Jornal Pires Rural – Edição 207 | CAMPINAS, Dezembro de 2017 | Ano XII

Seminário “América Latina, China e Brasil: temas, perspectivas e desafios”, foi realizado no Instituto de Economia da Unicamp e contou com a presença de Isabela Nogueira de Morais professora adjunta do Instituto de Economia e do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional (PEPI), coordenadora do LabChina (Laboratório de Estudos em Economia Política da China) e pesquisadora do GAMA (Grupo de Análise Marxista Aplicada), todos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ela trouxe para o seminário o tema: “Sociedade e Estrutura Social Chinesa.

LabChina
O LabChina é o Laboratório de Estudos em Economia Política da China, baseado no Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, conecta pesquisadores das áreas de economia, ciências sociais, relações internacionais e história que investigam o processo de desenvolvimento socioeconômico da China e da sua região, sob prismas teóricos críticos, incluindo teorias críticas da economia política internacional e da economia política comparada, teorias marxistas, estruturalistas, institucionalistas, abordagem de longa duração e afins. Dentro do LabChina há três linhas principais de pesquisa, uma centrada em acumulação de capital, Estado e conflito distributivo na China. A segunda vertente de pesquisa está olhando para o bem estar social na China. E a terceira, na perspectiva de economia política internacional, relações internacionais da China no Sudeste Asiático, a Nova Rota da Seda – desenvolvidos pelos profissionais do Instituto de Economia, alunos de doutorado e graduação na tentativa de realizar pesquisas conjuntas. Isabela Nogueira, apresentou resultados prévios da pesquisa do LabChina sobre “a relação entre ‘Estado e Capital em uma China com Classes’ num processo de estratificação social, estabelecimento e informação de novas classes sociais na China” (disponível no site do LabChina e no Instituto de Economia) – o resultado final sai em 2018 na Revista de Economia Contemporânea da UFRJ, especial sobre China.

Classe capitalista na China
“Como chegamos ao tema da formação de uma nova classe capitalista na China? Estávamos olhando para o tema distribuição de renda desde 2008, como o processo de abertura do Gap, concomitante a uma redução extraordinária da pobreza, melhora na condição de vida do primeiro decil da distribuição – os 10% mais pobres, estão melhorando de renda nesse processo de piora distributiva mas, ao mesmo tempo vem junto disso a “latino americanização” da distribuição de renda na China chegando a 0,489%”, afirmou Isabela.

A distribuição de renda sobretudo para os 10% e do 1% mais rico da China chamou a atenção dos pesquisadores. “Percebemos que, se de um lado, sobretudo a partir dos anos 1990, os 10% mais ricos vão se aproximando muito de um perfil distributivo, mais parecido com os Estados Unidos, e se afastando do perfil distributivo dos países um pouco mais igualitários como no caso da França, por exemplo. Perto de 2010, isso muda pois, a situação ou estabiliza e depois volta a melhorar um pouco. Por outro lado, o topo 1% (mais rico) se afasta um pouco mais da realidade americana, mas ainda assim, apontando para o que é o nosso contexto, que é o surgimento de uma burguesia nacional centrada em marcas próprias, manufatura, tecnologia de informação, construção civil. Chegando a um terço da produção industrial os investimentos em ativos fixos, da porção privada, que é considerada estatal até 2006. Depois dali vemos uma relativa estabilização (2010) e uma porção enorme de investimento em ativos fixos mistos. Nessa burguesia nacional vemos uma relação estreitíssima com o Partido Comunista Chinês”, revelou Isabela.

Segundo a pesquisadora, nesse debate, o que incomodou muito é que, ou de um lado se cai na falácia neoliberal de uma oposição entre estado e mercado como sendo campos em disputa e, a partir disso o estado sendo resultado indesejado desse processo – o sucesso do capitalismo chinês. “Por outro lado, também incomodava, um discurso bem dominante na nossa escola; o argumento nacional desenvolvimentista, tanto a Unicamp, quanto o Instituto de Economia da UFRJ, de que a China tem um Estado que sabe pra onde ir – com visão de futuro, que planeja, que tem visão de longo prazo. Olhando o que estava acontecendo na China, nos incomodava a quantidade de conflitos trabalhistas que estavam emergindo, sobretudo a partir de 2010, com uma onda de greves trabalhistas e, ao mesmo tempo os conflitos vindo de dentro dessa burguesia, que vai emergindo de maneira muito estreita com o Partido mas, com uma quantidade de tensões, e a gente queria olhar com mais detalhe. Hoje na China, só em aço são produzidos 300 milhões de toneladas – é o maior produtor de aço do mundo. O segundo maior produtor é o Japão, produz um terço da sobre capacidade chinesa”, revelou.

