Jornal Pires Rural – Edição 221 | SÃO PAULO, Outubro de 2018 | Ano XIII

Fernanda Carvalho, jornalista da TV Nação Preta, de Porto Alegre-RS, participou da mesa de debate “Como o jornalismo se prepara para cobrir as questões identitárias com responsabilidade?” Ela é ativista do movimento negro, criadora do Projeto “Em Negritto” – que produz textos sobre negritude e feminismo. Por três anos apresentou o “Nação” – programa premiado sobre história e cultura negra produzido pela TVE-RS e pela TV Brasil. Foi âncora do telejornal “Panorama”, da TVE, e hoje está à frente da web tv com “Nação Preta” – um programa com pautas ligadas a questões da negritude.

Fernanda Carvalho, jornalista da TV Nação Preta, de Porto Alegre-RS. Ela é ativista do movimento negro, criadora do Projeto “Em Negritto”.

A jornalista deu início falando de si mesma e de como lida com a questão identitária dentro do jornalismo. “Já, na faculdade – onde obviamente somos minoria de negros e de mulheres negras, ainda mais que fiz faculdade em Brasília e não tem numericamente falando, negros – o espaço da academia era de homens brancos. No início do curso eu percebi que se eu não levasse (para o debate) os trabalhos, a negritude, isso não seria tocado. Então, logo ali, percebi o que significava ter uma jornalista negra naquele espaço. Aliás, jornalista-negra virou codinome mesmo. Muito cedo eu virei a ‘jornalista-negra Fernanda Carvalho’. E isso tem uma importância, porque desde o início eu tive que lidar com a questão da imparcialidade, que é o que a gente aprende no primeiro semestre da faculdade de jornalismo. Percebi que ser imparcial naquele meio, onde a minha voz às vezes era a única a ecoar – vozes de tantas outras pessoas como eu, não chegavam naquele espaço – ser imparcial ali era ser irresponsável. Eu tinha que ter essa responsabilidade porque essa imparcialidade tem cor, tem gênero, tem classe social – então, não dava pra eu ser imparcial ali naquele meio”, revelou.

Fernanda foi fazer o programa televisivo “Nação” – um programa de cultura negra. “Eu era uma jornalista negra fazendo um programa sobre negritude. O que me colocava num lugar muito confortável, inclusive na visão de fora, porque quando chegava a jornalista negra, a pessoa (a ser entrevistada) tomava um susto porque, não era aquilo que ela tinha esperado. Eu estava ali porque era uma condição ser um(a) jornalista negro”, explicou.
Depois de dez anos de formada Fernanda foi parar no “Panorama” – um telejornal da TVE. “Eu acho que por si só, isso foi muito pontual e demonstra o que é ser uma jornalista negra no jornalismo brasileiro. Formada há dez anos, estava fazendo um trabalho que precisava ser feito por uma jornalista, simplesmente. Eu sempre tinha sido chamada ou minha carreira foi sendo guiada para onde precisava de uma jornalista negra. Então, consegui mostrar que consigo fazer muitas coisas, inclusive. E aí, tive então, que sair da minha zona de conforto e lidar com uma redação que é majoritariamente branca – isso é a realidade brasileira, que é pensado basicamente por homens brancos”, afirmou.

A TVE é uma fundação, a admissão de profissionais é realizada por concurso público com sistema de cotas, desta forma traz uma dinâmica de profissionais um pouco diferente da rede privada. “Ali aconteceu de novo de eu ter que lidar com a questão da imparcialidade. Eu não podia de novo passar ou ser irresponsável com as vozes que eu levava pra dentro da redação, onde eu era minoria e fora dali (principalmente no Rio Grande do Sul) somos minoria. E eu sempre conto uma história que eu passei, pra mim ilustra muito o que é a redação de jornalismo”, destacou.

Dia da Mulher Negra
“O dia 25 de julho é comemorado o dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, estabelecido nacionalmente como o dia da Mulher Negra e o dia do Colono no Rio Grande do Sul (eu não sabia da coincidência). Nessa época, eu não participava de todas as reuniões de pauta. E bem naquele dia quando eu perguntei, qual é a pauta de hoje? Porque hoje é o dia da Mulher Negra. Me disseram: ‘Como assim?’. Pra encurtar a história tivemos que reformular o programa todo em três horas, porque eu briguei pela pauta. Eu disse: Gente! Não dá! Eles disseram: ‘Então, a parte da externa (gravação), a gente faz com alguém super bacana! Vai ser a negra com os colonos no palco e, a italiana falando com a mulher negra. Vai casar muito bem. Vai dar super certo’, afirmou.

