Maria Rita Kehl é psicanalista, autora de ‘O tempo e o cão’, vencedor do prêmio Jabuti em 2010
Jornal Pires Rural – Edição 225 | SÃO PAULO, Fevereiro de 2019 | Ano XIII

O seminário “Jornalismo: as novas configurações do Quarto poder”, teve a proposta de discutir o papel da imprensa na atualidade, diante de um perplexo segmento em crise. Realizado na unidade do Sesc da Vila Mariana, em São Paulo, o evento reuniu mais de 50 profissionais experientes e reconhecidos na sua área de atuação. Tratando do tema “como funciona o poder da imprensa, na atualidade”, estava a psicanalista Maria Rita Kehl, descrevendo seu início nas redações de jornais e analisando o comportamento dos usuários das rede sociais.

Maria Rita destacou, “quando comecei meus estudos acadêmicos, em 1974, era governo do General Médice, foi um dos piores e mais repressivos, o jornalismo tinha uma tarefa muito importante; informar, nas entrelinhas, o que estava acontecendo e fazendo críticas. O primeiro jornal que escrevi, era um jornal sem nenhuma militância, do bairro de Pinheiros, em São Paulo. Bati na porta desse jornal e disse que queria escrever para o jornal. Veio um senhor, deveria ter uns trinta e poucos anos, era o chefe de redação, deu a tarefa para assistir um filme e escrever 40 linhas de texto. Quando ele leu meu artigo falou que estava bem escrito mas, não era uma matéria jornalística, parecia um trabalho de faculdade. Pós a me ensinar que o texto tinha que ter uma abertura, dizer o nome do diretor, situar o filme e depois fazer os comentários críticos. Aprendi, foi fácil porque ele foi muito amistoso. Logo após, abriu em São Paulo, o jornal ‘Movimento’, de um pessoal que tinha vindo do Rio de Janeiro, ligados ao PC do B e, num minuto eu virei editora de cultura e, a primeira pessoa que fui entrevistar, na casa dela, foi a cantora Elis Regina, uma sorte total. A segunda entrevistada, tive a ideia da escritora Carolina de Jesus, que morava muito longe, em Parelheiros, quase vizinho da cidade de São Vicente. Também foi tempo do jornalismo político, ligado a pequenas organizações políticas e, tinham algumas personalidades que não podiam aparecer, a briga era permanente, fundavam jornais, gente saiam e voltava aos jornais frequentemente. Só depois que tive meu primeiro filho fui abrir meu consultório de psicanalise e perceber que tinha uma outra profissão. Fui me afastando do jornalismo e só voltei em 2010, quando fui convidada para ser colunista do Estadão, fiquei reticente, mas adorei, quando você começa a ver publicado, não quis mais largar, foi como uma cachaça. Só que depois de 17 crônicas, teve uma discussão na candidatura da Dilma Rousseff sobre dizer o que o Bolsa Família era bolsa esmola. Eu fiz uma crônica, bem crítica a isso, justificando porque as pessoas precisam da Bolsa Família, explicando que a maioria das pessoas conseguem tirar o pé da miséria, quando arrumam emprego, devolvem o beneficio, algo bem importante e, serve para as pessoas como um começo na vida. Após isso, cancelaram minha coluna no Estadão. Recebi uma ligação da editora, muito constrangida, dizendo que ‘o conselho diretor do jornal não te quer mais’. Bom…O que podemos falar do jornalismo hoje? Durante o tempo da Comissão da Verdade, uma comissão que veio muito tardia no Brasil, foi preciso uma presidente que tinha sido presa política, que tinha sido torturada, que tinha perdido companheiros na tortura, para conseguir fazer o Congresso aprovar a Comissão da Verdade. O que é importante, do ponto de vista do jornalismo, é que os jornais cobriam o que era feito pela Comissão, menos a mídia impressa, raramente saia uma notícia, porém o Jornal Nacional (Globo) davam as mais importantes notícias, por exemplo, quando a Comissão da Verdade mandou trazer os restos mortais do presidente Jango (João Goulart, 24° presidente do país, de 1961 a 1964), que foi sepultado no Uruguai, porque estava exilado lá, quando faleceu e, foi trazido com honras de Chefe de Estado para ser sepultado em Brasília – DF. Entretanto, algumas coisas decepcionantes aconteceram, a primeira foi que diversas vezes fui abordada por pessoas, de cara feia, me questionando se a Comissão não ia investigar o ‘outro lado’. Eu perguntava que outro lado? Diziam, ‘sobre os assassinatos cometidos pela esquerda’. Eu digo que foram cinco e todos foram presos, torturados e assassinados. As pessoas achavam que tinha sido uma guerra, igual dos dois lados e não grupos, corajosos, que pegaram em armas para combater um Estado que estava fora da lei, ditadura é isso. Em nenhum momento, na cobertura da imprensa, essa questão ficou bem clara. Não estou criticando porque não tinha tempo de acompanhar mas, por exemplo, eu não vi isso sendo discutido no Roda Viva da Tv Cultura. A televisão, que é capaz de atingir todo mundo ao mesmo tempo como formador de opinião, não discutiu isso com membros da Comissão da verdade”.

