Eu encontrei Eliza Gabriel da Costa, na praça Toledo de Barros, em Limeira, no dia 29 de setembro, no dia do “Movimento Mulheres Contra Bolsonaro”. O meu pedido para entrevista-lá têm o objetivo de falar o quanto o movimento de mulheres, que abarca as mulheres de todas as cores e origens, é importante nesse, que antes de tudo, é um movimento racial e de classe. Pois, as mulheres definirão a eleição presidencial de 2018, enquanto maioria, e negras. Desta forma, solicitei a entrevista com Eliza, presidente do Conselho Municipal dos Interesses do Cidadão Negro – Comicin, participante do Conselho Estadual da Condição Feminina e também do Conselho Estadual de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra; conversarmos sobre a condição e consciência negra nesta eleição.

Eliza Gabriel da Costa, ao centro da foto de camisa branca. Da esquerda para direita: Pâmela Arado, Silvana Arado, Nicinha Lopes, Silvana Silva, Eliza Gabriel, Valéria Venâncio e Nilmara Venâncio

Eliza Gabriel da Costa, garcence que conquistou o título de cidadã limeirense, desde 2006.
Pergunto se o titulo de cidadã é importante e porquê?
Eliza Gabriel da Costa:
Sim. É importante. Eu passei minha adolescência lá em Garça, SP, e vim pra Limeira. Limeira é uma cidade que me acolheu. Foi aqui que eu terminei meus estudos, fiz magistério e sociologia. Trabalhei como professora na Prefeitura Municipal de Limeira e lá fiquei 30 anos (se aposentou há 10 anos). Então, essa cidade me acolheu e aqui eu pude desenvolver muito mais coisas na questão racial (essa luta) já vem de nascença, dos meus pais, Luiz Gabriel da Costa e Malvina Geralda da Silva Costa. Eu vim (pra Limeira) com o meu irmão Hélio Benedito da Costa (falecido) que nos trouxe. Chegando aqui, essa cidade me acolheu.

Como se deu a sua militância negra em Limeira?
Eliza Gabriel da Costa:
Eu nasci num lar negro com um pai consciente que sempre falou: ‘Filhos! Nós negros e negras – éramos três homens e três mulheres – temos que vencer por nosso esforço. Temos que estudar. O que o branco faz, nós (negros) temos que fazer duas vezes melhor’. Então, já viemos com essa consciência. Chegando aqui, eu já fui atrás de algumas coisas. Na escola (lecionando), procurava dar mais oportunidades para alunos negros porque eu tenho a experiência de quando estudava lá em Garça, no primário. Aquele tempo a gente desfilava (em datas cívicas) e eu, negra, nunca era chamada pra nada. Eu sou alta e a gente falava que tinha o “pelotão” dos altos para os mais baixos e os eventos eram organizados assim, como alta ficava lá atrás. E uma menina branca sempre era chamada. Eu ser porta-bandeira? Jamais! Declamar nos eventos? Jamais! Eu sempre passei por isso e quando cheguei na sala de aula para lecionar, fiz diferente. Nós vivemos num mundo de brancos, apesar de sermos 51% da população com essa miscigenação mas, você olha e não vê os negros. Existe uma invisibilidade total dos negros. Se você vai nos lugares você não os vê. Eu tenho amigas negras, professoras, na época que eu lecionava – elas dando aulas nas escolas do Estado e eu nas escolas do município – quando nos encontrávamos elas me diziam: ‘Gente, onde está o nosso povo (negro)?’ Quando (os alunos) ficavam todos no pátio da escola, pra cantar, eu olhava e não os via. E mesmo agora (atualmente), quando vou à algumas escolas fazer palestras, estou vendo mais negros nas escolas, consigo enxergar uns 30% de alunos negros.

