A história a ser narrada é uma homenagem ao Dia dos Pais, com o exemplo de uma família tradicional de quatro gerações da agricultura de Engenheiro Coelho. A família Cardoso traz pessoas muito bondosas que cativaram toda a população. Sempre mantiveram em suas lavouras produtos típicos de nossa região como a mandioca, algodão, milho e citricultura. Mais recentemente a atividade de lazer, do hobbie, aquilo que era como diversão para eles direcionou para a principal atividade produtiva e sustento da família.

4 gerações: Fábio Fernando Cardoso Filho, Fábio Fernando Cardoso, Celso Cardoso e João Cardoso Filho

Na antiga estrada de velha para Conchal, no bairro Conceição, município de Engenheiro Coelho, nascia no ano de 1915, João Cardoso Filho. Aos 28 anos, já experiente, talvez um pouco avançado em idade, devido ao costume da época, João casa-se com Júlia Maria, tiveram 4 filhos, 3 mulheres e um homem — recebeu o nome de Celso Cardoso.

Sr. João Cardoso sempre morou no bairro Conceição (apelidado de Bode Branco), em três casas diferentes, na primeira ficou até os seus 28 anos, e casado mudou-se para um novo lar, residindo por mais 28 anos e, depois mudou-se novamente para uma terceira casa, onde viveu até os seus 103 anos de vida, completados no ano de 2018. Quem nos conta essa história é o seu neto Fábio Fernando Cardoso, um dos filhos de Celso Cardoso. Com isso queremos retratar quatro gerações que permanecem na agricultura como propósito de vida e, nessa história falta ainda incluir os filhos de Fábio: Jaqueline e Fábio Fernando Cardoso Filho.

Cartaz da tradicional romaria do bairro Piraporinha, no ano de 2006, homenageiam a família Cardoso
Cartaz da tradicional romaria do bairro Piraporinha, no ano de 2006, homenageiam a família Cardoso

Mas voltamos ao seu João Cardoso Filho, cuja atividade no sítio era gado e o plantio de mandioca para farinha. “Meu avó contava que essa mandioca era entregue em Conchal e também para uma fábrica que pertencia ao Zurita, em Araras. A área do sítio girava em torno de 25 a 30 alqueires. Para a época era uma quantidade razoável porque não tinha maquinário, o processo era mais lento. Meu pai foi criado para ser sucessor no sítio, estudou o básico da época, que era a quarta série. Eles preparavam a terra com boi, com cavalo, não conseguiam plantar uma quantia muito grande, 10 alqueires já era um absurdo. Tinha que tocar tudo no lombo de burro. Quando uma irmã de meu pai se casou em primeiro, meu avó trouxe o genro para trabalhar junto no sítio. Logo depois meu pai também se casou, foi mais ou menos em 1971, ele estava com 25 anos. Ele propôs para o meu avô dividir as despesas e a renda de todo sítio em três partes; meu avô ficava com 50%, meu pai com 25% e meu tio com os outros 25%. Achei que foi uma forma inteligente pra cada um ter o seu dinheiro e, funcionou bem, eles trabalharam assim uns 25 anos. Produziam mandioca, depois entrou o algodão. Eu lembro que o algodão ficou por muitos anos como a base da agricultura de nossa região. Era vendido para as empresas Teka e Caio, lá em Artur Nogueira, e uma algodoeira de Leme. Nossa produção de algodão, que era a principal fonte de renda foi até 1986, depois ficou inviável na região por dois motivos principais; um foi a praga do Bicudo (besouro responsável por perfurar o botão floral e a maçã dos algodoeiros), e outro foi que a produção de algodão migrou para o estado do Mato Grosso. Mas aí, já estava entrando a laranja, já era década de 80 e a laranja deu um ‘boom’. Então, com pouca terra, produzia bastante laranja e dava um dinheirão. Nessa época meu avô não trabalhava mais, ele tinha porcentagem na renda, eu já estava trabalhando com eles na roça, foi quando dividimos a sociedade com meu tio. Voltei a produzir mandioca de mesa com meu pai e milho pra pipoca, durante uns 10 anos, foi um produto que deu uma renda muito boa. A vantagem desse milho era que podia armazenar ensacados, cobertos com uma lona preta e a gente jogava pastilhas de expurgo para controle de insetos que atacam os grãos e sementes, depois tinha um tempo de carência para consumir esse milho de pipoca. Era um processo artesanal, aliás a mão de obra sempre foi familiar, porque a área não era tão grande. Tinha um pai e filho que trabalha pra gente, que eu lembro deles, mas era por dia, tinha os vizinhos que ajudavam quando precisava, mas não tinha ninguém registrado”, recorda Fábio.  

