Jornal Pires Rural – Edição 233 | CAMPINAS, Outubro de 2019 | Ano XIV

Durante a Semana Acadêmica do Instituto de Economia da UNICAMP, com objetivo de trazer discussões atuais que cercam a economia e a sociedade, Denise Lobato Gentil (no centro da foto acima), apresentou dados de uma pesquisa de cunho social e econômico, resultado de seu trabalho em parceria com a ANFIP (Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil) e a Fundação ANFIP de Estudos Tributários e da Seguridade Social, chamado “Uma Contribuição à Avaliação das Inconsistências do Modelo de Projeção Atuarial do Governo Federal e dos Impactos de Exclusão Social da PEC 06/2019”. 

A PEC 06/2019 é a proposta de Emenda à Constituição (PEC) que pretende reformar o sistema de Previdência Social para os trabalhadores do setor privado e para os servidores públicos de todos os Poderes e de todos os entes federados (União, estados e municípios).

Segundo Denise Gentil, professora de economia do setor público, da UFRJ, o resultado dos estudos é um trabalho iniciado em 2017, somado agora, com a proposta de reforma da Previdência do Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. “Passa a ser motivo de orgulho defender a reforma, é motivo de consenso, é um sinal de sabedoria nesse País”, ela diz, citando o clima de animosidade entre os políticos apoiadores do texto que propõe reformar na Constituição Federal o sistema de Previdência Social do Brasil. 

Denise emenda, “as políticas sociais, que antes eram aclamadas como absolutamente necessárias para promover a distribuição de renda e reduzir a pobreza, agora, virou um monstrengo que tem que ser banido das estratégias desse governo e portanto dane-se os pobres, dane-se os servidores públicos, dane-se a classe média. É mais ou menos isso que quer dizer essa reforma. Isso vai ficar claro pelos dados que vou demonstrar”. 

Nenhuma reformas é neutra

“A grande peça do debate é o envelhecimento da população. Isso, é uma ideia manipuladora, porque é muito convincente, é muito fácil você convencer alguém. Como a população está envelhecendo e o número de trabalhadores ativos está diminuindo tem que necessariamente fazer uma reforma da Previdência. As pessoas vem me dizer: ‘Denise é uma questão matemática! É verdade, você pode traduzir os números de várias formas. Nós fizemos um estudo, numa versão totalmente matemática que interpreta os dados de uma forma profundamente científica. Nós fomos nos modelos, nas equações, estudamos cada variável, cada parâmetro, cada hipótese, que foi levantada para afirmar os dados. Então, chegamos a conclusão que os idosos pobres serão descartados. A reforma da Previdência é uma política do descarte, os idosos vão se transformar naquela mercadoria inútil que não serve mais para ser aproveitada no mercado de trabalho. Hoje, eles recebem pelo menos um salário mínimo. Aquilo está sendo aprovado, já passou na Câmara, tem grande chance de passar no Senado, é o descarte de idosos pobres encomendado. A classe média será brutalmente atingida, porque os setores públicos são muitos afetados por essa reforma. Tudo vai ser desconstitucionalizado, exceto a idade mínima. Então, com qualquer medida provisória ou uma lei ordinária, de maioria simples, aprova qualquer tempo de contribuição, base de cálculo, alíquota. Não só para o trabalhador do setor privado, como também dos setores públicos. Vai ser um estado de reforma permanente, se a gente não conseguir bloquear”, alertou Denise.

Semana Acadêmica do Instituto de Economia da UNICAMP

Bases de dados

“Nós trabalhamos em cima das grandes bases de dados do governo, usada para projetar o déficit da Previdência. O governo insiste em dizer que o déficit é 3% do PIB (Produto Interno Bruto) e que se transformará em 11% em 2060, ou seja ele vai pular de R$195 bilhões ao ano (estou referindo ao teto do Regime Geral de Previdência Social – RGPS) para R$7,5 trilhões em 2060. Repare, o governo não consegue acertar o PIB do próximo trimestre. O governo diz quanto foi o PIB mas está em revisão. Mas, o governo consegue dizer com precisão de duas casas decimais qual será o déficit da Previdência no ano de 2060! Diante de uma situação tão dramática fomos estudar quais os parâmetros do governo, quais as variáveis, como o governo consegue construir as equações, que conduzem um Ministro (da Economia – Paulo Guedes) ao Congresso e coloque que a situação é totalmente caótica e se nada for feito agora esse País vai afundar porque a população idosa esta crescendo mais rápido”, detalhou. 