Onde estão os negros?
Eliza Gabriel da Costa:
Não vejo negros trabalhando no comércio. Atualmente, nem em campos de futebol, não vemos mais. Digo isso porque tenho uma amiga que é mãe de jogador famoso e nós vamos acompanhá-lo nos jogos. No campo de futebol vejo uns 5% de negros. Acredito que um o valor do ingresso também seja uma limitação para a presença de negros nos campos de futebol. Isso é triste. Por isso, precisamos encorajar, dizer que somos capazes, somos iguais.

Onde está a maior dificuldade?
Eliza Gabriel da Costa:
O negro tem que acreditar mais nele. Ele tem que dizer: ‘Eu posso! Eu sou capaz! Sou igual’. Apesar de que a sociedade quer nos deixar desigual. Muito! Nos dias de hoje, eu tenho pessoas que são amigas, que trabalharam comigo. E quando eu vou a alguns lugares as pessoas me olham diferente quando me veem chegando, em certas situações me sinto nua.

E como você se comporta nessas situações que perduram até hoje?
Eliza Gabriel da Costa:
Eu ignoro. E falo para as minhas sobrinhas: Nós podemos! Se aceitem!
Se me disserem: ‘Olha aquela mulher preta’. Eu sou. Não me afeta. E minhas sobrinhas também são assim. Se meus antepassados são negros como é que eu vou me sair branca? Então, as minhas sobrinhas mostram esse empoderamento. Elas sentem também o preconceito.
Hoje em dia, esse preconceito e esse racismo existe todos os dias e toda hora. Muitas vezes se vê no olhar (da atendente), quando se entra numa loja. Eu vou a muitos lugares e quando eu chego me sinto despida. E é isso que o negro tem que ter, essa força. Porque se não tiver, ele não volta naquele lugar que foi recebido com preconceito. Diz: ‘Ah! Eu não vou lá porque me olham como se me dissessem: O que é que você está fazendo aqui? Aqui não é lugar pra você’.
Saí com a minha sobrinha, ela tem a pele mista, fomos num café chic da cidade. Eu entrei com os meus dois sobrinhos com idade entre 10 e 15 anos, o funcionário estava com uniforme de chef, eu percebi que estava demorando para nos atender e, quando nos atendeu, enquanto a minha sobrinha olhava o cardápio o rapaz nos disse: ‘Olha, a gente não aceita Vale Refeição’. Eu disse: Ah! Tudo bem! Mas você aceita (cartão) Ouro Card? E continuamos ali. Depois que saímos do café, a minha sobrinha me disse: ‘Tia, eu sofri uma descriminação, lá! A sra. viu?’ Eu falei: que horas, bem? Ela respondeu: ‘Quando ele (funcionário) disse que não aceitava Ticket Alimentação’ – mas o funcionário havia disto Vale Alimentação.
Numa outra situação, no shopping com minha amiga branca, no lançamento de um livro de uma escritora famosa da sociedade e ela sentiu que eu fui tratada com preconceito. São sempre os proletários, a moça passava por nós e demorava a nos servir. Também acontece muito nos condomínios. Eu não vou chegar nos prédios sem ter agendado a visita, sem ter sido convidada para o café da tarde. Mas os porteiros não são preparados para atender sem preconceito e descriminação.

