Jornal Pires Rural – Edição 231 | CAMPINAS, Agosto de 2019 | Ano XIV

Palestra  da Dra. Sara Sgobin, médica psiquiatra, coordenadora de Saúde Mental de Campinas, que esteve presente ao Fórum: “Suicídio – Des/compassos da vida: números, atos e demandas”, ocorrido na Unicamp.

Dra. Sgobin deu início ao tema diferenciando automutilação da tentativa de suicídio, segundo a médica, muitos autores considera isso polêmico, pois, a automutilação é um comportamento agrupado num espectro de comportamento suicida mas, destaca a importância de caracterizar as diferenças entre um e outro. A automutilação é um fenômeno cada vez mais objeto de discussão dos profissionais, não só os profissionais da saúde como também de educação e de outras áreas. “ Pra gente não é um fenômeno de fato, da modernidade. A automutilação (como forma de aliviar o sofrimento), ela é histórica na história da humanidade. Se a gente pegar os nossos históricos, inclusive de procedimentos de saúde, tinha práticas de sangrias como forma de alívio de sofrimento”, explicou. 

Dra. Sara Sgobin, médica psiquiatra, coordenadora de Saúde Mental de Campinas

Então, de fato, culturalmente, existe uma questão social de sangrar para poder aliviar algum tipo de mazela. Se torna proporção de discussão, enquanto patológico, em 1938, com Karl Menninger no livro ‘Man Against himself’ – cortes para aliviar o suicídio e tranquilizar-se, onde ele começa contar os seu atos automutilatórios e esses atos enquanto forma de alívio de uma angústia, de um sofrimento. Enquanto Rosenthal, em 1972, define isso como ‘síndrome do cortador de punhos’, “uma situação onde o indivíduo se corta não com a intenção de morte, não com a intenção de colocar um fim mas, sim como alívio de alguma angústia, de alguma dor. São atos, onde a pessoa até sente um certo prazer, certo alívio, enquanto ela está realizando mas, são atos chocantes para as demais pessoas”, destacou.

Dra. Sgobin, frisou que a definição para esse comportamento automutilatório é um comportamento intencional, envolvendo a questão direta ao próprio corpo, sem intenção consciente de suicídio, não há a vontade de morrer no ato. Então, colocar piercing, argolas na orelha, tatuagem, não é considerado automutilação. E, também tem efeitos religiosos, para aquelas pessoas que fazem penitência de joelhos, se auto-flagelando, tais atitudes não são considerados atos mutilatórios. 

“As características desses atos mutilatórios, geralmente são situações repetitivas, são cortes superficiais, podem ser planejados ou impulsivos. Entre os adolescentes temos turmas que tem kits de auto-mutilação com giletes, estiletes, com horário programado para se cortar. Após o ato, pensa, reflete. E, tem aqueles que são impulsivos, que se cortam a partir de uma angústia, um sofrimento. Os cortes podem ser superficiais, arranhões, queimaduras, mordeduras, provocação de ferimentos; são mais comuns nos braços, peito e tórax. Ao mesmo tempo, o fato do adolescente estar provocando uma autolesão e não ter o controle sobre esse ato, coloca essa situação como uma situação do aumento do risco de suicídio”, descreveu. 

Comportamento

Outras características, precedido de tensão, raiva de si mesmo, ansiedade, perda de controle, abandono, sensação de depressão; seja ele real ou imaginário. “Trabalhamos com a sensação que o adolescente nos traz, culpa, vazio, sentir pouca ou nenhuma dor no momento que faz o corte. O corte traz um alívio do sofrimento. A pessoa muitas vezes não sabe nominar e, trazer o sofrimento para o próprio corpo facilita com que esses adolescentes consigam concretizar de alguma forma esse sofrimento. Eles relatam o quanto a visão do sangue escorrendo traz alívio, a textura e o cheiro do sangue pode ser o que os acalma – isso é muito impactante ouvir, para o profissional de saúde e de outras áreas”, disse. 

A psiquiatra relata que muitas vezes, no momento do ato, a sensação de alívio é considerado boa mas, após o ato vem uma certa vergonha, depois sozinho olhando as marcas, sabe cada uma porque foi feito. Eles costumam usar camisetas de manga longa para esconder as marcas. “O grande problema que a gente tem com essa situação clínica são as dificuldades de compreensão, primeiramente pelos familiares – não é simples pra família entender o que está acontecendo. Para os profissionais de saúde, esse preconceito, esse medo que a situação desperta, acaba sendo um grande impeditivo dos adolescentes solicitarem ajuda ou falarem sobre isso mais abertamente”, ela informou. 

“A gente tem ‘tampado’ muito a boca dos nossos adolescentes, e não temos ouvido o que eles têm a nos dizer. Sempre ouvimos as temáticas de pais: ‘ele é um ‘aborrecente’! Não sabe nem falar!’. A gente esquece uma questão da adolescência que é a pré potência, no sentido de ser um adulto em potencial. Qual é a potência que esse adolescente tem pra vida adulta? É preciso lembrar sempre”, disse. 

Automutilação e suicídio

A automutilação predomina no sexo feminino. Os fatores de risco são a falta de mecanismos de adaptação pra vida, cinismo, insegurança, distorção de imagem corporal, baixa autoestima, instabilidade emocional, agressividade; isso tudo faz parte da vida do adolescente saudável mas, a intensidade disso é o problema.

“Na verdade, a questão a ser avaliada é: como essa criança chega na adolescência? O quão ela está estruturada, pra poder de fato, lidar com algumas questões que a vida vai lhe impor? Eu quero fazer a distinção entre automutilação e suicídio: a automutilação tem o sentido de sentir-se melhor, uma busca de melhora a nível de angústia. A tentativa é a busca de um fim, uma mudança de uma situação mais crônica, onde o adolescente não vê saída. Temos que analisar essas situações sempre na perspectiva (de que) um fator de risco é considerado um risco leve. Se ocorrerem dois ou três fatores, o risco de suicídio aumenta”, finalizou.

Dados:

2016 no Brasil foram 11.433 óbitos por suicídio; 

10.274 óbitos de evento cuja intenção é intermediada; 

É a segunda causa de morte na população de 15 a 29 anos;

2002 a 2012 a taxa de suicídio aumentou 33,4% – maior que a taxa de crescimento da população. 

DATASUS-2018, OMS 2002

2014 a 2016 teve um aumento global de 7,3% de óbitos por suicídio; 

Na faixa etária de 15 a 19 anos o aumento foi de 12,5%;

2016 ocorreram 903 óbitos em crianças e adolescentes até 19 anos, além de 965 óbitos por lesão de intencionalidade indefinida. 

DATASUS – 2018

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