O avô

Segundo o neto,  João Cardoso Filho foi um avô divertido, adorava contar uns causos. “Meu avô sempre foi uma pessoa calma, o que marca muito na minha família. Essa coisa de discussão na família aqui não existia. A calma do meu avô, faziam várias pessoas vir pedir conselhos pra ele, isso é uma das coisas boas que guardo dele. Um ano depois que meu pai se casou, chegou a energia elétrica aqui. Meu avô foi o primeiro a puxar a rede elétrica e comprar uma televisão. Dessa época lembro que os vizinhos vinham assistir televisão toda noite em casa. Com isso facilitou, dentro de uns cinco anos, todos os vizinhos do bairro a ter energia. Com a linha de telefone foi a mesma coisa, só que aí eu já tinha uns doze anos, e foi bem mais caro, não teve incentivo como na rede elétrica. Hoje, por causa do celular, essa linha está desativada”, mencionou Fábio.

As festas de peão de Engenheiro Coelho tinham a presença certa da família, incluindo também as romarias a cavalo. A tradicional romaria do bairro Piraporinha, no ano de 2006, homenagearam a família Cardoso, pois Fábio participou por 30 anos consecutivos, “eu não perdi nenhuma. A primeira fui com meu avô e aí resolveram fazer a homenagem pra minha família com nossa foto no cartaz, meu avô com 92 anos de idade participou da romaria montado no cavalo, meu pai, eu e meu filho. Aqui em Engenheiro Coelho estão montando um parque de exposição e vai ter o nome do meu avô, está para ser inagurado até ao final do ano”, revelou.

O neto Fernando, o avô Celso Cardoso e o filho Fábio
O neto Fernando, o avô Celso Cardoso e o filho Fábio

O pai

O relacionamento com seu pai Celso Cardoso, hoje com 74 anos, lhe traz o pensamento marcante; “sempre digo que agricultor ninguém ensina. Nasce! Meu pai até queria que eu estudasse, mas sempre gostei da lavoura. Eu me formei no segundo grau, entrei no curso de Administração de Empresas, tinha facilidade de estudar mas não gostava, ele queria que eu continuasse, mas eu gosto de trabalhar. Aprendi com meu pai, peguei amor na terra. Quando eu saí do ginásio com 14 anos, fui trabalhar com ele, na época as coisas eram mais fáceis e o trabalho valia, conseguimos comprar mais terras e dividimos a parte dos meus tios pra cada um tocar a sua e, vejo que foi bom. Tenho amigos que estudaram e ficaram meio perdidos, hoje são empregados. Digo que foi bom pois, em 1984, época da laranja, demos um pulo e alavancou muita coisa com a renda da produção. Saímos de 18 alqueires, com a divisão do sítio e fomos para 50 alqueires. Quando veio a fase da laranja a rentabilidade era três vezes maior que do algodão. O que temos hoje, devemos a laranja. O preço pago teve altos e baixos e foi até 2011, quando começou umas das crises mais bravas da citricultura, com o greening, a pinta preta, preço baixo. Isso durou até 2015. Eu vejo que hoje a laranja mudou o perfil, mudou a região de produção, mudou a forma de cultivo. Tem que ter um trabalho muito profissional para tocar uma lavoura de laranja. Na nossa região de Limeira, Mogi Mirim, as propriedades são pequenas, dificulta muito de controlar o greening. Na região de Aguaí, Mococa e Casablanca ainda tem umas fazendas grandes que são muito rentáveis. Para agricultor que tem 5 ou 10 alqueires ficou difícil de trabalhar com laranjas, agora, isso é pra quem tem 100, 200 alqueires porque ele é responsável por toda essa área. Aqui não tem mais isso. Depois daquela geada na Flórida (EUA), nos anos 80, o pessoal começou a plantar, não teve nenhum questionamento, era comprar um pedacinho de terra, faturar e plantar até saturar. Hoje, só planta quem é profissional e as indústrias de suco para exportação, o custo aumentou mas, quem ainda tem, está recebendo um bom preço pelas frutas. Tenho vontade de plantar no futuro em uma região longe daqui. O crescimento financeiro todo mundo busca, mas tem que ser uma coisa saudável e gradativa, às vezes as pessoas enriquecem honestamente muito rápido e acaba perdendo a família, já vi isso acontecer muito aqui”, descreve. 