Segundo ela, partiram de um pressuposto muito simples: “como é que pode os congressistas legislarem sobre um tema, pautados em declarações não comprováveis? Vou mostrar que as despesas projetadas, numa série histórica até 2060 e um déficit que não se pode ser comprovado. Um único estudo que o governo apresentou foi: ‘quanto se vai economizar’. Na verdade não vai economizar, vai retirar renda da população. Além de tirar, vai transferir (recursos)” disse

Futuro sem estudo do governo

Existem dois problemas graves nas projeções do governo que aparecem na Lei de Diretrizes Orçamentarias (LDO) de 2020, onde o governo é obrigado, pela lei de responsabilidade fiscal, a estimar no seu modelo atuarial o futuro déficit ou futuro resultado financeiro da Previdência Social brasileira, entregue anualmente, está na Lei de Diretrizes Orçamentarias (LDO) de 2020. “A LDO é a nossa fonte de como pensa o governo. Nossa base de estudo são a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), as projeções populacionais do IBGE, os anuários estáticos da Previdência e os dados oficiais das aposentadorias do INSS, disponibilizados pela DATAPREV para a CPI da Previdência do Senado Federal, em 2017, são dados de 1995 até 2016. Fizemos também um estudo da economia que o governo diz que vai ter. Ele diz que vai economizar 1 trilhão de reais, como eles chegaram a esses números? Os números não estão disponibilizados para a população. É uma conta que chega na mão do Ministro. Fomos também estudar essas estimativas de economia de recursos, encontramos ausência de Memória de Cálculos, que são planilhas atualizadas que rodam o modelo. Temos os dados de entrada, com as projeções mas, não temos o modo operacional desse modelo. Não temos as planilhas que operacionalizam esses cálculos. Foram feitas várias solicitações por meio de deputados e o governo simplesmente se recusou a entregar”, alertou Denise.

De acordo com Denise o modelo 2019 da dupla Bolsonaro-Guedes (Jair Bolsonaro, Presidente do Brasil e Paulo Guedes, Ministro da economia), é um modelo de projeção atuarial de Projeções Fiscais do Regime Geral de Previdência Social, que insere uma coluna “taxa de juros”, sem explicar como foi projetado essas taxas de juros e qual a interferência dessas equações no modelo atuarial. O governo não explica, em nenhum momento, nos documentos analisados (LDO de 2020, Notas Técnicas e respostas dos requerimentos), como os juros se conectam com as projeções que eles estão fazendo de receita, gasto e déficit da Previdência. A estimativa de impacto da Proposta de Emenda Constitucional da Nova Previdência é apresentada na Nota Técnica SEI número 6/2019/SPREV/SEPRT-ME. A ‘Estimativa de impacto da Proposta de Emenda Constitucional da Nova Previdência’ e apresenta uma descrição metodológica, o conjunto de hipóteses macroeconômicas e previdenciárias, uma breve descrição das principais regras que serão alteradas e várias tabelas mostrando os impactos na receitas e despesas com a aplicação das regras da PEC 06/2019. Porém, em nenhum momento são apresentadas as tão solicitadas Memórias de Cálculos, que implementam o modelo de projeção em longo prazo. Mostro aqui, um ‘print’ da tela do programa Excel. Há lacunas nas tabelas que o governo disponibilizou para as pesquisas e estudos. Existe um modulo chamado “dinâmica de concessão de benefícios”. Ao clicarmos nesse modulo aparecem uma série de planilhas ausentes, repare na inscrição “Erro: fonte não encontrada”. São várias planilhas faltantes só nesse modulo aí. Essas planilhas são todas interconectadas, se existem planilhas ausentes, como podemos verificar o modelo? Chegamos a conclusão que é impossível rodar esse modelo atuarial. Não é possível auditar aquelas projeções de receitas, despesas e déficit se são de fatos àquelas que o governo apresenta. Muito menos possível, ainda, concluirmos a partir daí, que o governo tenha chegado a um número de quanto ele vai economizar com a reforma da Previdência, porque para isso precisaríamos abrir os arquivos para rodar esse modelo com os parâmetros da reforma. Forçosamente temos que reconhecer uma falta de transparência e confiabilidade pelo governo. O Congresso está decidindo no escuro sem saber os impactos das novas regras”, afirmou.

