Jornal Pires Rural – Edição 220 | CAMPINAS, Setembro de 2018 | Ano XIII

O Fórum ‘Des/Compassos da Vida: Números, Atos e Demandas’, aconteceu na Unicamp, com o objetivo de promover o conhecimento e debate do cenário do suicídio, hoje, no Brasil. Tatiana Lionço, Universidade de Brasília, professora do Instituto de Psicologia da UNB e coordenadora do Núcleo de Estudos Avançados Multidisciplinares da UNB, participou da Mesa; ‘Sofrimentos, violências, saúde mental e redes de cuidado em instituições de ensino’.

Tatiana se declara uma apaixonada pelo SUS e uma professora comprometida com os processos educativos e uma certa inquietação em relação ao tema Suicídio. “Não sou uma estudiosa sobre o suicídio mas, curiosamente eu venho sendo frequentemente interpelada sobre a questão do suicídio. É muito importante a gente entender que essa é uma questão social, diante da qual nós temos que fazer um esforço muito responsável sobre como responder a esse drama contemporâneo, do lugar que nós ocupamos, mesmo não sendo especialistas nesse assunto mas, podendo contribuir de diversas formas, das mais variadas instituições. De modo a interferir nesse processo”, afirmou.

Sobre sua trajetória profissional, Tatiana conta que começou a trabalhar no SUS por meio da educação popular. Na coordenação de educação popular e mobilização social do Ministério da Saúde foi que entrou em contato com o SUS. “Então, a integralidade com o princípio do SUS e essa escuta primeira da população leiga, ou seja, dos sujeitos não especialistas ou do povo. Por essa via que eu me formei no SUS. E, foi por essa via também, que eu me apaixonei pelo SUS. É por aí que eu vou tentar contribuir sobre o suicídio. Deslocar o debate da questão da patologia e da questão do viés individualizante para o qual, com muita frequência, o suicídio nos convoca. Quando ele traz pra gente essa reflexão sobre o que levou determinado sujeito a cometer o ato suicida” observou.

Para a psicóloga é possível pensar o suicídio. Falar sobre o suicídio. “É, que é importante a gente fazer um acordo em relação aos termos que a gente fará isso. Porque é muito importante que a gente fale sobre o suicídio de modo a não nos desesperarmos. Junto com a constatação de que esse fenômeno tem aumentado entre nós. De um modo que eu imagino que esse auditório cheio e mais duas salas cheias e as pessoas que não conseguiram assentos e ficaram para fora, aqui na Unicamp, nos faz crer que conhecemos pessoas próximas de nós que perdemos pelo suicídio. Então, estamos muito tocados por esse fenômeno social. Essa é uma questão social”, destacou.

Segundo Tatiana, a questão dos determinantes sociais do suicídio da Saúde, têm ocupado pouco espaço de reflexão desde que foi proposta como um conceito estratégico, pois é um conceito muito potente para recuperar a potencialidade da concepção de integralidade da Saúde que requer pensar a intersetorialidade. “Quando se fala de prevenção – um conceito que parece tão auto evidente – mas, o processo de prevenção necessariamente implicam práticas educativas. Então, pensar prevenção de sofrimentos psíquicos implica a consideração das instituições de ensino, não apenas. Mas as escolas são espaços estratégicos para as práticas de prevenção”, citou.

Tatiana pergunta: “quais haveriam de ser as especificidades das potencialidades das instituições de ensino para práticas de prevenção em saúde mental? Lembrando que estamos diante de uma concepção de saúde mental anti manicomial. Então, o que isso significaria? Em primeiro lugar, uma proposta de cuidado e saúde mental não manicomial, implica não reduzir o sofrimento à patologias de indivíduos, superando tanto o viés individualizante quanto o viés patologizador.
Em segundo lugar, implica não segregar para tratar, ou seja, considerar convivência como medida de promoção da saúde mental”, explicou.

Segundo a psicóloga, pensar preventivamente o suicídio é necessariamente reconhecer seus determinantes sociais e assim não reduzir a questão a um problema decorrente de um adoecimento dos indivíduos. “Ainda pensar ou intervir sobre agravos decorrentes de violência e portanto intervir sobre determinantes sociais dessas violências seria uma das formas de prevenção do sofrimento psíquico e portanto do suicídio. Prevenir o suicídio é portanto pensar em formas de melhorar as condições de vida, de modo a evitar o sofrimento, evitando violências e outras determinações da dor psíquica e da deterioração das relações sociais”, afirmou.

