Edilson Giacon, Edilson Giacon
Jornal Pires Rural – Edição 223 | PIRACICABA, Dezembro de 2018 | Ano XIII

Edilson Giacon, produtor rural, proprietário do viveiro Ciprest, em Limeira, esteve participando do “II Encontro sobre frutas nativas”, organizado pelo prof. Dr. Angelo Pedro Jacomino (ESALQ/USP), através do Laboratório de Pós-colheita de Produtos Hortícolas, ocorrido no Anfiteatro Jumbão da ESALQ, em Piracicaba.

Edilson foi apresentado pelo professor Angelo como “referência em produção de mudas e métodos de propagação de espécies nativas e exóticas. Um dos fundadores da Associação Brasileira de Frutas Raras”. Expondo o tema “Produção de mudas de frutas nativas”, o qual tem familiaridade pois, é da 4ª geração de sua família nesse segmento da agricultura, Edilson iniciou citando sobre o trabalho no viveiro, onde nos últimos 15 anos diversificaram as variedades de plantas disponíveis, tendo em torno de 1.200 espécies de todos os biomas do Brasil e de alguns continentes do mundo.  “Nosso trabalho consiste em formar mudas que estão em risco de extinção, tem sementes que demoram de 1 a 3 anos para germinar, uma das aventuras, agora, é tentar formar mudas de marfim-vegetal, uma palmeira da região norte do Brasil. Além de ser difícil de tirar a semente de sua capsula, ela demora mais de 7 anos para germinar. A semente esculpida dá pra fazer botões, pentes e outras peças de artesanato pois, se parece com um marfim, é bem interessante”, apontou.

Durante sua exposição, Edilson mostrou diversas fotos de espécies peculiares como o mini abacaxi que serve para decoração, “esse abacaxi é uma fruta doce, dá para fazer geleia com a casca e polpa mas, o valor principal dele é quando cortado com o talo comprido em um feixe com doze frutos e vendido para o pessoal de floricultura e pra quem faz buffet. Serve como colher para enfeitar coquetel, o valor de cada fruto pode chegar a cinco reais”, ele orienta.

Árvore do Imperador (Chrysophyllum imperiale)
em Sydney, na Austrália – foto:Cas Liber/Wildflower Society/SGAP

Do imperador 
Na sequência, Edilson começou a contar a história da Fruta do Imperador ou Árvore do Imperador (Guapeba – Chrysophyllum imperiale). “Ela era adorada pela família real. Apreciada pelo Imperador D. Pedro I e igualmente pelo seu filho, D. Pedro II, era distribuída por eles quando faziam viagens pelo exterior. Chama atenção suas folhas, que são lindas, chegando a ganhar prêmios internacionais como folhagem mais bonita e planta mais rara. O fruto é parente do abio, bem saboroso, só que meia dúzia de pessoas experimentaram no Brasil pois, é uma planta considerada extinta na natureza. Por isso digo que é importante plantar e, não adianta a gente querer nossas frutas somente pra gente porque, essa Fruta do Imperador, até pouco tempo ela estava na lista de plantas extintas no Brasil. Se não fosse um jornalista português, Pedro Foyos, visitando o jardim botânico de Portugal, em suas pesquisa não achava quase nada sobre ela, quando cruzou com essa planta no local, presente de Dom Pedro II. Descobriu-se que ela estava extinta no Brasil. Normalmente leva-se de 12 a 15 anos para frutificar, fazem 5 ou 6 anos que eu consegui uma planta, acredito que em 6 anos deva produzir, ela veio de uma descendente do Jardim Botânico de Sydney, na Austrália (Royal Botanic Gardens), também presente de Dom Pedro II. Só que depois que ela ficou famosa, através dos noticiários, começaram a buscar a planta chamando de “resgate do último imperador”, descobriu-se plantas na mata da reserva do Rio Doce (MG), outra próximo a cidade do Rio de Janeiro e outra em São Paulo. Não quero revelar a localização para evitar depredação. Na época do Império, já estava quase em extinção, era usada para mastros de navios, pois ela cresce bem alta e estreita. Talvez ela seja a primeira planta que foi perseguida politicamente no Brasil, porque quando foi proclamado a República e, ela era a planta preferida do Imperador, era bonito cortá-la, foi assim com as quatro plantas existentes no Jardim Botânico do Rio e as plantas achadas nas matas, eram todas dizimadas. Por tudo isso ela entrou na ‘Red List’ das plantas em extinção. Essa lista é um livro vermelho que também tem pássaros, fungos e outros animais de cada país que está indo embora”, destacou.

