Eugênio Bucci: "A imprensa tem a obrigação de informar com rigor e responsabilidade para oferecer instrumentos de reflexão à sociedade, para que esta atue conscientemente".
Jornal Pires Rural – Edição 225 | SÃO PAULO, Fevereiro de 2019 | Ano XIII

Na época do seminário “Jornalismo: as novas configurações do Quarto poder”, ocorrido em meados de agosto de 2018, o instituto de pesquisa Exata, que é especialista em analisar Big Data, avaliou 148 mil twitters durante o primeiro debate dos candidatos concorrentes a presidente da República, transmitido pela rede de Tv Bandeirantes. Dessas mensagens de twitters verificados, constatou-se que 20% eram falsos produzidos por bots (robôs). As redes sociais não se reconhecem como empresas de mídias mas sim, como ferramentas de relações sociais, nesse quando mundial. Acrescentando o fato de que a Editora Abril, recentemente, cancelou 10 títulos de suas revistas e, o mercado de mídia, no entanto, sai do campo da episteme (ou ciência em grego), pra se fundar cada vez mais na opinião diversa dessas ferramentas que constantemente o adoça. Então, qual é o papel da imprensa como agente de formação da consciência política e social na atualidade? Esse questionamento foi colocado diante de Eugênio Bucci, grande articulista com vasta experiência como colunista nos principais veículos de comunicação de São Paulo. Eugênio comparou o comportamento das redes sociais em paralelo ao pouco conhecimento dos políticos sobre o conceito de imprensa em que “toda notícia é incompleta, as coisas mudam, os conceitos mudam, o modo de olhar muda, a interpretação muda. O melhor da imprensa é uma sociedade debatendo consigo mesmo”, destacou o jornalista.

Eugênio Bucci é articulista quinzenal em O Estado de S. Paulo. Graduado em comunicação social e em Direito pela USP, doutor pela Escola de Comunicação e Artes da USP, onde atualmente é professor titular do Departamento de Informação e Cultura. Na Editora Abril, exerceu as funções de repórter, editor, editor sênior, diretor de redação e, finalmente, Secretário Editorial. Foi colunista das revistas Veja e Época e dos jornais Folha de S. Paulo e Jornal do Brasil (RJ). Esteve participando do seminário “Jornalismo: as novas configurações do Quarto poder”, realizado entre os dias 15 e 17 de agosto, na unidade do Sesc da Vila Mariana, em São Paulo.

Ressaltando em sua fala, pelo lado político, os dados fraudulentos manipulado por robôs, durante um clima de eleição no Brasil, “nos faz pensar que o espaço da imprensa foi tomado por um ‘vírus’ e isso vai sabotando, corroendo, a função de verificação dos fatos que deveria abastecer a política, que deveria abastecer o debate público. A relação entre o fato e a política é antiga, talvez tão antiga quanto a política. A gente já encontra chamamento aos fatos tanto na república de Platão como na política de Aristoteles, com ênfases diferentes. Aristoteles é muito mais enfático e adota critérios práticos e realistas, para avaliação da conduta política.

Eugênio Bucci: "A imprensa é um discurso interminável, é fluxo discursivo que não tem final"
Eugênio Bucci: “A imprensa é um discurso interminável, é fluxo discursivo que não tem final”

Mas gostaria de destacar uma narração Hannah Arendt, que está em ‘verdade e política’, texto que ela publica pela primeira vez, aliás, numa publicação jornalística do ‘New Yorker’, em 1967. Nesse texto, ela mostra que as funções de verificação dos fatos precisam estar protegidos em relação aos interesses políticos mas, são funções que desaguam na política entre elas está a função do historiador, do juiz, da testemunha, e da função do repórter e do jornalismo e, precisam de proteção para que não sejam capturados pelos interesses estritamente políticos. Nesse sentido os fatos dariam o alicerce, partir do qual, seriam edificadas as opiniões. Ela diz; ‘os fastos devem lastrear as opiniões e elas divergirão mas, não sobre a constatação dos fatos’, relembrou Eugênio.

Verdade factual
Um debate político fecundo tem um acordo relativo sobre o que é o domínio dos fatos. “Essa profusão de robôs e fraudes, que se passam por notícias, contribui um pouco para que nós pecamos no horizonte, nos termos de Hannah Arendt, na verdade factual. É claro que nunca chegaremos num acordo satisfatório sobre onde termina o fato e onde a versão, a opinião, a interpretação. Mesmo sendo a verdade factual, é uma condição sempre controversa. A própria noção de verdade é traiçoeira. Hannah Arendt, se preocupa em separar o que é a verdade factual, do tema da verdade na filosofia, do tema da verdade na ciência, do tema da verdade na religião, que evoca a fé, sendo de uma outra natureza. A verdade factual é tecida de coisas simples sob a constatação que estamos aqui e agora, num determinado endereço, tratando de certas coisas, num determinado número de pessoas”, apontou.