No Brasil, existem dois conceitos para pensar a política de saúde mental alinhada à luta anti manicomial, tal como ela foi estabelecida pela Lei 10.216/2001. “No Brasil, como vocês sabem, o novo modelo de atenção à saúde mental é de base territorial e comunitária. Levando em consideração que a comunidade implica laços, eu diria que a gente está falando de dois conceitos básicos pra pensar o que seria essa lógica de uma saúde mental anti manicomial. O que seria então? Territorialidade e relacionalidade. Quando pensamos em relacionalidade, estamos pensando que sujeitos habitam determinado contexto e quais as suas práticas? E quando pensamos em territorialidade, estamos pensando que relações se estabelecem nas diferenças entre esses sujeitos no contexto e nas práticas que eles estabelecem nesse território? Então, pensar saúde mental nas instituições de ensino é pensar a escola como um território. Então, diferentes escolas, públicas e privadas, de alguma forma as instituições, já estão pensadas na lógica da regionalização, de territorialidade”, frisou

Sobre a universidade, Tatiana traz uma outra complexidade. “Porquê, como temos as políticas de acessibilidade, inclusivas nas universidades brasileiras, hoje, temos uma complexidade territorial nas universidades que é a de uma espécie de laboratório social, onde você impõe ou estipula que uma diversidade radical de sujeitos sociais, passarão a conviver num determinado território e não necessariamente há uma mediação dessas relações. E vai ter uma adversidade que abrange, no caso da universidade de Brasília (de onde eu venho) tem uma política de inclusão própria de estudantes indígenas (com vestibular próprio em língua nativa), quotas raciais (a primeira a instituir quotas raciais) além, agora das quotas sociais. Você tem uma problemática que o volume de estudantes que entram pelas quotas sociais, não acompanha ou é superior ao volume de bolsas disponíveis para o auxílio permanência (para os estudantes em vulnerabilidade econômica), você tem uma ampla diversidade religiosa entre os estudantes e por aí afora”, disse.

Segundo Tatiana, a realidade que as universidades apresentam precisa de medidas afirmativas, ações afirmativas, para fazer essa mediação das adversidades de identidades nesse território e além, dessa questão da diversidade do sujeito, integre esse território. “Porque você também têm práticas institucionalizadas, relacionadas ao ensino aprendizagem, quando você tem aí, a relação dos docentes e discentes, digo práticas institucionalizadas em relação ao trabalho. Que implica carreira docente mas também, as práticas de gestão e como é que essas práticas são desenvolvidas no contexto da instituição. As práticas de gestão são participativas ou elas são hierarquizadas e as próprias medidas de progressão profissional são deliberadas por pessoas que tomam decisões que favorecem elas mesmas ou levam em consideração a diversidade de características de sujeitos em diferentes momentos da carreira, etc.”, afirmou.
Para Tatiana diante do que está estabelecido dentro das instituições, temos diferentes determinantes de vários sofrimentos institucionais. “Como uma amante da educação popular, por meio de um projeto de extensão na UNB, realizamos uma série de rodas de conversa e escutamos alguns relatos de sofrimento institucionais relacionados principalmente a violências institucionais – entendido como determinantes sociais da saúde mental das pessoas dentro da instituição”, ressaltou.

Para finalizar, Tatiana pontuou três principais questões para identificar como determinantes do sofrimento. “Uma, é o silenciamento das dificuldades como questões institucionais. Estes são deslocados como mera incompetência de sujeitos individuais ou questões não próprias da instituição (deslocadas como se fossem problemas dos indivíduos). A outra, é a burocratização da vida. Um exemplo disso, como que um curso de engenharia chama o projeto de extensão pra discutir saúde mental, quando a gente chega pra entender do que eles estão falando, eles chamaram a gente, porque o estudante tentou o suicídio, porque era formando e foi reprovado por dois décimos numa disciplina e não pode se formar. Então, são processos de burocratização da vida. Um outro caso de suicídio, por perda de auxílio moradia, por questões de normas que não são necessariamente condizentes com as reais e dificuldades de conclusão de curso, etc. Mas, que poderia ser melhor discutido pela instituição. E a outra, pra finalizar, na falta de um outro termo menos antipático, eu diria que uma certa hipocrisia das políticas institucionais onde você vai ter uma defasagem entre o desmonte da universidade pública acontecendo, demissões de trabalhadores terceirizados, estudantes perdendo a bolsa e, a política que a universidade consegue aprovar é uma política de internacionalização. Temos uma espécie de hipocrisia institucional que é insuportável, não apenas pra estudantes mas, para trabalhadores e para alguns docentes também. E o exemplo do paradoxo entre a política de inclusão dos alunos em situação de vulnerabilidade econômica e, a universidade não tendo orçamento pra oferecer as bolsas auxílio econômico. Recentemente um estudante cometeu suicídio na universidade após notícia de interrupção da bolsa auxílio”, enfatizou.

Segundo Tatiana, para intervir, o caminho clínico é sempre importante. “Mas, acho muito necessário dizer que ele é insuficiente. A gente tem que pensar noutras formas de prevenção que partam pela convivência e por projetos culturais que permitam a ressignificação da experiência universitária, identitária, e de pertencimento social”, concluiu.

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