Jornal Pires Rural – Edição 211 | LIMEIRA, Fevereiro de 2018 | Ano XII

O arquiteto Ronei Costa Martins, nos recebeu em seu escritório para a apresentação do projeto da nova Igreja de Santo Antônio, do bairro dos Pires. Hoje, as missas são celebradas num espaço adaptado pois, a Capela já não comporta o número de fiéis. À pedido de Don Vilson, o arquiteto já apresentou para a comunidade o Projeto e já foi instalado a pedra fundamental no local da nova construção.
Com um currículo de mais de vinte igrejas projetadas, varias delas na cidade de Limeira, como a Igreja São Paulo Apóstolo e a Igreja Nossa Senhora das Graças. Com a realização desses Projetos, o arquiteto está investindo na pós graduação da CNBB/UniSal no Colégio Pio XI, estudando arquitetura e arte sacra, aulas de Eclesiologia, Cristologia, Mariologia, Bíblia, Liturgia e toda a história da igreja.

Arquiteto urbanista Ronei Costa

O sentido da igreja enquanto prédio
O princípio básico é o seguinte; a palavra igreja vem de uma palavra em latim que é eclesial – é a palavra que deu origem ao termo português igreja. E Eclésia: era a principal assembleia popular em Atenas, na Grécia antiga. “A gente tem o hábito de dizer vou à igreja como se eu fosse ao espaço físico e não é isso. Eclésia significa povo de Deus reunido. Então, quando digo igreja estou falando de pessoas reunidas em favor de um objeto comum que é o Cristo, o Mistério Pascal, a Celebração da Páscoa – a Páscoa é todo dia. Portanto quem se reúne pra celebrar a Páscoa mesmo que debaixo de uma árvore, é igreja. Então, o conceito igreja é este, povo reunido”, observou Ronei.

Pensar uma igreja é pensar a comunidade reunida e por isso a necessidade de conhecer a comunidade, “o projeto que eu fiz pra Santo Antônio, no bairro dos Pires, ela serve para aquela comunidade, não serve para outra. Porque o desenho absorveu as características da comunidade. Uma das características fundamentais ali é a característica do acolhimento e o Projeto pretende um encontro circular, todos ao redor do altar. Eu evitei a idéia de filas escolares – o modelo com o altar, um sentado atrás do outro onde, o que eu vejo a minha frente é a nuca do meu companheiro, da pessoa com que eu tenho que comungar. O Projeto dessa igreja pretende todos ao redor do altar para que as pessoas possam ver, serem vistas, e assim promover aquilo que nós chamamos de encontro porque a celebração litúrgica da Páscoa é antes de tudo um encontro – para haver o encontro precisa haver uma comunicação e a comunicação exige que eu esteja de frente para o outro, não de costas. Pra que haja o encontro é necessário que a disposição do Projeto arquitetônico permita. A partir daí começamos pensar o espaço, a partir da percepção de que a comunidade (sobretudo num bairro rural) gosta de se encontrar, de ter o contato . Mas esta é uma premissa não só minha, também do Concílio Vaticano II, de 1964, os Papas Paulo VI e João XXIII já propunham este tipo de igreja. O Concílio Vaticano II veio para reformar o Concílio de Trento que não por acaso veio para promover a Contra-Reforma. A Igreja propõe o Concílio de Trento que fecha ainda mais a igreja, que cria ainda mais problema. O Concílio Vaticano II, quatrocentos anos depois, vê que Martin Lutero estava certo, a Reforma Protestante estava certa. A igreja 300 anos depois entende que as propostas de Lutero eram essenciais. Só que na época em que Lutero propôs (a Reforma) veio o Concílio de Trento e arrebatou, fechando ainda mais a igreja. Depois veio o Concílio Vaticano II e disse, as nossas igrejas precisam respirar. Então, os meus projetos são baseados na experiência e na orientação do Concílio Vaticano II, da década de 1960”, emendou.