De acordo com Fernanda, a parte da reportagem sobre a vinda dos colonos tinha cinco minutos e, brigou para que tivesse pelo menos, o que seria uma imparcialidade, e foi feito um programa de estúdio. “Se parar e pensar, se não tem uma mulher negra na redação, ninguém sabe sobre o dia da ‘Mulher Negra’. Isso ia passar batido? É isso o que acontece. A gente defende o jornalismo com sensibilidade de pessoas, que não tem essa sensibilidade – muitas vezes porque não foram, inclusive, ensinadas. Existe uma outra população com faltas importantes também. E aí, a gente se volta para a pergunta desse debate: De que forma o jornalismo se prepara para cobrir pautas identitária com responsabilidade? A minha experiência sobre esse assunto é de que o jornalismo não se prepara. Quando se fala na questão dos negros, não se prepara e isso tem consequências muito, muito sérias, num país que tem mais da metade da população de negros. Isso fica realmente muito complicado. Entre as consequências, ser negro é uma construção social. A gente nasce com a pele escura mas, não é aí que a gente se torna negro. A gente se torna negro, quando a gente aprende o que é que isso significa socialmente, num país como o nosso. É a partir desse momento que a gente aprende o que é ser negro no Brasil. Aí, que a gente aprende a se defender do racismo brasileiro, que também é bastante peculiar”, avaliou.

Segundo Fernanda, da forma como o jornalismo brasileiro trabalha essa dinâmica, impede esse tipo de identificação, porque ele inviabiliza e reforça o mito da democracia racial. “Não sou eu que estou dizendo. Acho que todos aqui já ouviram, se a gente liga a televisão brasileira, a gente se sente na Dinamarca e isso não é só. Visualmente falando, se analisarmos as pautas do jornalismo isso também está (presente) ali”, afirmou.

O Seminário de Jornalismo teve o objetivo de propor uma reflexão sobre as práticas jornalísticas na atualidade e o desempenho da imprensa como agente de formação da consciência política e social

Para a jornalista, a impressão que se têm, através do jornalismo, é que o racismo não é um problema, e que de fato exista num país como o nosso. “Eu destaquei três tópicos que mostram muito o que acontece. O primeiro, a invisibilidade, me incomoda muito e, o que me choca é a questão do genocídio da juventude negra (morte de uma população, de um público específico). Vivemos num país super violento. Não sabemos se vamos voltar pra casa. Estou falando de genocídio mesmo – 83 jovens negros mortos por dia, são 28 mil jovens mortos por ano. Isso não é tratado como um problema pelo jornalismo brasileiro. O caso dos cinco jovens assassinados em Madureira, RJ, quando voltavam pra casa depois de comemorar o primeiro emprego quando, o carro em que eles estavam, foi alvejado com 111 tiros, aquela reportagem foi gravada como algo violento: ‘Olha, como está o Rio de Janeiro!’. Em nenhum momento aquilo foi tratado como o que acontece com jovens negros no Brasil – isso é inviabilizar o problema, é impedir que a gente enxergue e tente combater esse problema. Acaba virando o problema do ativismo negro.

Fernanda entende que somente o jornalismo poderia ajudar nesse processo, dando visibilidade de fato ao que está acontecendo. “Trago o segundo tópico, onde temos a questão da insensibilidade. É difícil cobrar dos homens brancos, que são responsáveis pelas redações, que eles tenham sensibilidade com um público que é tão diferente. O exemplo disso são os crimes de racismo. Na hora de denunciar, o rosto que aparece é o da vítima (e isso é padrão). Os jornais têm todo um cuidado com a imagem do agressor e não se tem o cuidado com a vítima. Aí está um ponto de insensibilidade desse jornalismo branco, que a gente enfrenta hoje”, destacou.

“O terceiro ponto, eu tenho dúvidas (porque eu acredito na humanidade) se é maldade ou se é uma falta total de noção do outro. Casos como aconteceram na Copa do Mundo, matéria do jornal O Globo, onde o jornalista comparava o jogador que ‘parecia um animal correndo, saindo do cativeiro’. Não dá para um jornalista fazer esse tipo de associação sabendo o que é a história do negro no mundo. Será que isso foi realmente de propósito? Isso não pode acontecer”, apontou.

Segundo a jornalista as soluções para isso são muitas. Uma delas é a necessidade de mais pessoas negras nos bastidores, inclusive professores negros. “É muito bacana ter cabelo crespo na frente da televisão, ver a Maju na previsão do tempo mas, a gente precisa mudar essa mente pensante, precisa dessa diversidade nas redações, que essas outras pessoas também tenham acesso a esse espaço, porque a minha experiência me mostrou a diferença para a representatividade, da visibilidade”, avaliou.

Fernanda ainda conta que estando na frente da câmera, ela tinha uma visibilidade para pessoas como ela. “Mas, se não estamos no tempo pensante não temos a representatividade, a gente precisa chegar. Não dá pra depender só disso. As pessoas não negras que se propõe a fazer um jornalismo sério, imparcial e combativo, precisa abrir espaço e ecoar essas vozes, com essa responsabilidade, para que essas pessoas sejam representadas com responsabilidade no trabalho final. Eu não preciso ter uma mulher negra na minha redação, para entender que o dia 25 de julho é o dia da ‘Mulher Negra’, que mereça ser citado. Coloco para nós negros a responsabilidade de fazer essa mudança enquanto público, inclusive. Enquanto mídia comercial, nós (negros) somos consumidores. Acho que esse processo, já está acontecendo de maneira mais incisiva principalmente em produções. Se não me representam não assisto. Não prestígio. Estamos na internet com ‘Nação Preta e ainda percebemos a necessidade de uma mídia negra”, ela abordou.

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