Métodos de produção
Entremeando as fotos, Edilson citava a maneira de propagação de cada espécie, se era conduzida por sementes, estaquia ou enxertos. Sobre as frutas ele disse que a cor da casca em tom verde não atrai muito os consumidores, “as frutas que fazem mais sucesso são de amarelo para o vermelho ou vinho”. Entretanto, citou que a goiaba branca era a preferida dos brasileiros até pouco tempo atrás mas, a situação se inverteu e agora a preferência fica pela goiaba de polpa vermelha, “talvez por influência de resultados de pesquisas indicando que frutas de polpa vermelha tem mais vitaminas. Tenho um cliente de Minas Gerais que queria plantar goiabas vermelhas e arrancar todas as goiabas brancas porque doce branco não tem graça, dizia ele. Ao invés de arrancar, você não tem mais terra? perguntei a ele. Hoje, quando você vai no mercado de Poços de Caldas, um dos doces que mais vende é um de várias camadas branca e vermelha, então, ele fez um vidro muito bonito pro doce. É preciso apresentar bem o produto, seja uma fruta ou um doce”, opinou.

A pindaíba é outra planta que precisamos formar um porta-enxerto da família, que seja mais fácil de germinar e crescer mais rápido”

Pindaíba ou pindaúba, “pra quem conhece, tem duas versões pra que uma pessoa esteja na pindaíba, eu acho a mais correta por causa dessa fruta. Quando ela está na hora da colheita, você encosta a mão pra pegar, cai 40 a 50 gominhos que formam o fruto, despencando no chão. A comparação é que a fruta está despencando e a pessoa também está despencando, por isso o termo”, brincou. Outras características da Pindaíba é ser uma planta que demora até 2 anos pra germinar a semente, outros 2 anos pra ter um tamanho bom para venda, e é muito rara, faltando semente para formarem mais mudas. “A pindaíba é outra planta que precisamos formar um porta-enxerto da família, que seja mais fácil de germinar e crescer mais rápido, pra poder enxertar, pra poder vender mais e evitar risco de extinção e baratear o alto custo da muda”, descreveu.

Abio da região Amazônica, tem o fruto com mais de um kilo

Uma das espécies de abio mostrada, vem da região Amazônica, tem o fruto com mais de um kilo, “é um fruto bem grande, quase impossível comê-lo sozinho, é bem doce e tem apenas uma semente, é uma das plantas que para garantir um fruto graúdo tem que ser enxertada ou multiplicada por clonagem. Quando plantado por semente pode degenerar bastante”, explicou.

Anona da caatinga da Bahia, quase desconhecida dos brasileiros

Anona da caatinga da Bahia, “quase desconhecida dos brasileiros é uma fruta saborosa, come-se a casca e a polpa interna, tendo uma coloração bem laranja quando está madura, e só descartando as sementes. Foi introduzida, em nossa região, por Harri Lorenzi, do Instituto Plantarum, que encontrou algumas sementes mumificadas de algumas plantas e conseguiu germinar na Bahia. Por causa de sua coloração está sendo usada como PANC em alguns restaurantes”.

Edilson ainda revela sua experiência em “muitos anos formando mudas, a gente toma o cuidado de pegar uma planta para produzir a muda a partir da semente, ela tem que estar isolada, não pode ter de outras folhas e outros tamanhos por perto, isso é uma garantia de que não vai ter cruzamento, porque até de 500 metros vem pólen de uma para a outra e podem formar diferentes frutos”, citou.

Divulgação
“Eu quase que parei de formar plantas. Quando tinha 8 anos, existiam na família, uns 60 Jacon ou Giacon com viveiros de mudas em Limeira. Agora tem apenas meu filho e mais um primo que persistem mas, com a internet e a facilidade de divulgar as plantas, as coisas estão mudando, tanto que meu filho, há alguns anos atrás pretendia estudar e seguir outra profissão. Ele vem mudando de ideia, organizamos mais a empresa e ele quer continuar. O que é interessante, era que antes quando eu descobria uma planta nova, tinha que enviar uma carta para o Instituto Biológico ou outro órgão, para tentar identificar e, isso demorava muito, entre 6 meses até um ano e, muitas vezes vinha uma resposta negativa. Hoje, existem grupos de identificação de plantas, principalmente no Facebook, que em algumas horas dá pra identificar uma planta rara ou chegar próximo da identificação. Porém existem certas exceções, como uma cereja de Santa Catarina de frutinhos amarelos que está há mais de 3 anos no grupo e ninguém conseguiu identificar até agora, provavelmente é planta nova que ainda não está catalogada”, observou.

