O cheiro de mato, de terra molhada, rodeado de vales e morros, muito verde, riachos e cachoeiras. O ar puríssimo, as pessoas amigas e acolhedoras, a paisagem é rural e o caminho é o da ‘Luz’. Isso tudo leva ao ‘Pico da Bandeira’, um dos pontos mais altos do Brasil, com 2.891m de altitude, localizado na Serra do Caparaó, no Estado de Minas Gerais. Durante o ano todo peregrinos fazem essa rota buscando inspiração, espiritualidade, renovação no encontro com gente simples e fraternal, dogmas religiosos em meio a natureza.
O ‘Caminho da Luz’ tem 190 km de extensão, cortando 8 cidades/vilarejos (Tombos, Pedra Dourada,Faria Lemos, Carangola, Caiana, Espera Feliz, Caparaó e Alto Caparaó), na divisa entre Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, foi idealizado no ano de 2001 por Albinno Neves, um jornalista místico que peregrina por lugares “onde o pulsar de forças telúricas são verdadeiros portais de abertura entre o céu e a terra”, assim está descrito em seu livro sobre o ‘Caminho da Luz’.
Percorrendo essa rota pela segunda vez no mês de novembro passado (a primeira foi em setembro de 2008), estavam os amigos limeirenses Carlos Meneguetti, Ademir Martinati e Adilson Ruy. Todos com experiência em caminhadas, inclusive, percorrendo anualmente a romaria Limeira-Aparecida do Norte. Repetir o ‘Caminho da Luz’, contam eles, foi pura coincidência, explica Adilson “queria levar outros dois amigos que desistiram de última hora, por causa de adiamento de datas. Assim que saíram minhas férias, foi tudo muito rápido, falei com o Carlos e o Ademir, fizemos as inscrições e partimos para Tombos/MG, início da caminhada”. Carlos relata, “Após participar durante 7 anos da romaria até Aparecida, comecei a sair para outras rotas e fazer esse caminho pela segunda vez é satisfatório, porque vamos curtindo mais, apreciando detalhes que não percebemos da primeira vez, como aconteceu de conhecer a gruta da Pedra Santa, dessa vez”.
Em Tombos, o começo da peregrinação é uma cachoeira que está apenas a 238m, acima do nível do mar, e grudado a ela, uma das primeiras hidrelétricas do país, ainda em funcionamento. Continuando, o caminho passa por diversas fazendas históricas, como a preservada Fazenda Oliveira de 1845.
Após horas de caminhadas já próximos a Catuné, seguindo o desejo do Ademir, o trio de peregrinos chega à gruta de Pedra Santa. Nessa gruta, conta a história, que seu tamanho vem aumentando com o passar dos anos e quando as pedras caem, desaparecem misteriosamente. Também é descrito que a gruta foi esconderijo de escravos fugitivos. Hoje ela abriga um altar e uma imagem de ‘Nossa Senhora de Lourdes’.
“Todos os pousos são pré agendados nas casas de família. Nosso primeiro pouso foi em Catuné, no porão de uma casa, improvisado para abrigar peregrinos. Bem simples, muito limpo e um ótimo banheiro”, fala Adilson.
Durante os sete dias que irão passar juntos, assim que saem para caminhar, rezam o ‘terço’, explica Ademir, “nossa reza pela manhã é importante para nos dar força e proteção. O machucar é ruim, mas independente de ter machucado o importante é chegar. Caminhar é um tempo para se aprofundar introspectivamente”.
No segundo dia o destino é Pedra Dourada, passando pelo distrito de Água Santa, onde é possível avistar todo o vale e beber água que jorra das nascentes nas pedras da serra da ‘Mantiqueira’.
Terceiro dia o rumo é Faria Lemos, lá tem a ‘Pedra do Lagarto’, a cachoeira ‘Surpresa’ e avista-se serpenteando o ribeirão ‘Cafarnaum’. Ao longo de toda a rota, apenas 3 km são asfaltados. Carlos relata que “chegamos a andar 4 horas sem encontrar uma casa pela estrada de terra, aliás pegamos chuva num dos trechos mais íngremes do caminho, deixando nossas botas escorregadias e pesadas com a lama na sola”. Outro completa “Nossa sorte foi que choveu apenas um dia, mas não foi chuva forte, foi do tipo mansa que fica o dia todo. Mas a paisagem pelo caminho compensa. Encontramos muitas propriedades de café, gado de corte e de leite e banana. Tem muita banana por lá, passar fome ninguém passa, qualquer coisa é só comer banana, voltamos acima do peso de tanta banana. Nossa dieta também era pão com mortadela ‘Pif Paf’, que o Ademir virou fã”, se diverte Adilson.
Depois passamos por Carangola, a 600m de altitude, Caiana, Espera Feliz e Caparaó, sendo que cada cidade é um pouso, chegando sempre por volta das 14h, depois de percorrer uma média diária de 25 km. O penúltimo pouso é o Alto do Caparaó, a quase 1000m de altitude, onde está localizado o ‘Parque Nacional do Caparaó’, que abriga o ‘Pico da Bandeira’.
Conta Adilson, “Pra chegar até o ‘Pico da Bandeira’, a 2.891m de altitude, nós alugamos um jipe que nos deixou dentro do ‘Parque Nacional’, e de lá seguimos a trilha até o ‘Pico’. Esse trajeto foi feito em 3 horas, é um lugar muito íngreme e cheio de pedras. Chegando ao topo é curtir o visual, se as nuvens deixarem, se não é contemplar o “mar” de nuvens e o céu azul acima de nossas cabeças. Tiramos algumas fotos e pegamos o caminho de volta até o jipe, essa descida levou cerca de duas horas.”
O que é ser um peregrino?
A conclusão desses três “andarilhos” é que a aventura diária da peregrinação “ é encontrar coisas novas e repentinas, tendo a única certeza e fé de seu destino. É um prazer, é sentir e olhar os lugares, é encontrar outros e trocar experiências. O peregrino anda, fala e come. Cada um reage de um jeito, há desde aqueles que não sentem nenhuma transformação até aqueles que dizem ter sido a mudança que faltava na vida. Há muita busca como espiritualidade, aventura e até resultado físico. É sempre uma busca”.
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