Assista Sr. João na horta, aos 75 anos, e acaba de lançar sua biografia em livro

Jornal Pires Rural – Edição 235 | LIMEIRA, Dezembro de 2019 | Ano XIV

A prática da agricultura urbana traz a produção de alimentos para dentro dos centros urbanos, sendo uma estratégia para fornecimento de alimentos, de geração de empregos além, de contribuir para a segurança alimentar e melhoria da nutrição dos moradores. Em Limeira, há poucas hortas urbanas espalhadas pela cidade, na Avenida Laranjeiras existe uma, é cuidada por João Francisco Dias, há 15 anos. 

Sr. João, foi criado na roça, morou nas terras da Fazenda Santa Cruz, um distrito do município de Lins, localizada entre os rios Tietê e Dourado (afluente do rio Tietê). A Fazenda Santa Cruz após ser dividida em lotes pelos herdeiros, obteve total autonomia da cidade de Lins, e no ano de 1954, se tornou a cidade de Sabino. Foi lá, que aos 6 anos de idade Sr. João ouviu de seu pai: “a partir de amanhã você já vai pra roça”. Trabalhava de sol a sol, junto aos irmãos, só teve outro trabalho, em um armazém, depois dos 20 anos. 

Mudou-se para Limeira, em 1980, para trabalhar no Supermercado Guerra, ficando lá por dois anos, depois, trabalhou como representante comercial de uma empresa de frios e outra de carnes, da cidade de Piracicaba. 

Em 2005, Padre Reinaldo, na época pároco da Igreja Nossa Senhora Aparecida, na vila Queiroz, fez um convite para Sr. João, já aposentado, trabalhar na horta comunitária, um terreno de 13 mil metros. Iniciou a empreitada em 15 de novembro daquele ano. “Eu trabalhei por 23 anos como representante comercial e sempre gostei de terra, quando recebi o convite para horta não pensei duas vezes. Já tinham construído isso aqui em 2000, porque aqui não é uma Concessão mas um Decreto Municipal. Vim assumir através da Igreja Nossa Senhora Aparecida. Haja vista estou muito feliz aqui”, diz com um sorriso cordial. 

João Dias conta que quase nasceu debaixo de um pé de café, é apaixonado pelo mato e tem total apoio da família. “Estou aqui todos os dias desde às 5:50 até às 18h, com excessão de domingo que chego às 9:30”, destacou. Quando criança trabalhava limpando tronco de pé de café, para não ficar caroço de café perdido entre as folhas secas, mesmo não podendo com o peso da enxada capinava, depois foi colher algodão, milho, feijão. Fez roça de amendoim, arroz, tombava terras com animais, fez cercas, roçava matas, enfim tudo que era braçal e pertinente ao trabalho árduo em fazendas.

Horta urbana

“Plantei 131 pés de frutas e árvores nativas. Tenho framboesa, graviola, abacate, caqui, manga, romã, amora, macadâmia, laranja e limão. Tem duas espécies de árvores ornamentais que eu gostaria que alguém passasse por aqui e me ajudasse com o nome. Além das frutas, tenho as verduras, não estou aqui de graça, estou vendendo, ganhando meu dia a dia. Tem duas coisas que não tem negócio, primeiramente Eu e depois as flores. Tudo que eu gasto aqui é do meu bolso”, explica.

Sobre a agricultura que pratica, ele diz; “se eu for depender da vizinhança, 500 metros em volta aqui, posso fechar a horta. Aqui é um corredor, então, eu tenho clientes de Campinas, São Paulo, Piracicaba, Rio Claro, Araras. 20% são clientes fixos e 80% clientes passageiros. Limeira é carente de horta, se nas proximidades tivesse umas 4 ou 5 hortas seria bom pra todo mundo. O maior pensamento errado é achar que ter uma horta perto da outra vai atrapalhar. O negócio vai agregando, se eu não tenho um produto, o meu vizinho tem, então, os clientes não deixam de vir, e encontram variedades”, assegura João Dias. 

Trabalhando com hortaliças colhidas na hora, na frente de seus clientes ele sempre ouve: “porque as verduras do mercado, não duram uma semana e a sua dura? Eles dizem que pegam o produto assim que acabou de chegar na banca do supermercado. Só não sabem que esse produto já fazia três dias que estava na câmara fria. Digo isso sem desmerecer ninguém”. Sr. João ainda completa; “é aquela pergunta do jiló. A pessoa chega aqui e fala; ‘como é que faz pra fazer o jiló?’ Eu falo, é pra tirar o amargo? Se tirar o amargo não é jiló”, ele brinca. 

Herança

Sobre o futuro da agricultura urbana sr. João faz uma reflexão; “haja vista hoje, o que esta difícil não é a horta, é a reposição. Pergunta se meu filho quer continuar a horta? Se meu neto quer continuar a horta? Associado a isso, não é desmerecer ninguém, mas aquele carroceiro que tinha na rua, ficou doente, faleceu. A primeira coisa que a família fez, foi vender a carroça e o animal. Não deu continuidade. Quero reafirmar que na horta também não é diferente, não tem reposição”, apontou.

Perguntado qual é o segredo pra manter a remuneração e garantir o sustento da atividade, Sr. João responde que existem três maneiras de se dicar ao trabalho: “a pessoa faz o que faz na vida, primeiro, se faz por precisar é uma coisa. Segundo, por gostar é outra. Terceiro, por estar “batendo” cartão é outra. Por exemplo, eu sou aposentado, não estou aqui de graça, gosto do que faço. Talvez, se tivesse que bater ponto aqui e fosse um empregado, não seria tão pontual como sou. Quando eu vou embora, vou com saudade de voltar amanhã. Então, não é quanto a gente ganha, mas posso afiançar pra ti: ‘saúde e dinheiro no bolso de pobre, nunca é demais’. De primeiro a pessoa aposentava e continuava fazendo um bico. Quando eu estou aqui, a minha aposentadoria é um bico. Até quando vai eu não sei”. 

Questionado em que época tira féria ele avalia; “faz 30 anos que eu não sei o que é férias mas, eu aqui na horta hoje sou um pobre rico. Porque, graças a Deus, não tenho dinheiro, não tenho dividas, colho e como aquilo que quero, tenho uma família; uma esposa, um filho, uma filha, um casal de netos. Uma paz e um orgulho dessa família que não me cabe, isso pra mim é fortuna, é herança, mais que riqueza”.

Hoje, aos 75 anos, o agricultor João Dias, arrumou um tempo para escrever sua história e acaba de lançar sua biografia no livro: “Lembranças que o tempo não apaga”. 

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