Capitalistas vermelhos
A China chama a atenção até de leigos quando o assunto é excesso de capacidade produtiva. Para os pesquisadores, a questão da ‘sobre capacidade’ é um dos paradoxos que vai surgindo durante o desenvolvimento chinês, que é o investimento puxado pelo crescimento que entrega a taxa de crescimento alta, emprego, e foi entregando um monte de ações. Destaca Isabela, “ao mesmo tempo existe a pena de corrupção. Diante desse cenário queríamos olhar para esse tensionamento interno. Só esse ano foram 47 mil membros do partido comunista punidos dentro da China – tem uma caçada que está acontecendo, uma tensão interna. Essas punições no alto escalão, já fizeram 200 políticos presos, desde que a campanha começou, com nomes da família de Deng Xiaoping” (saiba mais).

90% dos milionários chineses são familiares em algum grau de lideranças do Partido Comunista Chines, a agenda de pesquisa tem-se desenvolvido em torno da complexa relação do Partido-Estado e a nova classe capitalista doméstica na China, a literatura nominou a nova classe de “capitalistas vermelhos” – um processo articulado pelo Partido para criar capitalistas a partir dos seus próprios rankings ou então cooptá-los desde o início do seu surgimento. “O que a literatura vai em geral apontar é uma classe capitalista bem contida, harmônica na relação com o Partido, uma ampla convergência política econômica nessa relação institucionalizada. Porque a China evitou a formação de uma elite econômica oligárquica do tipo russo, que é uma economia concentrada, com uma elite capitalista russa que leva ao enriquecimento pessoal? Essa é a nossa abordagem teórica. A gente chega a uma tipologia de tentar explicar isso historicamente a partir de três grandes períodos articulando o regime de articulação com a formação das classes capitalistas e conflito de classes que emerge junto. Nos anos 1990, isso pra gente está muito associado ao processo de privatização e os protestos de desespero (protestos de funcionários das fábricas). Em 2000, o regime de acumulação está todo centrado no crescimento puxado pelo investimento e o poder do investimento pra gerar emprego e os grandes setores ali beneficiados são fundamentalmente infraestrutura e construção civil – a lista dos bilionários chineses no final dos anos 2000 traz, dos 10 bilionários, 8 atuam na construção civil, vinculado à expropriação de terras – outra tipologia de protestos contra discriminação associados ao trabalhador migrante que trabalhar nas fábricas dormitórios”, afirmou Isabela.

O crescimento de marcas próprias promove a subida da China nas cadeias globais de valor e aí, os setores emergentes são outros como energias renováveis e setor financeiro. “O ponto é que, o conflito distributivo é esvaziado e aumenta a questão internacional de sobre maneira do ponto de vista da competitividade, tanto da competição inter capitalista quanto geopolítica. A gente detalha os ativos durante as privatizações e um processo de transferência de ativos a baixíssimo preços. O Estado foca naquilo que julga ser estratégico pra acumulação de capital, se desfaz das suas responsabilidades de seguridade social que havia no regime socialista, na saúde. Ao mesmo tempo os processos de privatização, e os ativos são entregues a baixo preço para os ex- gerentes e lideranças do Partido que geralmente não desembolsam nada, ou muito pouco.

A economia da China não gera oligarquias. O processo de privatização vai gerar uma primeira base privada e vai deixar o Estado mais estrategicamente competitivo no ponto de vista de rentabilidade no seu posicionamento internacional e tá vinculado aos protestos de desespero pelos antigos trabalhadores das estatais impondo um mercado informal”, disse Isabela.

O segundo período de boom do mercado imobiliário gera um tensionamento forte do ponto de vista do capitalismo com 70 milhões de agricultores que são expropriados e perdem a terra numa década (o número de incidentes de massa cresce de forma extraordinária) e ao mesmo tempo vinculado ao padrão de acumulação puxado pelos investimentos, construção de portos, ferrovias, hidrovias.

O resultado final da pesquisa “A relação entre ‘Estado e Capital em uma China com Classes’ num processo de estratificação social, estabelecimento e informações de novas classes sociais na China” pode ser conferido no site do LabChina – clique aqui.

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