Como você entende a condição dessas pessoas que agem com descriminação no ambiente de trabalho?
Eliza Gabriel da Costa:
Eu digo isso para nós lá de casa, que nós temos que ter um olhar diferente. Sabe porque digo isso? Porque um primo meu (já falecido) foi ao atendimento do hospital Medical e esperando para ser atendido no plantão, quando chegou um negro e disse: ‘Boa noite!’ Meu primo respondeu e continuou olhando para o negro que respondeu: ‘Pois, não?!’ Meu primo disse: ‘Estou esperando o médico!’ E o negro era o médico que ia atendê-lo. Você vê!? O meu primo pediu mil perdões. Depois disso ele falava para todos nós: “que vergonha!”.
Uma vez aconteceu comigo na escola dando aula, quando chegou uma senhorinha, lá do Paraná, ela estava com aquelas sacolas de plástico e de saia comprida porque era evangélica. Ela foi entrando e eu disse: Pois não! Ela disse que procurava pela diretora. Eu fui até as funcionárias da escola anunciar e, não imaginei que era uma professora. Mas eu fiquei tão chateada, depois desse fato. Como nós podemos? Está na nossa cabeça. Eu estive à frente do centro de difusão da cultura afro brasileira (há seis anos atrás) que funcionava na secretaria da educação. Eu fui na secretaria da educação de Santa Gertrudes com a motorista. Quando eu estava pegando minha pasta para descer do carro, a motorista me disse: Eliza, eu vou ao toalete. A motorista entrou na escola e a Secretária da Educação veio com toda pompa ao encontro dela – porque ela é branca. A Shirlei disse: ‘eu não sou a Eliza. A Eliza está vindo’. Foi uma situação tão desagradável. Ficou aquele climão entre nós duas – e eu estou falando de um passado recente.

Posse de Eliza Gabriel como presidente do Conselho Municipal dos Interesses do Cidadão Negro – Comicin 2018

Como está organizado o movimento negro na cidade de Limeira?
Eliza Gabriel da Costa:
Nós temos o Conselho Municipal dos Interesses do Cidadão Negro – Comicin – são dezessete membros, eu estou presidente. Na sede do Comicin temos aulas de língua portuguesa para os haitianos – a turma cresceu para 60/70 alunos – com um pólo na Escola Maria Paulina, no bairro Novo Horizonte, outro na escola José Justino, no bairro Santa Eulália. As aulas são ministradas por oito professores brancos e os haitianos são bem pretos. Esse trabalho já envolveu o Sesi, numa ação. Temos o Grupo das Crespas e Cacheadas, o Grêmio Recreativo Limeirense, o Ginga.

As mulheres negras têm a noção do poder que elas têm nessa eleição 2018?
Eliza Gabriel da Costa:
Um movimento do Dr. Hélio Santos diz: “Vote em Preto”, ele é de São Paulo e é considerado um ícone do Movimento Negro do Brasil. Essa eleição traz muitos negros candidatos, o que pra nós vai ser um divisor de águas. Como está sendo pra todos (os brasileiros) na questão do presidente. Pra nós, negros e negras também vai ser. Porque nós sempre falamos de ter espaço, que não há representatividade, então, agora (essa eleição 2018) é a hora! Nós temos em todo o escalão eleitoral, candidatos negros. A Cidinha Raiz é a candidata negra ao Senado Federal, então, até pra senador nós temos candidato também. A gente sabe que a chance, no caso dela, não dá pra saber, porque nós somos muitos e temos muita força (política). E se por um acaso ela não chegar a vencer, chegará forte, com muitos votos pra que eles vejam a nossa força. Porque tudo é visto politicamente. Quando reclamamos de algo, a primeira pergunta que nos fazem é quem é que temos para nos representar politicamente? Não temos ninguém! Agora, independente de partido, temos que votar no negro e na mulher negra. E nós, mulheres, votando na mulher negra, porque elas estão em todos os partidos. É só escolher. Eu sou de um determinado partido e aqui em Limeira não temos candidato negro. Mas, para a próxima eleição para prefeito e vereador eu quero que tenha uma candidata negra – candidata a vereadora – nos representando e nós vamos conseguir. É difícil pra nós mulheres metermos a cara na política. Mas todo mundo quer nos chamar pra apoiar candidaturas brancas.
Eles (brancos) sabem da importância de nós, negros. Porque o negro compra, consome, estuda, tem lazer, e o negro vota. Tem disso. E a própria Comunidade Negra monitora quais candidatos apresentam propostas para os negros. Porque, agora (período de) todos os candidatos abraçar e tirar fotos com negros.

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