Jornal Pires Rural – Edição 241 | LIMEIRA, Junho de 2020 | Ano XV

A agricultura familiar sofreu um grande impacto, assim que instaurado foi o estado de pandemia do novo coronavírus, por todo o Brasil. Hotéis, restaurantes e cidades turísticas foram afetados diretamente pelas exigências de isolamento social, com isso, os principais consumidores da produção orgânica e agroecológica não realizaram suas compras regulares e a produção começou a se perder na roça. Pelo lado socioeconômico, as famílias nas metrópoles, começaram a perder renda devido ao ritmo do movimento comercial e industrial diminuir e o desemprego aumentar, gerando uma vulnerabilidade ainda maior nas famílias mais carentes. Nesse contexto, entidades sociais, prefeituras e o governo brasileiro começaram a se mobilizar para atender, mesmo que parcialmente, a alimentação básicas para os mais pobres da população brasileira.

A  Fundação Banco do Brasil (FBB) é uma organização que tem pautado suas ações em busca da inclusão socioprodutiva dos segmentos mais vulneráveis da sociedade, investido programas e projetos, espalhados em todo território brasileiro, segundo dados da própria instituição, nos últimos 10 anos, foram R$ 2,8 bilhões em investimento social e mais de 3,6 milhões de pessoas alcançadas. Um dos editais que está em andamento é referente as propostas do Projeto de Inclusão Socioprodutiva (PIS), com foco na estruturação de atividades e empreendimentos alinhados ao tema Agroecologia, nas etapas de produção, beneficiamento e comercialização. Tem o objetivo de “desenvolver a agricultura familiar através de práticas agroecológicas, aplicando os princípios da sustentabilidade e com enfoque em: jovens, quilombolas, agricultores familiares e no empoderamento de mulheres que queiram produzir”.

Nessa parceria com a  Fundação Banco do Brasil (FBB) está a Associação Nacional de Agricultura Natural de Campinas e Região (ANC) e seu presidente, Leonardo Pinho, concedeu uma entrevista exclusiva ao Jornal Pires Rural, por telefone, para detalhar uma ação promovida no Estado de São Paulo, envolvendo 54 cooperativas da agricultura familiar com objetivo de escoar a produção rural que seria perdida, portanto, não gerando renda às famílias de agricultores, e colocando essa produção, através de cestas de alimentos, na casa das famílias de maior vulnerabilidade social, agravado pelo estado de pandemia.

Leonardo Pinho ANC
Leonardo Pinho a frente da Associação Nacional de Agricultura Natural de Campinas e Região (ANC) encabeça projeto apoiado pela Fundação Banco do Brasil (FOTOS:ARQUIVO PESSOAL)

Leonardo Pinho, ou Léo, para os agricultores, além de presidente da ANC é presidente da Unisol Brasil, uma cooperativa central nacional para representação de 1.100 cooperativas, dos mais variados segmentos de mercado. “Nossa sede é em São Bernardo do Campo, SP. Começamos com as cooperativas industriais, que vieram dos processos de falência de empresas na década de 90, recuperando as fábricas em cooperativas. Hoje, somos a maior empresa de revestimento metálico da América Latina, localizada em Diadema, SP, com 400 trabalhadores, chamada Uniforja. Porém, a minha instituição de base é a uma cooperativa de assessoria técnica e extensão rural, economia solidária e cooperativismo, chamada AMATER. 

Como presidente da Associação Nacional de Agricultura Natural de Campinas e Região (ANC), desenvolvemos um processo de certificação orgânica, sendo a primeira a ser reconhecida pelo Ministério da Agricultura, através da metodologia chamada ‘Sistemas Participativos de Garantia (SPG)’, que se caracteriza pela certificação participativa, na responsabilidade coletiva de seus membros, que podem ser produtores, consumidores, técnicos e quem mais se interessar em fortalecer esse sistema. Esse é um formato de certificação que não envolve o pagamento de uma auditoria externa mas, envolve os próprios agricultores participantes do processo. Essa metodologia foi a primeira a ser reconhecida no Brasil. Hoje, já se encontra por todo país”, descreveu.

Atualmente, Leonardo mora em Valinhos, SP e também em Brasília, DF, devido ao papel representativo que tem atuado em prol dessas mais de mil cooperativas. “O suporte dado às cooperativas seria uma representação política, por exemplo, agora está sendo discutido pela Câmara dos Deputados e pelo Senado uma mudança da lei do PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar do governo Federal) no contexto da pandemia. Uma associação sozinha, não consegue fazer a incidência política lá no Congresso Nacional, então, fazemos essa representação pela Central de Cooperativas Unisol. Outro exemplo; captação de projetos. Um exemplo concreto é esse (cestas de alimentos) com a Fundação Banco do Brasil. Fazemos parcerias com deputados, aí em Limeira tem o deputado Miguel Lombardi, ele apoiou um trabalho no lar de idosos dos Vicentinos, aqui em Campinas, porque ele é Vicentino, eu também, então, como eu fico em Brasília, ajudei o grupo daqui. A Unisol acaba também apoiando grupos não só produtivos, cumpre o papel de captação de emendas parlamentares, de projetos, isso chama advocacy, essa coisa de defender uma causa no Senado, no Ministério Público, as cooperativas precisam muito disso, para acompanhar as mudanças legais”, Léo exemplificou e emendou, “por isso a gente conseguiu articular esse nível de parceria. Envolvendo e impactando nosso rol de parceiros”.

