma vacina contra o Covid-19, para poderem circular sem restrições. Pois bem, sabemos que para um vírus começar a ser erradicado, é necessária a maior cobertura vacinal possível, para que ele não encontre um animal sem imunidade e cause a doença.

O Estado de São Paulo, tem alcançado índices de vacinação contra Febre Aftosa acima de 99%, ou seja, aproximadamente 99 % do rebanho encontra-se vacinado. No entanto não sabemos ao certo, a qualidade dessa vacinação, ou seja, se todos os animais estão recebendo a vacina de forma que ela cause a imunidade contra o vírus da Febre Aftosa, por isso a Defesa Agropecuária tem o papel de fiscalizar e orientar todos os envolvidos na vacinação, desde a revendas de produtos agropecuários, quem vendem as vacinas, até o produtor, acompanhando algumas vacinações para ver e orientar o processo. 

O EDA de Mogi Mirim possui cerca de 1080 propriedades e cerca de 83.000 bovídeos (bovino e bubalino), mais de 20 revendas de vacinas, diante desses números, precisamos da ajuda do pecuarista, para que leve a sério a vacinação, fazendo da melhor forma, para que seus animais estejam bem imunizados, pois sabemos que há impactos econômicos diretos e indiretos na ocorrência de um foco de Febre Aftosa e queremos evitar que isso ocorra.

Fotos:Arquivo pessoal João Paulo Nikolaus

Jornal Pires Rural: Quanto a erradicação da febre aftosa no estado de SP, quais são os passos que devem seguir para esse objetivo?

João Paulo Nikolaus: O Brasil desde 2011 possui um plano estratégico para erradicação da Febre Aftosa no país, esse plano foi atualizado em 2019 e prevê que algumas regiões retirem a vacinação contra Febre Aftosa até 2021. Atualmente os Estados do Acre, Paraná, Rondônia e Santa Catarina, já retiraram totalmente a vacinação contra Febre Aftosa. Há previsão de retirada da vacina para o Estado de São Paulo em 2021, no entanto depende de avaliações do MAPA. 

Com a retirada da vacina é importante que seja intensificado o sistema de vigilância da Febre Aftosa, ou seja, que qualquer suspeita seja identificada e atendida o mais rápido possível, sendo importante que o produtor passe a fazer mais notificações de suspeita da doença junto a Defesa Agropecuária do Estado.

A retirada da vacina é um passo importante para o país ampliar as exportações de bovinos, visto que há países que só compram carne de países livres de Febre Aftosa sem vacinação, portando a retirada da vacina irá fortalecer toda a cadeia de produção.

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