O pai de João, Sr. Matias Simon, imigrou da Espanha, município de Albox, província de Almería, para o Brasil. “Meu pai veio meio ‘fugido’ da Guerra, já casado com minha mãe, Júlia Carmona Miras, já eram pais, trouxeram consigo o meu irmão Francisco, com dezoito meses”, disse João. Chegados ao Brasil, foram morar na fazenda dos Sampaio, perto de Engenheiro Coelho, eles não tinham nada, nenhum pertence, vieram trazendo coragem e a esperança pois, fizeram uma viagem muito difícil e precária alojados no porão do navio. 

O casal comemora Bodas de Chumbo em 2020 com os filhos Matias, João, Antônio Carlos, José Simon
O casal comemora Bodas de Chumbo em 2020 com os filhos Matias, João, Antônio Carlos, José Simon

Aqui, em terras paulistas, trabalharam muito, muito e conseguiram comprar um sítio, perto de Holambra, SP. “Ele começou comprando de um patrício (negro), foi comprando dos herdeiros e formou um sítio de 44 alqueires. Na primeira terra que ele comprou plantaram um arroz lá e não deu nada, nada, nada. Nessa época já tinha nascido as minhas irmãs Antônia e a Ramona. Ele foi trabalhando de meia com um, meia com outro e ajeitando as coisas e começou comprar terrenos, foi comprando de um, depois comprou do outro, e plantando muito algodão; ele era muito trabalhador e não tinha hora para trabalhar, não rejeitava serviço. Chegava em casa sete, oito horas da noite, nessa hora ele estava descarregando as carroças de boi. Quando o meu irmão cresceu um pouco mais já ajudava e trabalhava junto com o pai. Lá (na região) não tinha escola então, ele levantou uma escolinha simples no seu sítio, uma construção de taipa, com a intenção que os filhos pudessem estudar e os filhos dos vizinhos. Ele ia em Mogi-Mirim toda segunda-feira buscar a professora e no sábado levava de volta, de trole. Na época que eu fui entrar na escola, comecei na escola e logo a escola acabou. O pais foram tirando as crianças da escola. Os pais falavam: ‘vai na escola só pra aprender escrever carta pra namorada’. Tiraram os filhos e meu pai falou: ‘e agora?’ Aí, meu pai saiu para procurar sítio (pra comprar) perto de onde tinha uma escola, daí comprou aqui em Limeira, na década de 40. Nós íamos na escola no Stein, no bairro dos Frades”, contou.

O sítio adquirido só tinha uma casa grande, de 1903 — em pé até hoje, sem uma trinca. “Viemos morar nessa casa, que foi de uma família grande italiana, dos Moura Bianchi. Depois ele comprou mais uma parte, mais de 20 alqueires, mais 14 alqueires do outro lado da estrada, juntou 72 alqueires e manteve o sítio anterior (em Holambra) sem vender. O meu tio Arthur Puzls ficou lá (no sítio) trabalhando e mais tarde quando minhas irmãs foram casando, meu pai deu pra elas ficarem lá trabalhando”, revelou. 

Maria e João Simon, o matrimônio em 1952
Maria e João Simon, o matrimônio em 1952

“Naquele tempo tinha que trabalhar bastante, era só trabalhar. “A iluminação com lamparina, o trolinho indo pra cidade e nós levamos essa vidinha gostosa aqui também. Trabalhamos bastante tempo tirando leite e com esse leite compramos o primeiro trator. Plantava arroz, algodão, e um pouco de laranja. Era mais gostoso que hoje. Formamos um ‘calipá’ muito grande, um pomar de cravo muito bonito. Colhia bastante arroz e milho, a tulha ficava lotava até o teto de sacos de arroz e dentro da casa fazia uma pilha grande porque o arroz dava em qualquer lugar, era a coisa mais linda”, relatou João.

O Sr. Matias nunca mais voltou à Espanha. “Ele foi à Argentina, algumas vezes, visitar a irmã Sacramento, nós fomos uma vez com ele, em 1986, ficamos 25 dias. Nós temos parentes lá, foi muito gostoso. Eles vinham pra cá nos visitar. Era muito gostoso”, completou.

