Jornal Pires Rural – Edição 209 | CAMPINAS, Janeiro de 2018 | Ano XII

A China desperta interesse de universidades brasileiras por pesquisas na área de política econômica internacional por três elementos; 1 – ela tirou mais de 500 milhões de pessoas da pobreza absoluta em menos de 35 anos — isso é um fato inédito na história da humanidade; 2 – a China fez aportar o capital internacional e não se subordinar a esse capital; 3 – articulou a política urbana de uma forma impressionante que impulsionou o desenvolvimento.

Tema de palestra do “Seminário América Latina, China e Brasil: temas, perspectivas e desafios”, promovido pelo Grupo de Estudos Brasil-China, do Instituto de Economia da Unicamp, com presença de Marcos Costa Lima da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE – Instituto de Estudos da Ásia participou da mesa: Relações Internacionais.

O Instituto de Estudos da Ásia da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) foi criado em 2016. Desde 2014 esse processo (de estudos) começou com uma visita que a Universidade recebeu de uma missão chinesa com onze professores da Universidade de Pequim e um Instituto de Geografia e Recursos Naturais da Academia de Ciência de Beijing. Como explica Marcos Costa Lima, “tivemos a oportunidade de conhecer esse Instituto (é impressionante tanto no tamanho físico como no de recursos humanos) eles têm geógrafos de toda natureza que atendem a demandas do governo chinês. Esse foi o nosso primeiro grande contato através desse Instituto de geografia e recursos naturais. Por dois anos participei do Fórum Beijing – Estrito Sensu, apresentando questões sobre o desenvolvimento de cidades comparativo do processo urbano no Brasil e na China (temos desafios muito interessantes), esses foram os contatos iniciais com a China”, apontou Lima.

Segundo o professor, o Instituto depende muito dos interesses dos professores da Federal (universidade) e as demandas dos alunos, professores, doutorandos e mestrandos de graduação de uma certa forma, dá um norte para as pesquisas desses três níveis acadêmicos. “Nós (professores), tentamos estabelecer um trabalho de demarcar certos campos de pesquisa para que a fragmentação não seja muito intensa. Eu diria que o segundo país de interesse é a Índia com alguns estudos comparativos com o Brasil. Estudos sobre China e Índia é outro comparativo. Alguns estudos sobre o comércio da China na Ásia. Recentemente eu acabei de orientar uma tese muito interessante de um economista que faz uma tese sobre a Indústria brasileira sobretudo nos anos 1990, comparando com processos industriais na China e analisando os bancos de desenvolvimento, aqui no Brasil o BNDS e na China os bancos chineses de desenvolvimento. É uma tese que tem muitas informações e algumas proposituras”, revelou.

Interesses dos estudos
A área de política internacional na Universidade Federal de Pernambuco é demandada por muito interesse na busca pela área de política econômica internacional. “Temos um trabalho há dois anos sobre o mar da China e uma doutoranda ambos na Universidade de Uran trabalhando com a questão do direito da mulher comparativamente Brasil e China – os avanços lá e cá dessa questão”, afirmou Lima.

O Instituto não pode tirar o ímpeto dos alunos que querem estudar determinados assuntos sobre a China então, buscou-se a estratégia de investigar no Nordeste quais são as competências instaladas sobre a China. “Em maio de 2017, fizemos o primeiro Seminário das Universidades Nordestinas que tem trabalhos sobre China. Foi muito interessante porque nós convocamos gente da Bahia, pois, existe um grupo de pesquisadores sobre China e um pouco de Coreia mais China. Na Universidade Federal e Estadual da Paraíba tem dois grupos de estudos sobre China, outro professor de Minas Gerais, Alexandre César Leite, tem muitos estudos sobre China e ele está fazendo um trabalho muito interessante sobre como é que os Estados brasileiros se comportam em relação ao comércio chinês. Existem algumas pessoas como o professor Tiago Lima que está olhando como se dá a aquisição de terras no Brasil pelos chineses. Eu diria que política econômica internacional é o carro chefe (no interesse dos estudos) mas, existe também, alguns doutorandos estudando sobre segurança na China no contexto global. Há um pequeno grupo de alunos muito interessados na história chinesa, possibilidade de construção de teoria das relações internacionais com características chinesas. Isso gera uma série de debates internos na China e que informam o Partido (Chinês) e o Estado — existe esse diálogo diplomático e academia”, ele citou.

Marcos Lima chama a atenção para a articulação da diplomacia chinesa e sua atuação em escala mundial fazendo com que todos ganhem, alterando um pouco a lógica em função do conceito de harmonia. “O que é interessante nessa discussão é o que estamos vendo nessa nova apresentação onde Xi Jinping e o Mao (Tsé-tung fundador da China comunista) é apresentado hoje, como a força desse pensamento e o que vem associado a isso. As infraestruturas que estão construindo é uma presença diplomática da China, que tem uma capilaridade absoluta, se a Ásia tem trinta e três países, a China tem trinta e três políticas para cada país da Ásia. Muitos desses meus alunos estão lá e temos uma discussão muito fraterna estudando a (influência da China) na África, porque isso também nos aporta formações para o caso brasileiro na venda de terras por exemplo. Estamos olhando também como a China entra no país e as repercussões sobre isso”, destacou Lima.

De acordo com Marcos Lima, do ponto de vista acadêmico, da fragmentação latino-americana e falta de compromisso, o Estado não procura na Universidade as competências para responder sobre certas coisas que poderiam contribuir para o Brasil. “O Itamaraty não articula esse processo (houveram algumas tentativas mas tudo muito fragmentado) então, é muito difícil um pequeno centro lá no nordeste poder discutir todas essas questões. A minha crítica é que algo que articula tudo isso seja a política. Onde é que está a política de Estado? Com a ida (política) da América Latina pra direita a nossa matriz, hoje de exportação, é uma matriz baseada em soja e carne – grande parte das nossas exportações de carne já são feitas em terras da Amazônia. Eu sou um admirador da China por três elementos com dados do Banco Mundial; A China tirou mais de 500 milhões de pessoas da pobreza absoluta em menos de 35 anos — isso é um fato inédito na história da humanidade; Dois: a China fez uma coisa que inaudita também de aportar o capital internacional e não se subordinar a esse capital; Três: articulou a política urbana de uma forma impressionante que impulsionou o desenvolvimento. Porque não podemos fazer acordos pra aprender a tecnologia chinesa? A minha grande preocupação é que com essa guinada politicamente à direita vamos aprofundar esse tipo de coisa”, encerrou Lima.

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