Jornal Pires Rural – Edição 219 | CAMPINAS, Agosto de 2018 | Ano XII

Elaine Macedo, coordenadora de estudos do CVV e porta voz nacional CVV esteve no “Seminário Suicídio – Dês/compassos da vida: números, atos e demandas”, na Unicamp Campinas, contando um pouco da experiência da entidade, nesses 56 anos de atuação.
Fundado em 1962, o Centro de Valorização da Vida – CVV é uma associação sem fins lucrativos, filantrópica, mantenedora e responsável pelo “Programa CVV de Valorização da Vida e Prevenção ao Suicídio”, desenvolvida pelos postos do CVV em todo o Brasil. Através dos postos o serviço prestado é voluntário e gratuito de apoio emocional, oferecido a todas as pessoas que querem e precisam conversar sobre suas dores e descobertas, dificuldades e alegrias.
Em 1977, começou a expandir-se para outras cidades, estando hoje em quase todas as capitais e diversas cidades do interior do Brasil. São aproximadamente 70 postos e cerca de 2.000 voluntários que se revezam para o atendimento 24 horas, 365 dias do ano. Esse atendimento é feito por telefone – 188 – grátis para todo o Brasil. A história do CVV está registrada no livro “Como vai você – CVV, 50 anos ouvindo pessoas”, da editora Aliança.

Respeito a vida
Elaine descreve, “difícil começar essa fala, sem compartilhar a emoção que tivemos ao mergulhar na programação deste dia, quanto a sensibilidade dês/compassos com a vida, números, atos e demandas. Falando sobre ambivalência e desistências da vida em ato. Porque isso acontece? Um dos valores do CVV é respeitar a pessoa no direito que ela tem de dizer: eu estou sofrendo e não vejo sentido na vida, quando o CVV diz respeitar ele diz o seguinte: que chega um momento que a gente já sofreu tanto e, que está tão difícil viver, que talvez a gente comece a ver deixar de viver como uma solução e, quando a gente respeita esse estado, este momento, esse sentir, está a um paço de resgatar a dignidade humana; o sentido do viver. Então, é o compreender com a pessoa, não compreender a pessoa. Quando eu aproximo daquele que está sofrendo para também viver essa dor, ao invés de corrigi-la, muda tudo. Desta forma, avançamos um pouco mais para travessias violentas, a solução de vidas marcadas, isso é muito profundo. Quais são as marcas que a gente traz ao longo da vida, que em meio à solidão pode-se dizer: o que é que eu estou fazendo aqui? Aí, lembramos da música: ‘Socorro! Eu não estou sentindo nada! Alguém empreste um coração. Qualquer coisa que sinta’. E a música: ‘o pulso ainda pulsa’”, explicou.

Atos, impactos e prevenção
Na década de 1960 um grupo de jovens sentiu, percebeu e observou que era preciso fazer alguma coisa a respeito do alto índice de suicídio na cidade de São Paulo. Houve duas questões que estimularam o grupo a seguir. A primeira era, se em 100 anos o CVV salvar uma vida todo o trabalho se justifica. A segunda foi um médico psiquiatra referência na época que expressou: ‘em dez anos vocês estarão entendendo e compreendendo mais de dor e solidão do que eu’. Assim, aqueles jovens perceberam que era possível fazer alguma coisa.

Público de interesse
“Quando nos perguntam se o CVV tem um público de interesse e que público é esse? Eu respondo que são ‘todos’. A pessoa, inclusive a família. Tem um comportamento que ocorre logo após o suicídio que é tentar culpar alguém. Esse é o primeiro exercício (do CVV); evitar culpar a pessoa ou aqueles que estão próximos dela. Por quê? O mito é achar que a pessoa que morreu por suicídio simplesmente escolheu e é culpada por isso. E talvez ela tenha adoecido emocionalmente, mentalmente, fisicamente. E que há uma série de cuidados que são deixados, que precisamos olhar como um fator social e não somente individual, como uma responsabilidade coletiva, não para nos culpar mas, para nos tornar mais preventivos”, ela apontou.
A Coordenadora do CVV nos chama a um exercício. “Pensamos, qual é o propósito da nossa existência? Essa resposta me levou a entrar no CVV e não sair mais. Há 23 anos atrás, quando foi dito que quem criou o CVV criou com o desejo de que um dia a sociedade seja tão fraterna e solidária que não seja preciso os muros de uma instituição para alguém dizer: Socorro! Eu estou sofrendo! Que doar amor e amizade, seja um ato tão natural quanto respirar. No auge da minha juventude foi difícil entender que haviam pessoas que não tinham amigos para dizer: estou triste, estou sofrendo. Eu falei: eu quero fazer parte disso. Eu fico muito emocionada, nesses últimos anos, ao perceber o que era antes um tabu, agora, está na pauta da sociedade”, afirmou.
Segundo Elaine, nas primeiras décadas do CVV o tema da prevenção era falado e todos abafavam o caso. A equipe era chamada de “loucos” (o CVV). De repente, o CVV consegue conversar sobre o suicídio de uma outra forma para chegar a sociedade. Com 56 anos de instituição e, percebendo que a sociedade se abre cada vez mais, nos diferentes núcleos e grupos, para falar sobre o tema com seriedade e responsabilidade.

Contribuição
“Contribuímos para a prevenção do suicídio, para proteção da vida. Para nós é muito claro que o CVV sozinho não é capaz de dar conta da prevenção do suicídio, nem a universidade, nem o governo, somos todos nós juntos, uma somatória, na contribuição para a prevenção. E quanto mais nós esclarecermos sobre o assunto mais o assunto vai fluir”, ela ainda assegurou que contribuímos “com aquele que está em sofrimento e, para todos nós. Porque quando acontece o suicídio, todos nós somos impactados por ele direta ou indiretamente. Não é preciso ir muito longe para pensarmos se a gente conhece, conheceu ou tentou o suicídio. Ou mesmo aquele entre nós que já pensou ou tentou o suicídio”, completou.

CVV nesses 56 anos
“A experiência nos ensinou o seguinte: esse linguajar de combate, contra, não salvar, não ajudar, afasta, desnivela e julga, inferioriza quem está em sofrimento. No entanto, quando ocorre o esclarecimento, ao invés de reforçar e excluir ou gerar mais dor e culpa, ocorre o esclarecimento para a pessoa (do processo que ela está vivendo) e, aqueles que estão no entorno dela. Outra coisa que o CVV aprendeu, é que nós, não conseguimos iluminar o caminho das pessoas. Não conseguimos resolver os problemas delas. Nem dizer o que fazer e dizer como tem que ser. Tampouco repetir: “Você é mais forte que isso! “Isso passa! É a vida!”. Essas frases não ajuda.
Neste processo, o CVV aprendeu que a aproximação se dá em conversar e esclarecer – compreender o processo. Existem diversos fatores envolvidos, para que em algum momento a pessoa diga: “que sentido é esse? Que vida estou vivendo?”, observou Elaine.
O suicídio é algo complexo, singular, é algo que acontece de dentro pra fora e não de fora para dentro. O ambiente externo contribui com compaixão e disponibilidade para fazer a diferença. Nesse sentido, quem salva a vida não somos nós. É a própria pessoa. Mas, nós fazemos a diferença quando temos uma postura de empatia de compreensão, respeito e de confiança de que o outro é capaz”, avaliou.

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