A esposa de João, dona Maria Fisher Simon, a quarta filha do casal João Fisher e Benedita Roberto Fisher, nasceu em Limeira, SP, bairro do Pinhal. A configuração do bairro do Pinhal era bem diferente, tinha apenas uma escola na rodovia Limeira-Mogi-Mirim, todos iam lá (hoje desativada). A comunidade se encontrava na missa mensal, na igreja de Nossa Senhora das Vitórias. A festa de Nossa Senhora das Vitórias realizada no dia 15 de agosto era o evento mais esperado pela comunidade. “Todo mundo comprava roupas novas, todos iam na festa com roupas novas. A festa de Nossa Senhora das Vitórias era tudo pra nós, passávamos o ano inteiro pensando, esperando pela festa do dia 15 de agosto. Era um dia inteiro de comemoração, tinha a missa às 10h, às 17h, a procissão com cinco, seis andores, também acontecia o leilão de animais. Era a única festa que a gente tinha, era só lá. Eram muitas barracas de venda, era muito bonito”, contou dona Maria e acrescentou “Quando eu era solteira ia à missa na Santa Vitória, depois que me casei, vim morar aqui, ia na missa aqui no bairro”, disse. 

O casal João e Maria se conheceram na festa de casamento da Olga com o Manoel Fisher, irmão de Maria. “Os pais da Olga, nós fomos criados todos juntos, trabalhava juntos, plantava arroz e enquanto tinha no dele vinha todo o terno junto, acabava daquele ia todos juntos no outro. Nós pegava os bois pra preparar a terra, oito, dez juntas de bois, algum burro pro meio; quando acabava aquele serviço vinham todos para cá. Era uma união para preparar a terra e fazer a colheita, o plantio cada um fazia a sua. Era gostoso. Nós pegava um boi novo amansava de canga. Eu era moleque de dez anos e pegava a minha juntinha de boi, depois que ia na escola já vinha correndo pra lidar com os bois”, detalhou João.

“A gente não se conhecia. Eu conheci ele a primeira vez foi o casamento do meu irmão Manoel, era o mês de julho, eu tinha 14 anos. A festa do casamento foi na casa da noiva”, disse Maria. Era costume reunir uma turma para fazer a barraca de lona mas, naquela época era de folha de coqueiro, o espaço era para oferecer o jantar de arromba, com leitoa e frango assado; era considerada a festa. Depois do jantar tinha o baile com música ao vivo e todos amanheciam dançando. 

“Depois, quando eu estava com 17 anos, quando nos conhecemos de verdade, teve outro casamento, da Júlia Stahl e do Manoel Barbosa. Ele foi e, nós conversamos e começamos a namorar”, contou Maria. Relembrando João disse, “teve festa e baile, dançamos um pouco. Eu falei: posso ir junto (acompanhar a Maria até em casa, com a família)? Fui até perto da casa dela, não andamos sozinhos nem um pouquinho. Fomos bem recebidos dos dois lados (pelas famílias). Não precisou pedir, foram dois anos de namoro”, contou. 

“Não fizemos planos nenhum, resolvemos casar e falamos pros véios e, os véio, toparam”, afirmou João. “Não precisava fazer planos, casava e cada um ia viver a sua vida. Era pouca coisa, você arrumava para o casamento, o quarto com a cama e o guarda-roupa e na sala, naquele tempo, era um bufê (armário) com uma mesa, meia dúzia de cadeiras e, na cozinha era uma prateleira e uma mesa com as cadeiras e o fogão a lenha”, descreveu Maria. “Nós ganhamos 10 leitoas dos parentes pra começar a vida. Eu tinha um cavalo mas, não tinha junta de boi. Começamos assim a vida e estamos até hoje, graças a Deus”, comentou João.

Maria, Matias Simon, Júlia Carmona Miras, Benedita Fisher e João: Bodas de Prata
Maria, Matias Simon, Júlia Carmona Miras, Benedita Fisher e João: Bodas de Prata

“Eu fiz o meu enxoval sozinha, aprendi fazer tudo sozinha, nunca fui aprender, eu costurava a minha roupa e as roupas dos meus irmãos. Comprava o pano, cortava e costurava tudo sozinha. Eu gostava e queria aprender e fui fazendo, cortando os pedacinhos de pano e fazendo até costurar as roupas de todos; calça, camisa, só não fazia paletó. E continuei fazendo a roupa  deles e dos meninos. Fiz o enxoval e bordava e, era só um baú que a gente tinha pra ir guardando as coisas da gente. Não tinha nada, nada comprado, só o pano, eram peças de algodãozinho de 10m, eu alvejava estendido na grama, no sereno”, Maria descreveu. 

O casamento de João e Maria foi realizado no dia 8 de novembro de 1952, às 13h no cartório civil e às 14h na igreja São Sebastião. A noiva ia vestida para a cerimônia civil e depois do cartório acontecia a sessão de fotos no estúdio Ceneviva. Quem costurou o vestido da noiva foi Júlia Lange.

