seminário “Jornalismo e as configurações do quarto poder”
Jornal Pires Rural – Edição 231 | SÃO PAULO, Agosto de 2019 | Ano XIV

O seminário “Jornalismo e as configurações do quarto poder”, promovido pela revista Cult em parceria com o Sesc, buscou discutir, nas experiências dos jornalistas e escritores convidados, o poder da imprensa, seus modelos de gestão, a influência da internet e a contribuição da imprensa como agente formador de consciência política, e a pergunta proposta para uma das mesas de debate era: Qual o papel da imprensa como agente de formação da consciência política e social da atualidade? 

Carla Rodrigues, professora de filosofia da UFRJ

Carla Rodrigues, professora de filosofia da UFRJ, uma das palestrantes, partiu da ideia que a pergunta “já supõe que há um papel. Eu fiquei supondo que um de nossos problemas contemporâneos, é que nós estamos sendo treinado, aos poucos, a fazer as perguntas de uma maneira diferente, de modo que as respostas não sejam de forma reflexivas. A filosofia ensina um pouco que o modo que fazemos as perguntas acabam influenciando nas respostas que vamos encontrar. Hoje em dia, em nossa experiência mais banal, as perguntas estão sendo refeitas, mais ou menos assim; “A imprensa tem um papel como agente de formação da consciência política e social da atualidade? Aperte 1 para sim. Aperte 2 para não”. E, acabou a conversa. Podemos ir embora. A hipótese que pretendo testar aqui, é por conta dessas transformações. Tenho a ideia que estamos diante de mais um grande círculo de mudanças, semelhante, e ao mesmo tempo diferente, do que nós vimos começar nos anos ’60, do século passado. ‘Novos tipos de sociedade se formam sob nossos olhos’. Essa é a primeira frase de um livro do sociólogo francês Bernard Lahire”, citou a professora.

De acordo com Carla, os fenômenos de mudança da sociedade industrial para a sociedade pós-industrial, argumentando que a disputa social e política não seria mais pelo modo de produção mas, pela obtenção do conhecimento, foi pensado pelo sociólogo norte-americano chamado Daniel Bell. “Chamo a atenção que conhecimento e informação, não são as mesmas coisa”, ela destaca. 

A visão otimista de Bell, era que essas mudanças seriam bem-vindas na nossa vida cotidiana, ganhando aliados como o italiano Domenico De Masi, segundo o qual, a promessa das novas tecnologias nos dariam a chance do ócio criativo e mais tempo livre. “Eu não sei quanto a vocês mas, o meu tempo livre desapareceu completamente, digo que as novas tecnologias (internet, celular, smartphone, redes sociais) não serviram para isso. Domenico De Masi vislumbrava que as tecnologias estavam dominando o trabalho braçal, que estava sendo substituindo pelo trabalho intelectual, pelos processos de automação das indústrias. A entrada de robôs daria mais tempo livre – o qual chamo de sinônimo de desemprego. O que talvez De Massi, não tenha percebido que o trabalho de “inteligência” poderia ser robotizado”, Carla enfatiza.  

O sociólogo espanhol Manuel Castells, falava na trilogia da era da informação de um eterno presente, uma experiência de relativização do tempo, que deixou de ser linear, irreversível, mensurável e previsível. “O trabalho passou a demandar, aquilo que o pessoal da informática passou a chamar de 24 por 7. 24 horas por dia, 7 dias por semana. De alguma maneira você está conectado ao seu trabalho, tempo disponível para o trabalho, mesmo que esse tempo não seja usado, o importante é o fato de ele tem que estar oferecido”, frisou Carla. 

