Jornal Pires Rural – Edição 205 | PIRACICBA, Outubro de 2017 | Ano XII

O papel do futuro profissional do agronegócio e um novo arranjo interdisciplinar na agricultura, foi o tema da exposição do diretor da Esalq, professor Luiz Gustavo Nussio, durante a ESALQSHOW, Feira de inovação tecnológica ocorrida na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (USP/Esalq), onde também aconteceu o Encontro de Lideranças, especialistas debateram as diretrizes do setor agro nas instâncias do ensino, da pesquisa, da extensão e da sociedade.

Hoje, o Brasil tem uma legião de pessoas trabalhando em agricultura e nós temos que aumentar a produção agrícola nacional em 40% em 10 anos. A Esalq tem 200 ingressantes anuais na carreira de engenharia agronômica e 430 ingressantes no total de todas as demais carreiras. “Esses alunos quando chegam, não sabem o que querem porque nós também não sabíamos o que queríamos. Cabe a instituição de ensino dizer algo a eles. Uma instituição de ensino tem que olhar como uma linha de produção, muito embora estejamos preparando pessoas, temos que ter foco em produção e treinamento de pessoas”, afirmou o diretor Nussio.
Diante da elaboração de um banco de dados disponível no Brasil sobre a formação de profissionais na área das ciências agrárias e comparando as informações das commodities produzidas no País, onde temos os dados na série histórica de 1995 a 2015, a taxa de formação é de 5 mil engenheiros agrônomos por ano, 480 escolas no Brasil com mais de trinta mil vagas distribuídas por ano — um grande complexo de treinamento. “Isso vem crescendo e ofertando pessoal no mercado, gente muito ativa, disposta e tem dado conta do complexo de serviços e atender o nível de produção que nós temos buscado. A formação de engenheiros agrônomos frente as commodities soja, milho e feijão, apresenta uma taxa de crescimento proporcional de 20% a mais, na oferta de profissionais em relação ao crescimento da produção, temos sobra. E isso significa dizer nesse momento que eu não deveria estar temeroso em relação a discutir esse assunto porque nós temos gente em suficiência, coisa que não é realidade em outros países do mundo”, constatou o diretor.

A Esalq se coloca numa posição hoje, que é estar entre as cinco universidades agrárias do mundo. “Tenho justificado isso dizendo, a Esalq para continuar sendo a mesma tem que mudar todos os dias e acreditem não é nada fácil fazer isso. Nosso sistema tem cristalizações históricas especialmente sendo essa uma escola tradicional e por isso, olhar à frente é um olhar com desconforto que algo nos faltaria e, eu tenho semeado a seguinte dúvida: responsavelmente, temos gente em suficiência, mas será que estamos prontos para preparar o aluno para uma demanda que ainda não sabemos qual será? Será que nós saberemos a demanda em breve?”, indaga Nussio .

Segundo o diretor, muitos estudos fora do Brasil que compartilham com dúvidas semelhantes às da Esalq, como por exemplo, a taxa média de obsolescência do conhecimento deverá ser de dez anos. “Se eu treinar os alunos em equipamentos úteis para o dia de hoje, em dez anos eles serão inúteis. O que significa dizer que os nossos alunos precisarão reciclar com frequência. Outro estudo interessante da universidade é sobre quem está se formando hoje, vai ter uma vida profissional de 65 anos, ou seja, ele terá que se reciclar por seis ou sete vezes na sua vida. O profissional vai ter que se redescobrir a cada seis ou sete vezes. O que é que uma unidade de ensino deve apresentar de conteúdo aos seus alunos de forma que eles possam ter valores e pilares e amarras que lhe permita se redescobrir ? Esse é o grande legado de uma instituição de ensino, reconhecer internamente quais são os valores fundamentais que fazem com que o aluno receba instrução, aprenda essa instrução e continue aprendendo a vida toda. Eu acho que a instituição que conseguir fazer isso hoje ela é uma instituição de êxitos”, ele realçou.