Cooperativa Entre Serras e Águas
Cooperativa Entre Serras e Águas, Bragança Paulista

Comida de verdade para as pessoas

Léo se refere a montagem de 4 mil cestas de alimentos, uma operação que foi iniciada a partir de 10 de maio, com a liberação dos recursos pela FBB. “Historicamente a Fundação Banco do Brasil tem parcerias com a agricultura familiar, agroecologia e com o que a gente chama de economia solidária, que é uma economia gerada por cooperativas, associações, grupos coletivos e, a FBB tem um forte trabalho, tem um prêmio de tecnologia social, ou seja, já tem na sua história essa marca. Quando começou a pandemia, o governo pediu para FBB, justamente por causa desse histórico, começar a fazer projetos de distribuição de cestas (de alimento). Só que inicialmente foi aquela visão: “disponibilizo o dinheiro para as entidades sociais, elas vão lá e compram aquelas cestas (básicas) prontas no supermercado. Diante disso, a Unisol procurou a FBB e outras entidades do setor, e propôs uma cesta da agricultura familiar. Eu brinco dizendo que é levar comida de verdade para as pessoas, não só os ultra processados. Essa proposta gera dois bons resultados nessa pandemia: os agricultores estão perdendo produção, então, gera renda a esse produtor e entrega alimento de qualidade nas periferias, às pessoas que estão precisando. Eles toparam, a Unisol fez um primeiro projeto no Rio Grande do Sul. Temos cooperativas muito forte por lá, na agricultura familiar, inclusive com descendentes de alemães, italianos, tem-se uma tradição do cooperativismo, nesse sentido de colônia, na visão de trabalho coletivo. E o caso piloto deu muito certo, aí começou a espalhar para o restante do Brasil, como Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte e Bahia. No estado São Paulo, a ANC tem um projeto com a FBB, chamado Ecofort, que é trabalhar a assessoria técnica em beneficiamento para os agricultores como a meliponicultura, que é a criação de abelhas sem ferrão, aquisição de câmera fria para armazenamento de produtos, enfim, vários trabalhos que estão em andamento. Por esse fato, resolvemos apresentar esse projeto (de cestas) pela a ANC, facilitando a questão de documentação com a entidade já credenciada na FBB. Nosso objetivo foi trazer todos os produtos alimentícios da agricultura familiar, o pensamento foi em ter uma cesta com produtos de produção agroecológica, orgânica porque sempre prezamos por essas formas de produção. Aí começou a loucura. Vou te dizer porque loucura; açúcar mascavo, arroz, feijão e leite”, relatou. 

Cestas de alimentos

O projeto tinha como finalidade distribuir cestas de alimentos nas cidades do ABC paulista, Bragança Paulista e região de Campinas. A demanda era montar 4 mil cestas para beneficiar 20 mil pessoas, e pelos cálculos seriam necessários 95 toneladas de alimentos. “No estado de São Paulo não temos produção para a quantidade de que precisávamos, então, trouxemos das cooperativas (da agricultura familiar) do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina”, esclarece.  

As cesta foram compostas pelos 4 itens básicos mais hortaliças, frutas e tubérculos, que tiveram variações de acordo com a vocação de cada região produtora. “Acrescentamos às cestas bananas, vinda daqui de nossa região de Campinas mas, a maior parte veio do Vale do Ribeira, incluindo produtores quilombolas. Na cidade de Socorro tem uma produção muito boa de caqui orgânico, compramos. A Cooperacra de Nova Odessa, SP, que é certificada pela ANC através do Sistemas Participativos de Garantia, entrou fornecendo mandiocas orgânicas fantásticas e hortaliças. Para montar as 4 mil cestas, e fornecer as 95 toneladas de alimentos reunimos 54 cooperativas nessa ação. Foram investidos R$420 mil reais pela FBB, nesse contexto de pandemia, beneficiando 54 cooperativas”, destacou.