Pesquisas acadêmicas
“Mexendo com plantas e ajudando meu pai tirar sementes, tirar folhas das borbulhas para enxertar, sempre vi que não existiam verbas pra pesquisa mas, posso falar que nos últimos 15 anos parece que está mudando a situação, tanto é que a Esalq e a Unicamp começaram pesquisas com as “super frutas” como o bajaí, a grumixama, cereja do rio grande, bacupari mirim e o araçá piranga, esse por exemplo, quem quer uma árvore bonita na frente de casa pode planta-lá, o tronco dela é cor de ferrugem meio bronze e liso. O bacupari mirim foi mostrado em um Globo Repórter citando que as pesquisas indicam que ele combate 5 tipos de câncer. Foi a partir dessa pesquisa que veio mais verba pra continuar os estudos com a grumixama que tem vários tipo como a amarela, roxa, a mini, deve existir umas 15 variedades que se diferenciam em sabor. Eu procuro apoiar essas pesquisas com a rede de contato de pessoas, desde quando comecei a trabalhar nesse segmento, ainda criança. Eu sou muito aberto quando falo do cuidado com as plantas, as técnicas de reprodução não quero segurar só pra mim. Sempre quando faço uma colheita de frutas boas trago para pesquisa e também recebo muitos pesquisadores no meu viveiro”, falou.

Retorno ao produtor e Agrofloresta
“Existem empresas especializadas que formam 200 mil mudas por ano e quando custo está em alta, plantas pequenas de 30 cm podem valer até R$10,00 por atacado e quando o mercado está em baixa de R$3 a R$4 mas, mesmo assim dá um retorno muito bom para o produtor de mudas”, revelou Edilson.

“Acho que uma das partes mais importantes das mudas nativas é trazer as pessoas para o campo novamente. Nas grandes cidades, nem Polícia consegue entrar nas comunidades que as pessoas moram espremidas, sem acesso e com baixa qualidade de vida. No campo não falta alimento, é fácil andar pelas estradas e achar uma fruta, agora, na cidade se não tiver dinheiro não compra nada, por isso até roubam. Uma agrofloresta é uma floresta com muitas variedades misturadas, tem tanto árvore madeira de lei como árvores frutíferas. Aí as pessoas perguntam se isso dá lucro? Dá, bastante lucro, porque se reduz muitos gastos, já não entra trator ou nenhum maquinário, nenhum inseticida pois, geralmente são plantios orgânicos, como está plantado bem misturado são poucas as pragas, fora que hoje as pessoas já dão preferência pra consumir um fruto que não é tão bonito na aparência porque sabem que tem menos veneno. Visito muitas propriedades e alguns produtores de tomate e batata tem um cantinho com umas plantas todas feias e quando pergunto se tem aquilo pra evitar pragas, eles dizem que é para o consumo da família, porque se não tiver bonito o mercado não aceita. O SAF (Sistemas Agro Florestais) é possível plantar em muitas áreas e, se a legislação não estiver pronta pra isso é questão de se unir e modificar, para poder plantar em todas as áreas da propriedade e colocar todas esses frutas, que falei, para produzir sem a utilização de agrotóxicos, adubação química e principalmente o agricultor vai ganhar muito devido as inúmeras variedades e, ele não vai ficar dependendo do atravessador, saindo daquela conversa para plantar tal coisa que está com preço bom e depois de plantado, na hora de vender pra esse atravessador a coisa muda, aquele negócio que estava bom o mercado piorou, só naquela época tava boa, etc. Hoje, é muito comum quem faz Agrofloresta fazer cestas com produtos diversificados e entregar diretamente. Ao meu entender isso segura bastante o pessoal no campo e gera renda. A gente sabe se ganha bem, por aquilo que sobra e não por aquilo que entra”, concluiu Edilson.

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