Segundo a professora, numa direção mais crítica da sociedade pós-industrial, que também vai sendo chamada sociedade da informação, os autores franceses Luc Boltanski e Eve Chiapello com o livro ‘O novo espirito do capitalismo’, que foi publicado no Brasil, 10 anos depois de seu lançamento, fazem um levantamento muito detalhado da literatura empresarial das décadas de ’80 e ’90. “As (re)engenharias das empresas, tinham feito um esforço para se adaptar às críticas sofridas ao capitalismo, a partir dos anos ’60, colocando em questão valores como hierarquia, centralização. Em resposta, as empresas começaram a usar termos como rede, relações horizontais, de maneira a exaltar valores empresariais ‘igualando’ aos ideias ‘libertários’ da França de ’68 e, de todos outros movimentos de ‘rebeldia’, que estavam criticando estruturas rígidas. Então, as empresas passam a pregar mobilidade, fluidez, circulação em redes abertas. A partir do momento que todo ponto fixo for deslocado para o fluido e as hierarquias para as redes múltiplas, todos os aparatos institucionais de alguma maneira se tornaram estâncias de poder a serem deslegitimadas. Então, acredito que a imprensa, como indústria de informação, não vai escapar desse processo”, revelou. 

Sociedade algorítmica

O filósofo marxista Georg Lukács apresenta a tese de capitalismo manipulatório, numa tentativa de nomear esse capitalismo, que não se contenta somente com a exploração da mão de obra. Lukács percebe que a manipulação atribui valor de mercado, a algo, que até então, estava no campo de subjetividade. “Esse termo, ‘capitalismo manipulatório’, parece explicar o problema discutido em relação a informação, que é manipulação da notícia, da informação, da verdade ou mesmo dos nossos desejos. De repente o Facebook sabe melhor do que você, daquilo que você está procurando. Penso que o nome sociedade da informação já tenha caducado, porque no auge da sociedade da informação, não sabemos mais distinguir o que é informação verdadeira do que é informação falsa”, rebate.

Seguindo a pergunta proposta, Carla descreve que “o jornalismo não aconteceu de fora de todas as transformações políticas, econômicas e sociais no Brasil e no mundo. No caso brasileiro, a indústria do jornalismo impresso passa por uma primeira grande modernização nos anos ’50,’60  e, uma das marcas dessa transformação foi por um fim num certo jornalismo autoral que existia naquele momento. Quem escreve começa a ficar menos importante diante da técnica de uma escrita objetiva e direta. Esse processo de mudança vai acontecendo até o momento de publicações de informações online. Novamente, a questão do nome envolvido, da autoria. Não se produz mais jornalismo, se produz conteúdo. É a partir desse ponto que começo a pensar em uma sociedade algorítmica. Porque conteúdo, pode ser qualquer coisa que se coloca para preencher um espaço vazio. O que nos parece confundir, é não termos mais como diferenciar os conteúdos que passaram a ser oferecidos por algoritmos. Algoritmos produzidos ou editados por um sistema de inteligência artificial. A complexidade dessa sociedade algorítmica talvez esteja no pacto, que ainda pensamos nela a partir de muitos paradigmas da sociedade da informação, por exemplo, achar incrível desaparecer a diferença entre emissor e receptor de notícias”, observa a professora. 

Para concluir Carla Rodrigues avalia,  “o que está acontece é que aos poucos a inteligência artificial vai aprendendo a oferecer todo tipo de conteúdo automatizado e, caminha na direção de produzir respostas até menos binárias que ‘aperte 1 ou aperte 2’. Por exemplo, é o que está acontecendo com o sistema artificial de um grande banco carinhosamente chamado de ‘Bia’ que responde todas as dúvidas dos gerentes de contas, que por sua vez, estão ‘ensinado’ a Bia a responder sozinha. Aos poucos esses gerentes vão perder seus empregos e nós vamos conversar diretamente com a Bia. Se antes a obsolescência era programada para as máquinas, agora podemos pensar que a obsolescência está sendo programada para os Homens e, portanto o que teríamos como possibilidade, diante dessa obsolescência programada, é aprender ou re-aprender a fazer as perguntas de um modo que as respostas não possam ser só ‘sim ou não’, ‘contra ou a favor’, ‘gosto ou não gosto’, ‘voto ou não voto’, ‘amo x detesto’, como parece que os algoritmos estão querendo nos ensinar a fazer”, finalizou.

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