Bodas de Prata com os filhos, José, João, a afilhada Célia Fischer, o casal, Matias e Antônio Carlos
Bodas de Prata com os filhos, José, João, a afilhada Célia Fischer, o casal, Matias e Antônio Carlos

A irmã de João, Maria, casada com Aparecido de Campos morava na propriedade do pai Matias. “Eles foram embora pra cidade então, primeiro moramos numa casa que tinha no meio do pasto lá, sem luz elétrica, não tinha fogão a gás, ainda um dia, o vizinho foi até lá e falou que a casa era  assombrada. Quando a minha irmã mudou para a cidade, mudamos lá”, contou João. Na casa nova, foram nascendo os filhos José, Antonio Carlos, João e o caçula Matias; cada quatro anos nascia um. “Eduquei os meninos pra trabalhar bastante mas, não aprenderam muito comigo não (brincou). Tudo o que eu sabia eles começaram fazer junto comigo. E o que é mais importante pra encarar a vida é lutar e não ter preguiça de nada, não ter medo do que encarar e o que aparecer”, disse. 

No começo dos anos 60, a família entrou numa empreitada com várias outras para conquistar a modernidade; a luz elétrica. “A energia veio lá de Engenheiro Coelho, fomos arrumando os vizinhos que queriam. A obra de transmissão entrou pelo bairro Água Espraiada, passou por aqui e foi até no bairro do Brejo, e parou ali. Aqueles postes dessa grossura (gesticula) levantados todos no muque. Tinha bastante gente e fomos trabalhando naquela brincadeira, trabalhando todos juntos, porque era um trabalho duro, puxar aquele rolete e esticar três fios por dentro das barrocas. Lá pro lado do Sampaio (no outro sítio da família), tinha cana-de-açúcar e nós baldeávamos os postes de cimento de 9m no muque. O caminhão despejava e a gente baldeava. Um dia o administrador da obra falou: ‘não façam isso gente. A gente puxa com o trator, é fácil’. As valetas da cana era dessa fundura assim (gesticula novamente), pegava num terno (turma) de 10 ou 12 (pessoas) e quando aquele terno entrava na valeta os outros ficavam em cima com o peso. Levantava a cruzeta junto e puxava. Mas a gente trabalhava com gosto”, João descreveu.

João conta com muito humor e alegria pelo que construiu, pelo que tem vivido. O filho Matias, presente durante a conversa, chama a atenção de que o pai, dias atrás disse estava com saudades de comer uma mistura feita pela esposa; a receita que o pegou pelo estômago. Trata-se de um omelete com torresmo. Joao recorda: “Ela me prendeu e eu não escapei mais. Na minha casa só fazia o torresmo, ela me prendeu com com isso e eu fiquei doido”, disse com humor. Essa receita Dona Maria aprendeu com a mãe, sua família criava porco caipira, quando acabava a carne de um porco abatido,  já matava outro. Ela conta, “mas ele não esquece e tenho que fazer até hoje. Essa era a receita que a gente mais fazia porque o meu pai matava porco a cada três meses, tinha o torresmo e ovos sempre teve. A minha mãe pendurava o toucinho salgado no varal da despensa, fechada, por 2, 3 meses, não tinha o costume de derreter. A água do sal vai caindo e o toucinho vai ficando sequinho. Ele seca e não estraga. Fica uma delícia. A receita: pique o toucinho desidratado por alguns meses, coloque na frigideira e frite o torresmo. Em seguida acrescente os ovos batidos por cima dos torresmos”, explicou. 

João e Maria celebrando a Bodas de Ouro
João e Maria celebrando a Bodas de Ouro

“Meus filhos nunca viram nós discutindo. Nos casamos por amor e por respeito. Eu trabalhava e às vezes encalhava o trator, eu tava sozinho, tinha que vir buscar outro pra puxar e nunca cheguei em casa batendo o pé, sempre nos respeitamos. Entrou dentro de casa a mulher não tem nada com isso. Às vezes a gente ficava um pouco diferente um com o outro, chegava de noite a gente fazia a oração — um bispo ficou aqui em casa uns dias e nos ensinou uma oração pra fazer antes de deitar — no outro dia estava tudo normal”, disse João. “Eu sempre falo isso pra ele, quando ele diz uma coisa e me doeu eu fico quieta; eu toco no assunto um outro dia depois que passa. Já pede desculpas e passou. Eu aprendi isso com os meus pais”, disse Maria.   

“O que a gente leva pra vida, é o que ele (pai) e o meu avô nos ensinou: ‘o que é seu, lute por ele, o que é dos outros, é dos outros’. Ele sempre repetiu e meu avô também. A gente vê os dois de mãos dadas até hoje e isso é muito bacana, é o exemplo que a gente leva, um casamento de amor e respeito”, completou o filho Matias.

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