Os filhos

Meus filhos chegaram numa transição de agricultura em nossas terras. Minha filha Jaqueline estudou dois anos agronomia na Esalq, eu acho que foi para me agradar mas, eu nuca falei faça isso ou faça aquilo, eu até estranhei quando ela fez essa opção. Mas quando estava indo para o terceiro ano ela me falou: ‘olha pai, não é isso que eu quero para mim’. Disse pra ela ficar a vontade, eu quero que seja feliz. Ela foi fazer nutrição na Faculdade Federal de Lavras, MG, está terminando e tem alguns planos. Recentemente ficou 6 meses na Europa estudando e quando voltou, em março, na outra semana fechou todas as fronteiras por causa do coronavírus. Sobre a sucessão familiar, no sítio, eu tenho uma teoria baseado numa pesquisa que diz que 70% das propriedades rurais não tem sucessor. Só que é assim, meu avô criou meu pai na roça, porque não tinha como não ser da roça naquele tempo, só que da minha geração, já poderia ter saído. Mas meu pai sempre me levou junto, me ensinado a trabalhar, mostrando os valores das coisas, temos que ter conquistas honestas, eu já tinha um amor e ele me ensinou amar mais a terra e, passei isso para o meu filho Fernando, ele sempre andou comigo, eu trocava a fralda dele na roça, então, o negócio é levar junto. Comecei a competir com cavalos em provas de laço, ele dormia no meu colo no caminhão, quando ia nessas provas. De manhã, ao acordar no berço, ele me chamava primeiro do que a mãe. Então, o incentivo está em levar junto e mostrar. Agora, os pais não querem ter trabalho, dá um celular ou um tablet na mão da criança e vai fazer outras coisas, aí não tem como dar sequência em nenhum ramo. Mas a maioria das vezes o pai deixa, porque o filho dá trabalho e pra ensinar enche o saco, só que se você não levar junto, não vai ter a recompensa. Depois que ele tiver quinze, dezesseis anos, não vai querer andar com você. Porque vai ter os amigos que são muito mais legal que o pai. Meu pai sempre me incentivou assim, dava serviço braçal mas sempre tive um carro bom, ele me dava condições. Tem pai que quer ver o filho trabalhar mas não quer que gaste. Eu ofereço todas as condições para o meu filho, ele tem o carro, tem cavalos mas não é de mão beijada, ensinei ele a carpir, passar herbicida com bomba costal, pra ele saber quanto custa pra poder valorizar. Eu dava uma parte do sítio plantado com a mandioca pra ele cuidar e vender. Só sabe mandar quem sabe fazer. No ramo do trabalho eu incentivo assim; quando você esta sofrendo numa tarefa tem que ter uma recompensa, tem que pensar na parte financeira, é a melhor parte para trabalhar animado. O filho estando junto, ele pega amor nas coisas que você gosta, é questão de trazer junto desde pequeno. Sei também que tem aqueles que tentaram levar o filho e fizeram de tudo e o filho não gosta”, relata Fábio. 