Logística 

“A Unisol tem 7 cooperativas da região do Vale do Ribeira que se organizaram em uma cooperativa de segundo grau, que se chama CooperCentral, instalada num grande galpão em Santo André, SP. Além do galpão tem caminhões, câmera frigorificas, toda a parte de logística e comercialização é executado por lá. Em Bragança Paulista tem outra cooperativa chamada Entre Serras e Águas, também com galpão e infraestrutura próprias. Usamos estes espaços para nossa estrutura logística, levando todos os itens mais as frutas, hortaliças e tubérculos. Toda essa estrutura foi montada em 15 dias. Foram quatro caminhões trucados vindos do sul do país, mais dois caminhões do Vale do Ribeira, outros dois caminhões saindo de Bragança Paulista, além de outros menores dos produtores regionais para fazer a logística Santo André, Bragança Paulista e Campinas, tendo como pontos de armazenagem e distribuição o galpão da CooperCentral (Santo André) e da cooperativa Entre Serras e Águas (Bragança Paulista). A partir desse dois pólos saiam para distribuir nas comunidades, inclusive Campinas, as cestas saiam de Bragança Paulista”, detalhou.

Agricultura familiar é capaz

Léo explicou que essas cooperativas tem equipes com muita experiência com logísticas de distribuição para atender os programas PNAE e PAA (Programa de Aquisição de Alimentos), “pra se ter uma ideia a CooperCentral distribui para todas as escolas da cidade de São Paulo e do grande ABC, e a cooperativa Entre Serras e Águas, também fornece para o PNAE em algumas cidades do entorno, então, já temos esse know-how. Se não tivéssemos essa experiência de logística, seria impossível movimentar em 15 dias, 90 toneladas de alimentos e montar 4 mil cestas e chegar em 20 mil pessoas. Sobre tudo isso que ocorreu quero destacar uma coisa importante, que muitas vezes tem um discurso de governos, quando vão fazer o PNAE, (dizendo) que a agricultura familiar não tem capacidade, não vai dar conta. Primeiro, nós organizamos mais de 90 toneladas de alimentos, uma logística de distribuição gigantesca, em 15 dias, no meio de uma pandemia. Então, é falso esse discurso. Quisemos fazer isso, justamente, para mostrar que a agricultura familiar tem que ser uma prioridade. Porque eles geram beneficios, até para o próprio governo em duas vezes; Se a renda é gerada no campo, esse agricultor, vai comprar do mercado local, vai gerar imposto na cidade, vai fazer a economia local circular e, levar alimentos de qualidade para dentro das escolas, nas comunidades carentes, é combater a desnutrição infantil, a obesidade e diabetes. Isso também é economizar dinheiro da saúde. Essa ação, no contexto da pandemia, mostra que a agricultura familiar, a agroecologia é capaz”, definiu.

Beneficiário das cestas

De acordo com Léo as entidades que se organizaram para receber e distribuir as cestas de alimentos tiveram uma dinâmica própria em cada região, “foram essencialmente, as associações comunitárias de bairros da periferia do ABC paulista, entidades sociais, por exemplo, associação oncológica  de Bragança Paulista, também as entidades religiosas que fazem trabalhos sociais. Em Campinas, fizemos a parceria com diretores de duas escolas com alto índice de vulnerabilidade, para a distribuição das cestas à comunidade escolar, eles mobilizaram as famílias que mais necessitavam”, afirmou.

Durante a distribuição das cestas de alimentos às famílias carentes, pelo caráter de estado de pandemia e distanciamento social, foram utilizadas máscaras faciais, Léo acrescenta que elas foram confeccionadas por uma entidade filantrópica, de economia solidária, chamada Serviço de Saúde Dr Cândido Ferreira, em Campinas, que oferece reabilitação psicossocial. “Compramos 650 máscaras deles, para utilizarmos durante as entregas das cestas de alimentos. Além de gerar renda para as 54 cooperativas de agricultura familiar, geramos renda para essas pessoas que estão passando pelo processo de reabilitação”, disse. 

Durante a distribuição das cestas contaram com voluntários, professores, pessoal das escolas, pessoal voluntários das entidades, em torno de uma mobilização local, onde todos foram orientados para o uso de máscaras e luvas e, manter o distanciamento na chegada aos pontos de distribuição. Já as equipes vinculadas as cooperativas de mobilizadores, foram 14 pessoas no ABC paulista, organizando a parte administrativa, em Bragança Paulista eram mais 11 pessoas e 8 pessoas em Campinas, como colaboradores ligados a ANC ou centrais cooperativas.

Renda para as cooperativas

Léo afirma ainda que “todos estavam com o risco de perda da produção. Os agricultores estavam nos ligando desesperados pois, iriam descartar os alimentos. O pessoal do Vale do Ribeira, para não perder uma safra, logo quando começou a pandemia, doaram 20 toneladas de alimentos para o Banco de Alimentos de São Paulo. A Unisol arrumou verbas para pagar combustível e custos de transporte para os produtores não terem mais danos. Os agricultores estavam desesperados porque não tinham renda então, essa ação das cestas de alimentos, também foi muito importante nesse contexto. Já tinham perdido uma parte, se perder outra produção não vai ter como ter o giro. Essa ação veio para dar esse fôlego e superar esse momento da pandemia”, apontou. 

Como foi citado por Léo, ação semelhante, através da Unisol e outras entidades do setor, também ocorreu no sul do país em abril, na Bahia, Fortaleza, Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte, no início de maio.

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