PIB

“Fomos fazer nosso trabalho de formiguinha. A primeira coisa é que o modelo atuarial do governo tem um PIB decrescente. Imaginem um governo que projeta um PIB para o futuro tão baixo que quando chegar em 2060, esse PIB será 0,76% pra baixo. Um governo de estreia, com um PIB tão rastejante, o que está dizendo? Que não há nenhum projeto de desenvolvimento econômico pela frente. Na pessimista projeção do PIB, nós não seremos, se quer capazes, de repor o capital fixo depreciado. A Confederação Nacional das Industrias, diz que se o PIB crescer menos de 1%, não vamos ter taxas de investimentos que sejam suficientemente para repor a depreciação do capital fixo (processo pelo qual, serve de apoio nas atividades de produção da empresa, desgastam-se pelo uso, pela ação do tempo ou pela obsolescência técnica). Nenhuma projeção, por mais conservadora que seja, desses modelos econômicos, estima um crescimento do PIB inferior a 3%. Em relação ao salário mínimo, o governo adota a correção pelo INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor), ele enviesa o modelo de economia para superestimar gastos, e poucas pessoas tem essa percepção. Porque a maior parte dos gastos da Previdência é com pagamento de aposentadoria à pensões que tem o valor de um salário mínimo. Se o governo corrige superestimando o valor desse salário, existem dois fatores que podem subir o gasto com a Previdência: o valor do beneficio e o número de pessoas beneficiadas”, aponta Denise analisando as informações divulgadas pela equipe econômica. 

População idosa

“Ainda percebemos que a taxa de crescimento da população idosa é descendente. A população idosa aumenta em números absolutos mas, a taxa de crescimento é descendente, isto é, ela cresce em taxas é decrescente. Em nossos estudos 2015 é o ano da maior taxa de envelhecimento da população, em torno de 4,1% ao ano, em 2019 ela cai para 4,04%, deve começar a diminuir, em 2030 esta taxa de envelhecimento deve estar na faixa de 2,8% e em 2060 deve estar por volta de 0,75% ao ano. Mas qual é o número que o governo usa? O governo usa a proporção entre idosos e população total, ele não usa a taxa de crescimento da população idosa. Essa proporção é o alarme, é como aterrorizar a população. Bastaria que o PIB crescesse a taxa maiores que a taxa de crescimento da população. Por exemplo, se o País crescesse um pouco acima de 2,7% durante a década de 2030. Fazemos uma outra simulação, usando os dados da LDO de 2017 e uma taxa de correção do salário mínimo pela regra atual, ou seja, pela inflação projetada pelo governo. Verifica-se que, até o ano de 2022, aproximadamente, haverá crescimento da relação despesa/PIB, e, a partir de então, haverá equilíbrio, seguido por uma redução desta relação a partir do ano de 2045”, apontou.

Durante a década de 2040 é preciso que o PIB crescesse acima de 2% e em 2050 crescesse em 2% em média, pra que nós não tivéssemos uma explosão da relação gasto Previdência/PIB. Mas o governo achata o PIB, exatamente porque a taxa de crescimento dos idosos no Brasil é decrescente. Isso para poder ter uma relação despesa/PIB explodindo lá na frente. Ele também superestima o gasto e subestima a receita, para dar o déficit monstruoso da Previdência.

Mercado de trabalho

As estimativas para as variáveis do mercado de trabalho são da PNAD de 2014, como principal fonte de informação de projeção populacional. Afirma a economista que a PNAD não é uma boa pesquisa para fazer projeções populacionais, porque ela tem um viés de envelhecer mais a população, do que de fato é na realidade. “A melhor estatística é a Projeções Populacionais 2000-2060, revisada em 2013, do IBGE, porque ela pega o Censo demográfico, estratégias metodológicas melhores, mas, adivinhem, Qual é a projeção que o governo utiliza? PNAD de 2014”, citou.

Ela apresenta que no ano de 2014, a estimativa da população acima de 50 anos, segundo dados da PNAD de 2014, aponta uma diferença de 7 milhões de idosos a mais do que as estimativas das Projeções Populacionais 2000-2060. Esse número de 7 milhões compara-se com a população do Rio de Janeiro, ou duas vezes a população do Uruguay. “Então reparem, a distorção usando os dados da PNAD de 2014 para projetar os gastos. Outro fato é quando o governo apresenta a LDO de 2020 ele cita o tempo todo as Projeções Populacionais 2000-2060 mas, usa os dados da PNAD de 2014”, destaca.