Sobre o Concílio Vaticano II
O Concílio diz que a Igreja é o lugar do encontro e, o espaço do encontro precisa ser promovido. O poeta francês, Noël Arnaud diz, “eu sou o espaço onde estou”- dizendo que o espaço onde estou influência o meu ser. “Edificar paredes, portas e janelas não é uma atividade meramente construtiva, é uma atividade de formação do indivíduo e da comunidade. Na medida que você ficar vinte anos num ambiente escuro, frio, gélido, o teu emocional, a tua forma, o teu indivíduo, a tua capacidade de lidar com o outro e de se postar no mundo vai ser diferente se você vivesse vinte anos num ambiente claro, bem iluminado com uma temperatura adequada. E a Igreja tem esse papel. Se a comunidade precisa se desenvolver, se aprimorar, ela precisa necessariamente ser um espaço acolhedor e o espaço do encontro, esse é o primeiro aspecto. Outro aspecto, é o fato de que Igreja não é o prédio. O prédio é a casa da Igreja, o lugar que a Igreja se encontra mas, Igreja é o povo reunido”, explicou.


O Projeto para a comunidade
“Eu propus para a comunidade que a gente desistisse do Projeto e que não construíssemos igreja alguma se essa construção não permitisse o fortalecimento da comunidade. Desta forma, a construção é um pretexto para que a comunidade cresça e se desenvolva porque se não for assim não adianta construir”, frisou.

O anseio por um espaço maior se deu porque as celebrações naquela Igreja começaram a ganhar uma dimensão que não cabe mais na Capela. Hoje, as missas são celebradas no espaço adaptado e a comunidade não pode viver a celebração num espaço adaptado, num espaço que não é condizente com a dignidade da experiência cristã. Daí a necessidade de um espaço maior para abrigar a comunidade. “Fui convidado para fazer o Projeto. Disse a eles, se a construção dessa igreja for motivo de contenda, de divisão da comunidade, não façamos a Igreja. Agora, se a construção da Igreja, cada tijolo colocado na construção for um tijolo colocado na comunidade no sentido de fortalecer os laços, a relação, a amizade e a experiência cristã entre eles, façamos a Igreja. Porque a partir da Igreja a comunidade cresce. O próprio Deus cristão, Deus da cristandade, se revela pra nós a partir de três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. Ora, porque é que Ele faz isso? A interpretação teológica é interessante porque Ele quer nos mostrar que Ele próprio optou por ser comunidade. Não fosse assim, se nosso Deus fosse individualista não seria assim um complementando o outro, ‘Deus cria’ , ‘Jesus faz a remissão’ e o ’ Espírito Santo que santifica’. Cada um tem o seu papel, Deus não santifica. Quem santifica é o Espírito Santo. Deus não faz a remissão quem faz é Jesus Cristo. Jesus Cristo não é o Pai. Ora, se o nosso Deus cristão optou por se revelar pra nós a partir de uma comunidade, é sinal de que ele quer que nós vivemos em comunidade e, que nós experimentemos essa mística cristã em comunidade e não sozinho”, ele asseverou.

Pensar uma igreja é pensar a comunidade reunida

“Essa conversa de que rezo sozinho, sou católico mas, eu fico em casa não funciona porque, a experiência cristã parte da Trindade. Se é assim de fato, o que importa a construção de uma igreja? Importa se essa construção permitir o fortalecimento desse laço. A partir dessa experiência comunitária, de comunidade que você busca a mistagogia, só vale a pena construir uma Igreja se isto estiver na pauta como prioridade. E, foi essa a construção com a comunidade. A partir daí, eu fiz uma dinâmica com eles, vários encontros, porque a comunidade poderia contratar um arquiteto pra desenhar uma Igreja, entregar e ir embora (o que normalmente acontece). Eu fiz uma experiência inversa com eles. Eu disse, vou tirar de vocês a Igreja. Através do Método Socrático, a Maiêutica. Eu fiz essa experiência com a comunidade porque a resposta da comunidade para a construção estava dentro da comunidade. Eu apenas tirei a resposta deles para que pudessem dar os elementos para que eu fosse lá e desenhasse o Projeto para a comunidade de Santo Antônio”, avaliou.

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