engenheira agrônoma Carla de Meo, extensionista, responsável pela Cati - Limeira
Jornal Pires Rural – Edição 225 | LIMEIRA, Fevereiro de 2019 | Ano XIII

A frase do título dessa matéria foi afirmada em entrevista, cujo foco é o cenário da agricultura no município de Limeira, neste período de pós-citricultura, a engenheira agrônoma Carla de Meo, extensionista, responsável pela Cati – Limeira, confirma um quadro preocupante depois da erradicação de pomares de laranja, principalmente, em consequência do greening. O próximo Levantamento de Unidades de Produção Agropecuária do Estado de São Paulo – Lupa/ Cati, irá trazer os extratos e os tamanhos de propriedades, sabemos que 98% são de pequenos produtores com menos de quatro módulos fiscais. O extrato de até dez hectares vai ser uma porcentagem grande. O município tem seis propriedades acima de 100 hectares – uma fazenda grande. Perante esse quadro, a afirmação de que Limeira não tem produção de alimentos orgânicos e a constatação de que a feira do Produtor Rural tem alimentos orgânicos e, que o município cadastra produtores de orgânicos de outra cidade para comercializar na feira local – os moradores de Limeira não comem o que aqui é produzido, simplesmente porque não há produção de alimentos para dar conta da demanda da cidade.

Jornal Pires Rural: Qual é a cultura que prevalece hoje na agricultura do município?
Carla de Meo:
“Quando a gente fala da agricultura em Limeira, a cultura que prevalece é a cana de açúcar. Trata-se de citricultores que estão saindo da citricultura e indo pra cana, ou seja, deixando de ser produtores (isso é uma opinião pessoal), porque (o produtor) perde o arcabouço de conhecimentos que tinha da atividade. Eu acho que a rentabilidade da cana de açúcar é muito instável. E pra retomar o investimento em outras culturas (pós-cana de açúcar) é muito difícil, porque toda a estrutura foi desfeita, ele perdeu um pouco o conhecimento e (a propriedade), provavelmente já estará numa outra geração”.

Jornal Pires Rural: Qual é o cenário agrícola do município pós-citricultura?
Carla de Meo:
“Nós temos um ritmo super forte de erradicação de pomares aqui em Limeira, é possível acompanhar os dados publicados pela Defesa Agropecuária. No momento estamos vendo uma movimentação no sentido de plantar pomares em áreas de risco, ou seja, tira um pomar com greening e planta pomares novos. Isso é super preocupante porque Limeira está sendo divulgada como região de maior incidência de greening, porque as propriedades são minúsculas. O nosso trabalho em parceria com o Fundecitrus ainda é na erradicação de pomares abandonados. A cultura plantada pós-citricultura é a cana de açúcar, mas a sugestão da Cati é mandioca, milho verde e hortaliças. O pessoal da soja são jovens produtores, pós-citricultura – eu diria que é uma coisa mais imediatista, porque está disponível o insumo e o grão é transgênico. Eles acabam juntando terras arrendadas e no final são (em média) duzentos hectares e a logística desse plantio (e colheita) fica complicado”.

Jornal Pires Rural: Qual é o perfil desse pequeno produtor?
Carla de Meo:
São citricultores que produziam para vender as frutas para as indústrias. Eu diria que a gente está com muitas áreas disponíveis para diversificação.

Jornal Pires Rural: Qual é o trabalho que a Cati Limeira está fazendo com o pequeno produtor?
Carla de Meo:
“É um trabalho voltado para grupos de pequenos produtores organizados – porque só tem eu pra trabalhar com todo mundo. São dois grupos, da APAL (Associação dos Produtores Agrícolas de Limeira) e tem o grupo da transição agroecológica. A transição agroecológica é uma política pública que foi proposta pelo governo do estado de São Paulo, secretaria de Meio Ambiente, secretaria de Agricultura e o Instituto Kairós. São quatro famílias certificadas até o momento em Limeira. A certificação ocorre anualmente em função de apoiar a transição da produção convencional através de boas práticas para a produção agroecológica. Acreditamos que a diversificação que o produtor deverá fazer na terra disponível, necessitando de novas atividades como por exemplo, piscicultura, turismo, produção integrada como a agrofloresta, e a ‘galinha feliz’”.

Jornal Pires Rural: O Serviço de Inspeção Municipal – S.I.M. está regulamentado para ‘galinha feliz’?
Carla de Meo:
“Sim. Não teve nenhuma proposição ainda. Eu conheci a produção da fazenda da Toca (que é enorme e, não é parâmetro pra nós), mas, do tamanho da Toca e do tamanho (de um plantel) de cem galinhas a pessoa tem que ter o mesmo nível de conhecimento”.

Jornal Pires Rural: Qual é a situação atual da APAL?
Carla de Meo:
“Falta colocar lá, a parte gestora que vai fazer a articulação. A APAL teve acesso ao projeto Microbacias para financiar um plano de negócios, um empreendimento, poço, prédio, balança, máquinas para beneficiamento, não tem por que não funcionar. Agora, a gente espera que essa nova gestão da Cati (pós-eleições 2018) dê o devido valor e permita que a gente consiga acompanhar. O que nós vamos fazer agora na primeira parte, o curso de boas práticas de fabricação, porque ali dentro os alimentos serão minimamente processados, o prédio já foi adequado. A APAL ainda não está vendendo (alimentos) como associação. E provavelmente terá que constituir uma cooperativa. Esse é um assunto que estamos acompanhando. Ela vai vender a produção para o consumidor local, em primeiro lugar, através do telefone, pela internet, vendas no local (barracão), podemos fazer uma feira lá sede; por onde o vendedor deles forem criativos o suficiente. Na minha opinião, no começo eles vão ter que fazer (vendas) nos mercados pequenos porque a produção é pequena, refeições coletivas e merenda escolar”.

Jornal Pires Rural: O município de Limeira tem fomento e produção de alimentos orgânicos?
Carla de Meo:
“A gente não tem produção de alimentos orgânicos. O produtor orgânico, no Brasil, só é se for certificado. Pra ele (produtor) ter o selo ‘Brasil Orgânico’, ele tem que ter uma certificadora por traz ou o sistema participativo. Se não tiver nada disso não é produto orgânico. Por exemplo, se os produtores produzissem alimentos orgânicos, eles não precisariam participar daquela ‘gritaria’ atual, sobre a instrução normativa da rastreabilidade de frutas e hortaliças frescas porque, ele teria a experiência da planilha e registros – o primeiro requisito para poder buscar uma certificação”.

Jornal Pires Rural: Quantos produtores participam do grupo de transição agroecológica?
Carla de Meo:
“Trata-se de quatro produtores que se propõe a transição de boas práticas de cultivo, através de visitas, reuniões. Eles rumaram para fazer uma certificação participativa depois voltaram atrás. Porque dá trabalho, é necessário visitar os pares, receber as visitas, formar o grupo, ir até a ‘Agricultura Natural de Campinas’ – um organismo de fomento a agricultura orgânica que articula de forma que possa fazer a certificação participativa. Pra fazer uma certificação participativa tem que estar inserido numa organização como essa. Dentro de um grupo, que tem grupos dentro dele. Estamos sempre juntos porque pra agricultura dar certo é preciso assistência técnica e, a assistência técnica que tem é gente querendo vender produtos.

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