Maria Rita Kehl é psicanalista
Maria Rita Kehl é psicanalista

Mercado
Com sua especialização como psicanalista, Maria Rita analisa o poder do mercado de consumo e sua influencia no atual comportamento das pessoas. “Está errado pensar que mercado é só quem lida com economia. Nós somos um mercado de consumo quando a escolha é por um jornal e não pelo outro, isso faz o poder do mercado. Nas democracias regidas pelo mercado, podemos votar e as pessoas não vão presas por crimes de opinião. Atualmente, acredito estar havendo, sobre o laço social, um efeito terrível, que são as pessoas se identificarem apenas pelo seu grupo identitário. Ou seja, mulheres negras e mães solteiras, como se isso fosse um grupo, a não ser quando tenham algum tipo de pauta específica como mais creches para seus filhos ou tipos específicos de pensão. O ideal na sociedade, que pretendem renovar algum comportamento, é que todas as mulheres se identifiquem como mulheres. Onde, as mulheres negras também se identifiquem com pautas do homens negros, que as pessoas ricas da esquerda se identifiquem com a luta de classes. Se ficarmos no efeito do mercado de consumo dizendo que meu cartaz me identifica; ‘mulher classe média com mais de 60 anos’, isso não diz nada. Nós não nos resumimos ao nosso nicho de pesquisa do IBGE. Tenho a impressão que os movimentos sociais estão contaminados por se pautar em questões identitárias, herdadas da política norte americana, que na minha opinião é terrível. Eu quero ser solidária a todo o movimento negro, a todo o movimento por ideologia, por valores e quero que as pessoas não negras no Brasil, saiam em passeatas em apoio ao movimento negro, para parar a matança de negros no Brasil. Isso não pode ser um problema só deles e, apenas eles tem de se manifestar. Cadê a solidariedade? Cadê o sentido de um país que as pessoas querem melhorar a sociedade inteira? Acho que isso reflete num jornalismo especializado com muito pouco horizonte. Por exemplo, apenas as feministas falam sobre as feministas e não tem ninguém que as questionam, se elas não tem interesse em comum com os homens? Não somos a favor de igualdade de direitos? O interessante do humano e da vida em sociedade é a capacidade de se identificar com quem não é de seu nicho e, quando essa capacidade se perde a possibilidade da sociedade se ‘fascistizar’ é muito grande. Mesmo que esses nichos sejam de grandes valores, se eles começam a se fechar para os outros, a possibilidade da sociedade ter um clima fascista na vida pública, na vida social é muito grande. Sou a favor de todo mundo poder falar de todo mundo, se falar mal, corrige! Criar laços, isso que importa. Nossas causas quanto mais se alinharem com as causas de outros cidadãos que não são idênticos entre os grupos, mais fortalece a democracia. Esse divisão, é disseminada na sociedade pela publicidade, quando lança uma linha de produto rotulando determinado nicho (tipo de consumidor), por exemplo, xampu masculino para homens solteiros. Na democracia, temos que nos alinhar com pessoas muito deferente de nós. Pessoalmente, provavelmente, eu me identifique muito mais, por exemplo, com ‘homem negro, pobre, que goste de samba’, do que com ‘mulher branca, classe média, que goste de shopping’. Então, não acredito que iremos resolver o problema da diversidade, com um critério narcisista, temos que ampliar as nossas alianças”.

Redes sociais
Instigado por perguntas da plateia, Maria Rita aborda as rede sociais. “Essas redes tem capacidade de agregar milhares de pessoas, tendo a conotação de ser um espaço privado, por isso as pessoas permitem dizer tantas “merdas”, desculpe o termo mas, eu não falaria isso em público, somente nas redes sociais. Ou seja, pessoas que fazem bullying contra outras, que fazem um clima de fascismo nas rede sociais, talvez, na vida com os amigos ou enfrentando rivais, elas não teriam coragem desse comportamento ou teriam um pouco de vergonha A liberdade que as pessoas tomam de dizer coisas abjetas, de expressar opiniões nas redes sociais, dificilmente sustentariam em uma discussão. O poder das redes sociais é criar um clima difuso, de baixaria (não sei se é ódio), mesmo que tenham pessoas ocupando de outras maneiras. Não sei de que forma está afetando a sociedade brasileira, mas, está! Por isso é importante debates como esse seminário, porque as pessoas que estão aqui, podem entrar nas redes sociais mas, se dispõe em vir aqui, fazer perguntas, ouvir, refletir, depois interagir com outros participantes. Talvez o problema das redes sociais seja; basta o tipo de circulação, de opinião formada de um minuto para o outro, sem crivo de censura ou até impunidade pelo comportamento desenfreado. Diferente do jornal impresso, dependendo do que for publicado ele sofre sanções. As redes sociais viraram um reino do vale-tudo”.

Maria Rita Kehl participou do seminário “Jornalismo: as novas configurações do Quarto poder”, relatando sua nas redações de jornais
Maria Rita Kehl participou do seminário “Jornalismo: as novas configurações do Quarto poder”, relatando sua nas redações de jornais

Encerrando, Maria Rita reflete com o jornalista Xico Sá, o qual estava dividindo a mesa de discussão, argumentando sobre uma regulamentação séria nos veículos de comunicação, pertencente o poder a pequenos grupos, isso impões uma questão econômica mais do que de opinião. Exemplos dos conglomerado de comunicação e político que dominam os estados como Rio de Janeiro, Maranhão e Pernambuco, isso não tem nada a ver com censura. “Cito exemplo de grupos que participavam e discutíamos a regularização da televisão, no início dos anos 2000, propomos algumas pautas para os deputados do Congresso Nacional, só que eles diziam ‘se a gente tentar aprovar essa pauta, que limita o poder da imprensa nessa questão (concentração de veículos de comunicação na mão de poucos), a gente nunca mais se elege’. Então, nenhum deputado encaminha nenhuma pauta que conteste o poder das mídias”, finalizou Maria Rita.

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