Fábio Cardoso, à direita, em ação na prova de laço
Fábio Cardoso, à direita, em ação na prova de laço

As provas de laço

Fábio diz que o interesse pelas provas de laço começou em 1999,  juntando um grupo de amigos que criavam cavalos e resolveram fazer uma pista de prova em seu sítio. “Tudo meio amador, desde então, muitos pararam e outros continuam. O interessante aqui em Engenheiro Coelho, tem mais três pistas e um bom número de praticantes e tudo começo lá em casa. O Fernando meu filho, foi crescendo nesse meio, já andava a cavalo comigo, foi pegando gosto pelas provas de laço, e ficou bem melhor que eu. Começou a competir, e no ano de 2013 se dedicou bastante, ganhou várias provas, teve como prêmio um carro, duas motos, dinheiro mas, mesmo assim não supre o gasto. Aí ele falou que não queria ser profissional de laço porque não é lucrativo, só ia ter como hobbies”. 

Fábio explica a transição na agricultura do sítio incentivado pela criação de cavalos, quando o filho começou a trabalhar junto ao pai, “nós tínhamos feno só para o gasto, porque nós temos cavalos, isso já faz uns 10 anos. Em 2014 começamos a comercializar o feno em fardos. O Fernando nos puxou para o feno, estávamos buscando algo pra substituir os pomares que não eram mais viáveis, aí ele me ajudou nessa decisão. Ele tem 25 anos, mas faz tempo que trabalha comigo, fica na parte financeira e escritório. Hoje nós temos feno no lugar dos pomares, são 57 alqueires de feno, vamos chegar a 65 alqueires, na próxima safra. Estamos fazendo um trabalho muito sério e tendo uma ótima qualidade de produto. É o feno 4G, quatro gerações, de três ano pra cá começamos investir pesado no feno pré-secado em fardo cilíndrico, que são aquelas bolas brancas plastificadas de uns 400 kilos. Se tornou nossa fonte principal de renda. Temos uma estrutura bem grande, vamos desde o plantio, colheita e entrega ao consumidor final. Eu trabalho bastante ainda, acordo de madrugada para fazer as entregas do feno, visando a recompensa financeira porque se não for assim, não tem porquê. Na hora do trabalho dinheiro é o foco”, afirmou Fábio. 

Fábio diz que o filho tem uma outra visão da molecada que só quer saber de farra, “ele fala que para ser bem sucedido financeiramente você tem que ter uma pessoa, está pensando em se casar, porque se ficar muito na farra, acaba deixando os negócios de lado. É muito fácil a farra, de segunda a segunda, muita bebida, chega de madrugada, não vai ter disposição no outro dia cedo. Ele é bem empreendedor, centrado, acorda cedo, o trabalho na área rural ajuda muito esse pensamento”, o pai observa. 

Fábio resolveu fazer uma homenagem especial e muito simbólica para o avó; chamou os amigos de Andradas, MG, que tinham um carro de bois e quando o cortejo estava a 1 km do cemitério, transportaram o caixão para o carro puxado por oito bois continuar o cortejo até o cemitério

A homenagem

João Cardoso Filho, avô de Fábio e bisavô de Fernando, também foi homenageado como o cidadão mais antigo de Engenheiro Coelho, no dia de seu falecimento, aos 103 anos de idade, dia 15 de maio de 2018, o neto Fábio resolveu fazer uma homenagem especial e muito simbólica para o avó; chamou os amigos de Andradas, MG, que tinham um carro de bois, com quatro duplas e, quando o cortejo estava a 1 km do cemitério, transportaram o caixão para o carro puxado por oito bois terminar o trajeto até o cemitério, foi acompanhado pelo neto, pelo bisneto e um primo montados a cavalos e outros familiares à pé acompanhando o cortejo. “Ele viveu bem, a única que vez que foi para o hospital foi pra morrer, já estava com 103 anos. Era muito conhecido. Quando começou a migração pra cá veio muita gente do norte de Minas Gerais para trabalhar. Ele arrumava lugar, casas, para as famílias que não tinham onde ficar. Viveu de forma ativa até o fim da vida”, destacou Fábio.

O carro de bois leva João Cardoso Filho, uma homenagem de seu neto Fábio

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