A síntese do perfil do alunado de hoje, da Esalq, os valores do aluno ingressante não é salário, é reconhecimento, ser reconhecido — essa é a crise de identidade do mundo. Um estudo recente de Harvard dizia que o valor mais alto não é salário. Porque o indivíduo não quer ser genérico. Ele quer ser singular como indivíduo e como profissional. “O estímulo a singularidade que a universidade vem estimulando, tem uma marca de identidade profissional. É uma distinção quase como uma forma de aceitação ao social. Mas isso também, leva a um perfil de isolamento e individualismo. Este é o perfil médio do aluno que nós temos recebido. Dos ingressantes da Esalq, um terço dos alunos vem da grande São Paulo. Outro terço vem do interior de São Paulo. E o último terço, vem da grande região metropolitana de Piracicaba — num raio de 100km. Esse mapa vai ser modificado porque a partir de agora, a Esalq e toda USP fará parte do Enem e, vamos receber o ingresso de alunos de todo o País”, pontuou Nussio.

O aluno é urbano mesmo tendo nascido no interior
Segundo o diretor, a academia tem que ter propostas para ambientação à agricultura. “Não é somente aprender a gostar de agricultura e se orgulhar de produção agrícola mas, é gostar do ambiente agrícola porque essas pessoas precisam trabalhar nesse ambiente agrícola. Vários projetos já fazem isso mas, eu confesso que a universidade ainda têm dificuldade em fazer isso. Ela faz isso ofertando chances de experiências. Essa dúvida da Esalq não é única. Reunião da Top Five na universidade de Daves, na Califórnia, pela primeira vez em março deste ano, pela segunda vez em 09 de outubro aqui na Esalq — para as outras quatro grandes universidade do mundo esse dilema também é comum.

No programa de geração de competência a Esalq está seguindo o modelo que tem três partes: primeira parte é o modelo acadêmico, disciplinar, convencional da universidade, um treinamento prático (que poderia ser os estágios) e um treinamento de liderança (são coisas novas que estão sendo trazidas pra disciplinas das universidades). Sobre liderança, todo aluno que recebe instrução de liderança tem 95% de chance de virar um bom gerente de uma grande empresa e as estatísticas mostram que 5% deles vão se tornar empreendedores. “Nós estamos no comecinho do segundo estágio, aonde as empresas de empreendedorismo buscam trazer para a sociedade eficiência e, temos um longo caminho para chegar na plena produção de inovação. Esse caminho será alcançado se nós conseguirmos produzir pessoas com conhecimento aderente as demandas da sociedade. É uma grande aspiração. Para uma universidade com 90.000 alunos como a USP isso não é trivial”, destacou.
A universidade de Ottawa aponta que a empregabilidade aumenta muito quando o indivíduo faz estágio ou trabalha durante a graduação. As notas relativas a instituição de origem, as suas médias em disciplinas, tem uma relevância bem inferior a sua capacidade de se envolver no sistema e realmente produzir conhecimento.

O que a Esalq está fazendo para mudar um pouco daquilo que faz
“Temos trabalhado na discussão do que é disciplina obrigatória e o que são optativas. Retroversão de plano político pedagógico, diz respeito a dizer que apresento primeiro para o indivíduo a vaca, para depois o aluno gostar da vaca, passar a se interessar por fisiologia da glândula mamária e assim vai. Coisa que pra quem nasceu na roça aconteceu desde o primeiro dia mas, eu vejo que isso é um problema para aqueles que ainda não tem a função cognitiva percebida. Por isso, estimulo fortemente os nossos professores, que as nossas aulas práticas tem que ser oferecidas no campo. A visão 3D é insubstituível, quando eu tenho um indivíduo na roça e andando na roça ele está aprendendo coisas que as palavras não dizem”, enfatizou o diretor Nussio.

No que diz respeito ao controle de qualidade, o número de pessoas formadas na universidade de certo modo mostra alguma qualidade. “Mas, qualidade real de um egresso é dado pelo contratador do egresso — essas pessoas é que tem que dizer se o nosso produto final é bom ou ruim. Por isso estamos chamando as empresas pra participarem das nossas linhas de avaliação e qualidade acadêmica. O aluno tem que aprender a conviver e não viver a disciplina. O convívio e a integração do todo é a capacidade de integrar conhecimento. Cabe a instituição oferecer conteúdos integrados porque se não, a população vai demorar muito tempo para adquirir essa competência e enquanto isso não acontece o mercado vai avaliando mal. Em média, um profissional de nível superior no Brasil, a maturação profissional demora dez anos — o mercado demora dez anos para dar um nota alta para a média dos profissionais. Pretendemos acelerar isso, colocando nossos alunos de frente com a vida real”, conclui Nussio.

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