Jornal Pires Rural – Edição 209 | CAMPINAS, Janeiro de 2018 | Ano XII

Com o objetivo de discutir a importância da ética na divulgação científica para as organizações de pesquisa e o papel do jornalismo científico na era da “pós-verdade”, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) realizaram o 4º Encontro Mídia e Pesquisa. Com o tema “Ética em divulgação científica na era da pós-verdade”

Ângela Pimenta, jornalista, presidente do Projor (Instituto para os Desenvolvimento do Jornalismo), apresentou o “Projeto Credibilidade (www.credibilidade.org): como distinguir a informação qualificada do ruído no meio digital”

Com a intenção de pensar o jornalismo do país inteiro, o Projor fez um projeto para mapear aonde o jornalismo não está no Brasil. Sem, inicialmente, determinar a qualidade desse jornalismo. A jornalista Ângela Pimenta explica; “usando ferramentas de jornalismo de dados a partir de levantamentos feito com o nosso público no Observatório da Imprensa com informações regidas pela Associação Nacional de Jornais e pela Lei de Acesso a Informação na Secom, porque a Presidência da República resistiu em nos passar dados sobre jornalismo local e regional. O nosso objetivo foi basear-se em projetos semelhantes da Universidade de Columbia onde a ela mapeia o deserto de notícias (sendo veículos impresso ou digital). Nosso estudo foi publicado no Observatório da Imprensa e nós chegamos a seguinte conclusão: quando a gente mapeia as regiões geográficas brasileiras sem acesso à informação, vamos ver uma forte correlação com índice de desenvolvimento humano e, vamos ver também, uma enorme concentração (nas regiões) Centro-Sul e no Distrito Federal. Os chamados desertos de notícias está em 500 municípios brasileiros. Cerca de setenta milhões de pessoas sem acesso à informação sobre sua Câmara Municipal, contas públicas, saneamento básico ou segurança. Como sabemos, o direito à informação diz respeito ao Artigo 29 da legislação de Direitos Humanos”, explicou Ângela.
Segundo a presidente do Projor, a partir desses dados a intenção é levar a rádio difusão. “Sabemos que na Amazônia, por exemplo, as rádios cumprem um papel muito importante na produção e a publicação de chamados fatos da vida cotidiana, dessas populações. Nós vamos precisar da ajuda das universidades pra manter esse mapa vivo e melhorado porque ele está longe da perfeição”, exemplificou Ângela.

Falando do Projeto Credibilidade, ele nasceu nos Estados Unidos como Trust Project, da cabeça de uma eticista e jornalista, Sally Lehrman, premiada por documentários, e o vice-presidente do Google. “Ambos chegaram a conclusão (em 2015) que o tamanho e o nível da sujeira da poluição na web estava ameaçando tanto o jornalismo como o próprio negócio das empresas de tecnologia. Eles resolveram agir em duas pontas: a primeira é pensar de que forma que o jornalismo quisesse mostrar a qualidade digital e pudesse fazê-lo algoritmicamente sem que nós cidadãos pudéssemos nos preocupar com o que seja isso. Mas que a qualidade do jornalismo, o cumprimento de uma série de protocolos no jornalismo, que isso ficasse visível na rede. Então, a proposta nasce em 2015. Foi ali que o jornalismo que eu aprendi na máquina de escrever começou a morrer. Sem dizem que é um clichê e, é um clichê verdadeiro, que a internet é a principal mudança no jornalismo desde a invenção da prensa de Guttemberg”, afirmou Ângela.

A presidente do Projor faz uma comparativo na ordem para se manter a democracia no país. “Trata-se agora de tentar reconstruir algo, que assim como a família e a democracia é imperfeito mas, que é necessário pra vida democrática. E hoje ele (vice-presidente do Google), inclui esse projeto dos Estados Unidos a alguns dos principais nomes, redações, enfim, é uma ampla gama também ideológica com veículos militantes como The Globe and Mail, the Independent Journal Review, Mic, os italianos da La Repubblica e La Stampa, e os grandes The Economist e The Washington Post, os identificados como mercado. Quem financia é o Google. Eu sempre tenho a pergunta: mas vocês estão juntos com o Google? Estamos. De forma transparente. Estamos porque achamos que o Google é responsável pela destruição desse modelo, dessa maneira de financiar o jornalismo e ele sabe disso. E estamos porque mais ninguém hoje pagaria. O jornalismo está numa crise enorme e nós temos uma tarefa urgente pela frente e, se for feito com transparência, esperamos outras fontes de recursos também. O Projeto é sediado numa pequena universidade jesuíta, no Vale do Silício (Santa Clara University), cuja chefe do departamento de ética (Markkula Center for Applied Ethics), é uma judia, Sally Lehrman”, comentou a jornalista.

De acordo com Ângela Pimenta destaca-se dois objetivos o Projeto, “queremos, basicamente, entender e refletir sobre o que acontece com a notícia quando ela sai ou do papel ou do site do jornal, da revista, e migra para as timelines — essas linhas do tempo que são verdadeiros liquidificadores de informação, de sentido, de contexto — que operações acontecem. Além disso, a gente quer desenvolver ferramentas e técnicas para identificar para que esse jornalismo seja melhor feito, esse que tem o compromisso com a apuração, com a checagem, com o contexto, com uma série de valores, que salte aos olhos com mais facilidade do que as chamadas fake news. Nós achamos que desta maneira, além de afirmar como jornalismo de qualidade, será possível que futuramente se remunere melhor, porque é indigente o dinheiro que jornalista ganha produzindo jornalismo para a internet. Estamos de olho sobretudo no jornalismo de interesse público”, desabafou Ângela.
O Projeto conta como parceiros dos principais produtores de informação, a Abraji – Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, a Agência Lupa, a Agência Os Fatos, são agências de checagem, dois jornais do interior de São Paulo, o jornal da cidade de Bauru e o jornal de Jundiaí, o site Nexo, Nova Escola, os grandes jornais Estadão, O Globo, Folha, a revista Piauí, o jornal O Povo do Ceará, Uol e Zero Hora.
A jornalista chama atenção para a resistência do jornalismo manter a credibilidade. “A partir de agora, é central para o ofício, apurar, editar, publicar, corrigir, e consumir informações. É o chamado viés de confirmação, que vem carimbado e significa que nós temos o viés, a tendência de confirmar aquilo que nós já acreditamos, seja racional ou emocionalmente. Três são as hipóteses iniciais, esse conceito quando aplicado o jornalismo pode levar e leva a apuração enviesada de informações com sérias limitações sobre o conteúdo final. Nessa avalanche de informações precisamos de um viés como uma bússola que confirma quem eu sou diante do novo. Diante disso, eu quero algo que se pareça com aquilo que eu já penso”, finalizou Ângela.

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