Outra conclusão do estudo é que as estimativas das variáveis do mercado de trabalho são totalmente estáticas. As taxas de ocupação, taxas de urbanização e taxas de cobertura contributiva, por exemplo, são mantidas no mesmo nível da PNAD de 2014 e “repete em 2015, 2016, 2017, 2018, 2019, ou seja, o governo trata as variáveis no mercado de trabalho constantes, como se não houvesse possibilidade de fazer uma política macroeconômica que modificassem as variáveis e mais, o governo utiliza a PNAD de 2014 quando já temos os resultados das PNAD de 2018 e 2019, mas ele repete dados de 2014 até o ano de 2060. Isso é uma lambança. Ora, se essa variável do mercado de trabalho é tomada como constante, isso significa dizer que o modelo atuarial do governo é totalmente insensível as variáveis do mercado de trabalho. Em outros termos, a modelagem é desprovida de dinâmica econômica para o setor produtivo e para o mercado de trabalho (particularmente com relação à taxa de formalização, produtividade do trabalho e nível de ocupação), permanecendo essencialmente um modelo de dominância populacional. Sendo apenas sensível às variáveis demográficas. Isso obviamente enviesa os resultados”, aponta.

Outro ponto interessante utilizado pelo governo, são os dados de estoque de benefícios utilizados de uma série de 2011 a 2014. Ficamos perguntando porque uma série tão curta para estimar os estoques futuros até 2060? E porque usar em 2019, uma serie tão desatualizada (2011) de dados dos benefícios, se ele já tem dados mais recentes sobre os benefícios? 

Os impactos sociais

Para finalizar, utilizamos como base de pesquisa, os dados oficiais das aposentadorias do INSS, disponibilizados pela DATAPREV para a CPI da Previdência do Senado Federal. Em  2017 o ex-presidente Michel Temer quis fazer uma reforma da Previdência mas, assim que ele mandou o projeto para a Câmara ele passou por uma série de problemas com o direito penal, acusado de uma série de crimes, com isso se fragilizou politicamente e foi instaurada uma CPI da Previdência pelo Senador Paulo Paim, em função dessas circunstancias o governo teve que entregar a base de dados do INSS. É só por isso que temos essa base de dados para fazermos nossos estudos, são dados de 1995 até 2016.  

Com os dados disponibilizados pela DATAPREV para a CPI da Previdência do Senado Federal sobre os números oficiais das aposentadorias do INSS, o recorte do estudo foi verificar as aposentadorias por idade dos urbanos, dos rurais e dos professores que são os mais afetados pela nova reforma. “O primeiro ponto foi ver a regra que o governo propunha. Hoje, o trabalhador urbano pode-se aposentar aos 65 anos, homens e, 60 anos mulheres. Ambos, além de ter a idade, é necessário preencher o pré-requisito de 15 anos de contribuição. São exigências que devem ser cumpridas simultaneamente. Agora, qual é a proposta do governo? Deixar a idade dos homens em 65 anos e aumentar a idade das mulheres em 62 anos e aumentar o tempo de contribuição de 15 para 20 anos.

A nossa pergunta é a seguinte: qual é o número de contribuições que esses trabalhadores são capazes de fazer por ano? Resultado: os homens são capazes de contribuir com 5,1 parcelas e as mulheres são capazes de contribuir com apenas 4,7 parcelas, a cada 12 meses. Isso porque os trabalhadores não conseguem contribuir com a Previdência ininterruptamente, por todos os meses do ano, em função do alto desemprego, em função do trabalho informal, em função do trabalho intermitente. Isso muda tudo! Quando o governo diz que vai aumentar de 15 anos para 20 anos, não quer dizer 5 anos a mais, isso é o tempo cronológico, é o tempo escrito na lei. Na verdade, para o trabalhador contribuir com mais 5 anos, ele terá que se manter no mercado de trabalho por mais 12 anos.”, revela Denise.

