Marle Alvarenga é nutricionista, tem uma ligação forte na área acadêmica, esteve presente no Seminário Internacional “Conexão Comida: Saberes e Práticas na Alimentação”, que aconteceu na unidade do Sesc 24 de maio, em São Paulo.
Jornal Pires Rural – Edição 222 | SÃO PAULO, Janeiro de 2019 | Ano XIII

Marle Alvarenga é nutricionista, fez pós-doutorado, doutorado e mestrado em nutrição pela Faculdade de Saúde Pública da USP. Na esperança de contribuir com uma visão diferente de um nutricionista, apesar de ter uma atuação acadêmica, se envolver em pesquisas e também atender pacientes no consultório, ajudando-os a fazerem suas escolhas, ela esteve presente no Seminário Internacional “Conexão Comida: Saberes e Práticas na Alimentação”, que aconteceu na unidade do Sesc 24 de maio, em São Paulo e fez parte do calendário do evento “Experimenta! Comida, Saúde e Cultura”. 

De acordo com Marle, as escolhas sobre o que comer não são simples, mas determinadas por múltiplos fatores, ligados à própria comida (sabor, valor nutricional, aparência), ao ambiente (disponibilidade, cultura local, mídia), e ao comedor. No caso deste último, a pessoa que come, os determinantes podem ser divididos entre biológicos, socioeconômicos, antropológicos e psicológicos. Portanto, pensar a escolha como algo automático e simplista é equivocado. As motivações para alguém escolher e comer o que come são múltiplas e complexas, e passam por processos (mesmo que não conscientes) de avaliação, decisão, até chegar às ações de fato. “Mas, os estudos que temos até agora, sobre determinantes de escolha e consumo alimentar. chegam sempre a mesma conclusão: a principal escolha é o sabor. Quê uma escolha não será escolhida e consumida, mesmo que ela seja barata ou saudável, se ela não for saborosa”, disse Marle.  

A hierarquia da necessidade da comida

“Primeiramente as pessoas precisam de comida suficiente, precisam também de comida aceitável no sentido de que o alimento faz parte da minha cultura, do meu contexto, da minha situação. Por exemplo, é ridículo propor no nordeste que as pessoas façam uma dieta a base de quinoa, amaranto e goji berry, e por incrível que parece, tem nutricionista que propõe isso nos rincões do nordeste do Brasil. Precisamos de acesso seguro à comida, no sentido de ter alimento disponível e saber orquestrar isso. Outro determinante é que precisamos de comida saborosa, isso vem antes de tentar convencer alguém a comer coisas novas, mesmo com todo impacto da mídia e do capitalismo. Antes de falarem as pessoas comerem, porque é bom”, exemplificou Marle, citando que esses dados são de uma nutricionista americana e provocou; “vocês já viram algum nutricionista fazer uma recomendação para comer alguma coisa porque é gostoso? E, porque não? O gosto deve ser uma coisa cultivada porém, as pessoas, hoje, vivem num dilema entre aquilo que elas gostam de comer e aquilo que elas acham que devem comer. Muitas vezes alimentados por profissionais da área da saúde. As pessoas acham ‘se é muito gostoso, não é saudável ou no mínimo engorda e, se é saudável não é gostoso, isso tudo fica muito complicado. Alguns acham que gostar de comer é um problema, não é um problema. Nós vamos comer até o último de nossos dias. É bom que seja prazeiroso”, descreveu.

Sem se furtar às críticas a sua especialidade, Marle disse que existem 100 mil nutricionistas no Brasil e a maioria foca só nos aspectos biológicos, apontou ainda que nutricionistas pioram a questão, ao colocarem imagens muito simplistas e estigmatizadas, “como se a saúde ou o corpo de uma pessoa dependesse simplesmente de uma escolha direta e individual, como se a gente, de verdade, pudesse escolher entre uma caneta e outra, quando as questões são bem mais complexas. ‘Você é o que você come’, é uma visão absolutamente medicinal da comida”, enfatizou.    

Nesse processo é fundamental pensar a cultura e a sociedade como fatores também múltiplos, focados por outros palestrantes durante o seminário. Esses fatores mudam com o tempo, o local e as influências. Em um mundo hoje muito globalizado e transformado, eles tem efeito também sobre as escolhas alimentares, com ruptura de tradições e valores. Mas, mesmo em meio a essas influências, persistem valores pessoais e familiares, que devem ser pensados e destacados. “Alguns nutricionistas estão pecando na hora de orientar seus pacientes não considerando o ambiente social e familiar, crenças e valores, além de expectativas da saúde confundidas com a estética. As expectativas do ‘meu comer vai transformar o meu corpo’, essa é uma das demandas que chegam aos consultórios dos nutricionistas, pessoas que desconsideram toda esses fatores e nutricionistas que desconsideram toda essa cadeia para pensar numa dieta dos alimentos milagrosos, que não existem, para perder uma gordurinha aqui do lado”, revelou Marle.

Alimentação é cultura

Com relação a saúde, ela observou que é fundamental considerar  “todos hoje sabem, de alguma forma, da importância de uma alimentação saudável. O acesso à informação se ampliou muito, e nutrição e alimentação estão sendo discutidos em vários cenários e por várias pessoas. No entanto, as pessoas não estão mais saudáveis, física ou emocionalmente”, avaliou. Falar mais de nutrição não faz aos pessoas terem melhores escolhas necessariamente; algumas, na verdade ficam mais neuróticas. Daí a importância de entender as escolhas alimentares em seus múltiplos determinantes, fazer um resgate da comida — que é mais importante que o nutriente — e pensar o comedor além de suas questões biológicas. “O que deve nortear nossas escolhas alimentares? Por incrível que pareça alimentação é cultura. Pode parecer complexo mas, não precisamos orientar as pessoas com foco em saúde, precisamos só em nutrição e saúde? Não! Temos que considerar tudo o que estamos falando aqui, entendemos que comida precisa ir muito além do nutriente. A alimentação vem antes da nutrição, todo mundo precisa pensar assim, inclusive os nutricionistas. Precisamos pensar a nutrição como uma especialidade para alimentação do ser humano, uma nutrição com uma orientação mais alimentar do que nutricional, uma nutrição mais gentil, uma nutrição com mais conexão, com mais saberes, com mais cultura”, finalizou Marle Alvarenga. 

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