Produtos derivados do Cambuci
Jornal Pires Rural – Edição 223 | Piracicaba, Dezembro de 2018 | Ano XIII

O II Encontro sobre frutas nativas aconteceu na Esalq-USP, uma realização do Laboratório de pós-colheita de produtos hortícolas. A mesa: “Desafios da produção e processamento de Cambuci”, trouxe a experiência do produtor Paulo Nakanishi, do sítio Recanto dos Pássaros, de Natividade da Serra (SP).

Em Natividade da Serra (SP), Paulo Nakanishi cultiva cambuci
Em Natividade da Serra (SP), Paulo Nakanishi cultiva cambuci

O produtor Paulo Nakanishi é filho de pai japonês e mãe descendente de espanhóis, sempre moraram no sítio, depois de se aposentar como pedreiro há 16 anos, comprou um sítio em Natividade da Serra. “Eu fui pra lá para plantar verdura porque a região fica no alto da serra, é frio o ano inteiro e muito úmido – e a verdura não vai bem num lugar desses. Então, comecei a ter parceria com a Cati sobre quais frutas se adaptaria ao local, a engenheira agrônoma sempre me dando umas dicas. Mas, tinha uma senhora vizinha, que a minha esposa sempre ia visitá-la que incentivava o plantio do cambuci (na época eu tinha 48 anos). Ela sempre dizia: ‘vocês, Paulinho e Emilinha, vocês são novos, jovens, planta cambuci que vocês são jovens e vão ganhar muito dinheiro’. Toda vez que íamos fazer uma visita pra ela, ela batia na tecla, até que um dia eu falei pra minha esposa: ‘sabe de uma coisa, acho que vou plantar cambuci’. Começamos com um punhado de sementes – o pessoal espremia e fazia um xarope de cambuci – eu fiz cinco mil mudas, em 2006. Não tínhamos experiência como plantar, morreram as mudas, sobraram uns 200 pés”, conta.
O sr. Paulo não desanimou, manteve a parceria com a Cati, com o viveiro de São Bento de Sapucaí, foi conhecendo o pessoal e ganhando experiência. “Aprendemos que o cambuci não se deve plantar com 25 cm (de profundidade), quanto maior a profundidade da cova, melhor (40 ou 50 cm). Aprendemos tudo completamente diferente. Fomos vendo que quando plantamos com amor e carinho, com bastante esterco e matéria orgânica a planta corresponde de maneira fantástica. Começou assim. Hoje são 1.500 plantas de cambuci, 2 mil plantas de araçá amarelo e vermelho, uvaia. Tenho umas 60 variedades de frutas, tudo na beira da cerca. Mas, o carro chefe no meu sítio, que dá o sustento pra mim e pra minha família, é o cambuci”, revela.

As dificuldades
Segundo o sr. Paulo, a dificuldade em saber o que as plantas necessitavam trouxe muitas dificuldades na formação das mudas do cambuci, nos primeiros anos, mesmo assim conseguiu formar 90% das mudas. “O cambuci necessita de muita água e nós não tínhamos condições de corresponder às necessidades da planta. Não pode deixar ele secar, e não germina se for para o freezer. Então, eu espremo e muitas vezes coloco na areia com casca e tudo, espalho bem na areia e cubro com 2 cm de areia – germina todos. Na terra não dá certo porque fica muito úmido e apodrece. Da germinação até levar a muda para o campo o intervalo é de um ano”, explica.
A planta é atraída por um bicho que ataca a quaresmeira. “Nós perdemos 70 pés de Cambuci com oito anos de idade, produzindo. Já foi pesquisado na Apta de Pindamonhangaba, é um besouro grande, ele põe os ovos no tronco e choca, atingem a raiz da planta e quando percebemos já está infestado. E como a gente luta para ter uma produção orgânica (daqui uns três meses conquistaremos o selo Orgânico), aprendemos o controle de outra forma, controlamos pé por pé, limpamos os resíduos e fazemos uma bola de saibro (temos muito no sítio) e fechamos os buracos onde esses besouros estão – eles morrem afogados. É a forma que temos conseguido eliminar os insetos e com essa técnica não perdemos mais plantas”, explicou.

Prof. Angelo Jacomino, o produtor Paulo Nakanishi sua esposa Emilinha e a pesquisadora Poliana Spricigo

A colheita
“Eu, minha esposa e meu filho, trabalhamos como mão de obra, toda manual, fazemos a colheita três vezes por dia. Lavamos as frutas (com água clorada, enxágue) e levamos para a câmara fria (tem capacidade para armazenar 30 toneladas). Esse ano já vendi 12 toneladas de Cambuci. O custo de armazenamento, eu fiz assim, um rapaz vizinho, tem uma queijeira de leite de búfala e propôs usar a minha câmara fria quando estava parada e eu arrendei pra ele. Eu colocava o cambuci na câmara fria noutro lugar separado. O custo da energia elétrica é alto, ele quem pagava. Hoje, a câmara fria é minha e quem paga a conta de luz é o comprador do cambuci e a fruta fica armazenada até quando ele fizer a retirada, em caminhão frigorífico”.

A comercialização
“Neste ano, algumas empresas querem comprar, uma em São Paulo e outra empresa americana; querem a nossa casquinha de Cambuci (farinha). O Instituto Ata, do chef Alex Atala, vende o nosso produto para restaurantes e bares – coloca o nosso produto no mercado de São Paulo. O Instituto expõe produtos no Mercado de Pinheiros em dois boxes, com produtos da Mata Atlântica e da Amazônia e outros com produtos do Cerrado e do Nordeste. Nós colocamos nossos produtos lá. Em São Paulo, o nosso produto está em vários comércios”, afirmou.

A agroindústria
“A nossa agroindústria está quase pronta, vamos produzir geleia. A indústria Cacau Show se interessou pela geleia porque minha esposa e várias pessoas que trabalham na Rota do Cambuci produzem as trufas com o recheio do cambuci – o chocolate doce com o azedinho do cambuci é excepcional. Fazemos o sorvete para servir o litoral norte, pretendemos fazer a geleia e a casquinha. Eu acredito que a farinha tem futuro (no mercado) porque tem uma empresa americana que quer levar, assim que sair a nossa certificação orgânica – somos precursores da farinha do cambuci. O xarope do cambuci é vendido para outra empresa”, concluiu sr. Paulo Nakanishi.

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