Significa, para aqueles que antes se aposentavam aos 65 anos, com 15 anos de contribuição, só vão se aposentar aos 77 anos de idade. Aqueles que precisarem de dois anos adicionais de contribuição, por exemplo, teriam que trabalhar por 4,7 anos extras (mais que o dobro do tempo) para totalizar os 20 anos exigidos. Os novos cálculos faz a idade média dos homens subir de 65 anos para 71, 3 anos para se aposentarem. O tempo de contribuição é decisivo para saber a idade que o homem vai se aposentar. Subido o tempo de contribuição, a idade sob muito mais. Em relação as mulheres que só conseguem contribuir com apenas 4,7 parcelas por ano, vai obrigá-las a permanecer no mercado de trabalho por mais 12,8 anos, são 2,6 anos adicionais por cada parcelas de contribuição e portanto a idade média das mulheres passa a ser de 71 anos e não de 62 anos, se o tempo de contribuição subir de 15 para 20 anos. 

Mulheres desalentadas

“Como isso ficou muito escandaloso o relator da Previdência, Deputado Samuel Moreira, diminuiu o tempo de contribuição das mulheres de 20 para 15 anos no texto da nova Previdência, mas manteve o aumento da idade de 60 para 62 anos, o que continua muito sacrificante, os dois anos adicionais na idade mínima custarão às mulheres muito mais (em intensidade de trabalho), uma vez que a dupla jornada de trabalho leva a realizarem 17 horas extras semanais de trabalho doméstico para além daquelas despendidas no emprego (IBGE/ PNAD Contínua, 1º trimestre de 2019). As mulheres são a maioria da população desalentada, equivale a 56% desse grupo. Elas recebem salário 20% inferior aos homens, existem 14 milhões de mulheres que não conseguem contribuir com o INSS, então, ficar mais 2 anos no mercado de trabalho não é tarefa simples, porque o desemprego é muito alto e a precariedade de trabalho é muito elevada, e a idade é um grande empecilho”, evidencia.

Professores

Quanto aos professores, os homens, normalmente se aposentam aos 55,9 anos de idade com 30 anos de contribuição e as mulheres aos 52,4 anos de idade com 25 anos de contribuição. Na regra de hoje não tem idade mínima para professores do ensino básico, fundamental e médio, eles tem apenas que comprovar tempo de contribuição. Com a nova regra os homens necessitarão aguardar que a idade mínima seja alcançada (60 anos), pois já contribuem com o mínimo de 30 anos (pelas regras em vigor). “O real problema dos professores é que, a idade com que se aposentam hoje (em média, aos 55,9 anos) é inferior à exigida na PEC e, portanto, teriam que permanecer por mais 4,1 anos, em média, no mercado de trabalho em uma profissão fisicamente sacrificante, com precária infraestrutura e baixa remuneração”.

Descarte populacional 

No levantamento da pesquisa, foi aplicada uma simulação pelas regras atuais em comparação com as regras da PEC 6/2019, onde demonstrou que a proporção de pessoas que se aposentaram em 2016, não conseguiriam se aposentar caso a PEC já estivessem em vigor, desde aquele ano. Revelando para os homens que se aposentam por idade, 56,6% deles não se aposentariam com as regras da PEC 6/2019 (por insuficiência do tempo de contribuição – ou seja, tempo inferior a 20 anos). Enquanto para as mulheres, o percentual alcança 98,69% (equivalente às pessoas com idade inferior a 62 anos e menos de 20 anos de contribuição). Denise assinala, “o tempo faltante é uma coisa absolutamente dramática. Por exemplo se o homem aos 65 anos de idade completo, não tivesse conseguido fechar o tempo de 20 anos de contribuição, ele teria que trabalhar, 4,8 anos adicionais. Se ele tivesse 67 anos, ele teria que trabalhar 10 anos adicionais, o que significa que é inviável a aposentadoria (integral) dos homens. Absolutamente assustador e digo que é um descarte populacional, eu não estou exagerando. Estou dizendo que essas regras são inviáveis para o mercado de trabalho brasileiro. Fazer uma regra, sem olhar para a estrutura ocupacional é um crime! Foi isso que o governo fez. O governo Bolsonaro arbitrariamente aumentou o tempo de contribuição dos homens de 15 para 20 anos, sem ter feito nenhum estudo de impacto sob a situação do mercado de trabalho. O governo não questionou quantas parcelas em média os trabalhadores conseguem recolher. Os dados que temos na mão são de 2016, anterior a reforma trabalhista, isso é pior, é assustador, sendo que hoje, essas contribuições de 5 parcelas ao ano, pode estar muito menor. E não temos base de dados pra fazer esses estudos porque o governo não disponibilizou a DATAPREV atual”, reagiu. 

O homem pode ficar no mercado de trabalho depois dos 70 anos? 