Formador de opinião
“O papel do jornalismo, no debate público, em formar cidadãos ou a educar cidadãos, talvez o papel da imprensa não seja formar cidadão nenhum. A formação crítica dos cidadãos é que pode ser uma das resultantes da atividade do jornalismo e da imprensa em verificar os atos do poder, fiscalizar o exercício de poder e criticar o poder. A imprensa, num circulo virtuoso, na melhor das hipóteses poderia ajudar a sociedade a manter contato com os fatos no curso do debate público e no curso do enfrentamento das opiniões. Fica muito claro, vivemos num país e numa cultura política que não entendeu o papel da imprensa, não entendeu o conceito de imprensa, básico e liberal, e não entendeu a relação dessa instituição, não estatal, com os debates políticos, na melhor das hipóteses, nós pensamos que a imprensa é um vaso condutor de relatos confiáveis. Se alguém dizer que as pessoas tem direito as informações, quem vai dizer se a informação é verdade ou mentira? Essa incompreensão acarreta uma série de distorções que prejudicam o ambiente para que a imprensa possa cumprir o seu papel”, avaliou.

Notícia completa
Antes de começar a corrida eleitoral o Tribunal de Justiça Eleitoral se mobilizou para lançar algumas ações em combate as fake news, Eugênio tem a percepção que isso “nos causa um arrepio. Porque pode alimentar pretensões censórias que acabam produzindo um efeito pior do que o mais nefasto resultado das fakes news. Nesse momento, além de haver uma comissão do Estado, que tem até justificativa de existir mas, é preciso tomar cuidado na direção que ela seguir, surge agora o Congresso Nacional com uma série de projetos de lei para combater as fakes news. Quero destacar uma pérola, um projeto propondo maneiras de enquadrar e punir notícias ‘prejudicialmente incompletas’. Nessa expressão, eu localizo para efeito da discussão desse seminário, a incompreensão da cultura política brasileira sobre o papel da imprensa, porque toda notícia é incompleta. Nenhuma notícia é completa, isso é uma impossibilidade teórica, além de ser um oximoro a ideia de notícia completa. Justamente por não dar conta da verdade, a imprensa precisa se atualizar constantemente. A imprensa é um discurso interminável, é fluxo discursivo que não tem final. Ela sempre está se corrigindo, isso é o porquê do jornal sair no dia seguinte, ele é um discurso insatisfatório. Além da justificativa oficial que as coisas mudam, os conceitos mudam, o modo de olhar muda, a interpretação muda. O melhor da imprensa é uma sociedade debatendo consigo mesmo, abertamente. Então, por definição toda notícia é incompleta e ao mesmo tempo, por definição, toda notícia é prejudicial a um dos interesses em disputa na arena pública, porque, se não prejudica ninguém, uma informação não é notícia, ela não vai para a primeira página, ela não vai para ‘home’, ela não será comentada. A notícia, por definição, muda expectativas, trás críticas, trás incomodo, eu estou falando só de fatos, não estou falando de juízo de valor. Esse é o país, essa proposta de lei é o retrato do país. Se uma cultura política não entende o que é news, como é que quer combater fake news? Essa é a constatação que me incomoda”, frisou Eugênio.

Eugênio Bucci é articulista quinzenal em O Estado de S. Paulo. Graduado em comunicação social e em Direito pela USP, doutor pela Escola de Comunicação e Artes da USP, onde atualmente é professor titular do Departamento de Informação e Cultura.
Eugênio Bucci é articulista quinzenal em O Estado de S. Paulo. Graduado em comunicação social e em Direito pela USP, doutor pela Escola de Comunicação e Artes da USP, onde atualmente é professor titular do Departamento de Informação e Cultura.

A imprensa na atualidade
“No presente momento, deveríamos recuperar e inovar, as origens do pensamento político que dá lugar a imprensa. Ora, essa imprensa teria o papel de formar ou adotar para si. Incomodar o poder, qualquer que seja o poder, não estaria exercendo brilhantemente sua função educativa? Entendida como prontidão do censo crítico. Se notícia é sempre incompleta e sempre prejudicial, é também a divulgação de um segredo que o poder gostaria de esconder. Publicar essas notícias, buscá-las, encontrá-las já é algo de maravilhoso, algo que está cada dia mais difícil de fazer, porque a cada dia mais, o poder desenvolve habilidade tentacular para, indiretamente, capturar os movimentos da imprensa. É curioso que o fluxo das fake news, em parte produzidas na Macedonia, que influíram nas eleições de 2016 dos Estados Unidos, tenha passado por algum tipo de acordo envolvendo representantes do candidato (Donald) Trump com representantes do Estado Russo, segundo (Vladimir) Putin. Não estou falando aqui de suposições, estou falando de elementos factuais, que se encontram hoje, abertamente, em debate, sendo investigadas por instituições nos Estados Unidos. Curiosa essa ligação, porque estamos falando de um poder muito obscuro com a associação aos fluxos das falsificações que se desenvolveu na Rússia, que se parece com que se passa na Turquia, na Venezuela, e parece com o que vem esboçando nos Estados Unidos. A democracia está sob ameaça, está em risco e não quero bancar o pessimista. A democracia diminui, perde espaço e isso tem relação com o esquecimento do conceito original e indispensável de imprensa que estamos perdendo”, asseverou Eugênio Bucci.

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