“Ele não tem condições físicas, está desgastado, já está na informalidade há muito tempo, ele não tem preparo nem atualização tecnológica para enfrentar as novas exigências dos postos de trabalho. É a condenação a pobreza. Teremos pelas ruas, uma população de idosos pedintes. Hoje é de crianças e jovens, vão se juntar os idosos porque, os homens não conseguirão alcançar os requisitos para a aposentadoria”, ela comenta. 

Projeto para a juventude

“O governo deveria estar apresentando um grande projeto de criação de postos de trabalho para a juventude. O auge da força de trabalho, foi 2017, 2018, 2019 é esse periodo agora. Nós nunca teremos uma população de jovens no mercado de trabalho, tão grande como agora. Ao invés do governo estar se preocupando em como recepcionar esses jovens ao mercado de trabalho, empregos dignos, salários dignos, ele está cuidando da população idosa! 

A solução está no dinamismo do mercado de trabalhão dos ativos. Se aumentar o número de empregos, aumentar o salário mínimo, se aumentar o número de postos de trabalho na indústria principalmente, para aumentar a produtividade, e disseminar por toda economia, não haverá problemas de déficit previdenciário, nós já fizemos várias simulações. Um pequeno crescimento no número de empregos formais, na produtividade do trabalho, uma pequena gestão mais eficiente das receitas da Previdência, diminuindo sonegação, cobrando os devedores, basta uma pequena gestão para o déficit desaparecer nas projeções atuariais.

Mas o governo prefere roubar o futuro, prefere condenar à pobreza, o governo prefere descartar os idosos pobres do que ofertar a sociedade um grande plano de desenvolvimento econômico, o qual seria uma grande solução, não apenas para os idosos pobres mas, para todo o País. Porque é importante dizer isso para vocês? Porque vocês são o futuro. Essas regras não cabem a vocês.”, afirma Denise. 

100% do salário

“Quero encerrar dizendo que ninguém que se aposente por idade nesse País, conseguirá fazer 100% do salário de contribuição, nem trabalhando 40 anos, não há existência possível para isso. É só possível alcançar, em média, 67% no caso dos homens e 63% no caso das mulheres trabalhadores urbanas. É um engodo achar que se contribuir por 40 anos vai receber 100% do salário na aposentadoria, ninguém vai ter, porque ninguém consegue contribuir para a Previdência, todos os meses do ano durante o periodo de 40 anos”, destaca ela. 

Denise salienta avaliando seus estudos, “quero que vocês percebam o que está sendo destruído nesse País. Isso se não interessa aos pobres, não interessa a classe média, isso não interessa aos servidores públicos, isso não interessa grande maioria da população, a quem interessa essa destruição? Interessa a acumulação financeira. Interessa aos fundo de Previdência aberta, que não conseguiam avançar porque no Brasil existia dois grandes regimes de repartição; o Regime Geral de Previdência Social (RGPS) e Regime Próprio de Previdência Social (RPPS – regime de previdência dos servidores públicos). Eles impediam o avanço das finanças privadas sobre a proteção, os bancos não conseguiam, eles precisavam arruinar com a Previdência Social e com a Previdência dos servidores para abrir uma avenida para os Planos Privados de Previdência. O que o governo quer? O governo quer deixar de pagar um fundo público para os cidadãos brasileiros para que eles busquem um fundo privado de previdência complementar, com recursos de títulos públicos remunerados numa das mais elevadas taxas de juros reais do planeta, pago por toda sociedade. Os fundos de Previdência aberta aplicam 92% os seus recursos em títulos públicos, não estão servindo para o investimento privado.

A triangulação que vai acontecer será: vai deixar de existir a Previdência pública, para avanço do capital financeiro dos fundos privados de previdência aberta que serão remunerados por títulos públicos. A reforma da Previdência é uma peça de dominação de classe. É uma peça de dominação do capital financeiro sobre o espaço público, é isso que representa a reforma da Previdência. É uma brutalidade sobre os mais pobres. chamo essa proposta de ‘triunfo da barbarie’. Porque ela escolheu a injustiça social como lema.

A reforma da Previdência é uma peça de dominação de classe. É uma peça de dominação do capital financeiro sobre o espaço público, é isso que representa a reforma da Previdência. É uma brutalidade sobre os mais pobres. chamo essa proposta de ‘triunfo da barbarie’. Porque ela escolheu a injustiça social como lema.

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